Sensibilidade e Cultura
ENTREVISTA A JOSÉ FILIPE PEREIRA, DESIGNER GRÁFICO E ILUSTRADOR, QUE MANTÉM UMA LIGAÇÃO À CASA DA ARQUITECTURA, EM MATOSINHOS, DESDE 2014. O SEU TRABALHO MANIFESTA-SE SOBRETUDO NOS DOMÍNIOS DA ÁREA CULTURAL E ARTÍSTICA, DESIGN DE COMUNICAÇÃO, DIGITAL E EDITORIAL.  

Por entre um sem-fim de ideias e meios de as materializar, pela ainda existente necessidade de justificar a profissão e por todo um conjunto de circunstâncias que tornam a actividade ainda mais sobre pressão, José Filipe Pereira vai conseguindo deixar uma marca do seu cunho e criando um estatuto com substância. Equilíbrio e compromisso são essenciais no seu trajecto.

Entrevista: Tiago Krusse

Fotografias: Plano de José Filipe Pereira por © Pedro Rocha, outras imagens cortesia de José Filipe Pereira

O lado negativo prende-se ainda com um contínuo justificar da profissão.


O que é ser um designer nos dias de hoje?


É ser um problem solver que precisa de constante reinvenção e adaptação para responder às exigências. Debate-se com dois lados. O lado positivo prende-se com o fervilhar de ideias e meios. A tecnologia, as ferramentas, a multitude de suportes e programas. O lado negativo prende-se ainda com um contínuo justificar da profissão. Continua a ser uma posição desconfortável porque, em geral, se desconhece o nosso trabalho. No meu caso, ao dedicar-me mais a projectos culturais, identifico nesta área uma maior sensibilidade para tudo aquilo que fazemos. Há, na cultura, uma maior necessidade de comunicação, muito paralela à luta da própria cultura para se imiscuir no quotidiano das pessoas. Existe uma maior sensibilidade para que haja uma boa imagem gráfica e sobre o papel que ela tem na projecção de um determinado evento. Não deixa de ser, contudo, uma área em que os seus profissionais também têm de mudar a perspectiva para assumir a comunicação como importante na promoção e ligação ao público. Nisto, os copywriters, assessores de imprensa e designers gráficos têm um papel fundamental. Estes papéis têm de ser compreendidos e valorizados.


Be a Part Of, 2016, Casa da Arquitectura. ∏Z


E que causas se podem apontar a essa atitude perante a profissão?  

São várias as razões. Orçamentos curtos, desconhecimento do flow da comunicação, negligência do know-how. Além disto, a cultura do do it yourself está cada vez mais estabelecida. Existem programas para tudo, muitos gratuitos, em cima da já considerável quantidade de apoios gráficos das redes sociais. Tutoriais no Youtube, cursos baratos e em curto tempo, e o acesso a plataformas de oferta de serviços com preços marginais.

No meu entender o trabalho do designer gráfico depende do aspecto cultural, de país para país, de área para área, e do contexto social e político em que cada programa se insere. A valorização do designer depende da criação e do desmanchar de ilusões. Perante uma necessidade, o público familiarizado com o nosso trabalho começa a ter uma crescente consciência de um bom objecto de comunicação e dos subterfúgios e maquinações que são precisos para o criar.

The Magical Place, 2019, Livraria Lello. ∏Z


Existem motivos concretos para que o design gráfico ou a ilustração sejam tomados apenas como ferramentas secundárias?

O designer gráfico deve ser avaliado como qualquer outra profissão, objectivo e resultado. Faz-se uma ponte muito interessante entre a função — e aqui há um grande paralelismo com a arquitectura, numa escala diferente — e a estética. Isto é, o cumprir uma função de comunicação, de passar uma mensagem, e o cumprir um papel estético, de criar emoção com essa mensagem. O designer gráfico rege a este equilíbrio, muitas vezes a braços com o peso do cliente a pender mais sobre conteúdo, prazos e orçamento do que sobre meios e formas. 

Muitas das instituições culturais contemplam sempre nos seus orçamentos valores para a comunicação, contudo nem sempre com a envergadura necessária e escala adequada. Opinião partilhada com/por alguns colegas, desde a direcção de comunicação à gestão de redes socais e assessoria de imprensa. Se neste momento eu quisesse dar um orçamento com um valor considerável alocado à área criativa, para desenvolver algo generativo, algorítmico, motion heavy, ou igualmente experimental e ensaísta, tenho a consciência que poderia estar em causa uma boa recepção por parte do cliente.

Mosaico, 2021, Ginasiano. ∏Z
O Derradeiro Plano, 2022, Ginasiano. ∏Z

É mais fácil valorizar o imediatismo da função, secundarizando o conceito. Uma peça gráfica funciona a nível de comunicação quando chama a atenção, transmite a mensagem e consegue apelar ao público-alvo. Muitas das vezes o impacto estético e o standout sofrem no meio de exigências e prazos. Eu vejo, uma vez mais, alguma sensibilidade por parte da comunidade criativa e cultural de querer que exista uma boa ligação conceptual de cada peça gráfica à razão do evento.

O caso da ilustração é diferente. Requer, como o design gráfico, uma dedicação específica. É mais transparente na identidade, na relação com o seu autor e, talvez por isso, mais musculada do que o design na classificação de arte. Padecem de problemas comuns, mas acredito que o rótulo de “secundárias” se dissipa à medida que se afirmam. 

Early Music Fest, 2021, O Corvo e a Raposa. ∏Z
Dias das Virgens Negras_2022_O Corvo e a Raposa. ∏Z e Mara Taquelim

Ser um designer rápido, com boas peças, boa resposta, e ter um cunho pessoal bastante desenvolvido.

Ventania, 2021, Teatro Experimental de Lagos. ∏Z
Curtas de Danáa, 2022, Kale. ∏Z
7 Canções Orficas, 2022, Mockingbird. ∏Z
Voo, 2022, Ginasiano. ∏


Quais são as circunstâncias que ditam o sucesso e a sobrevivência neste mercado de trabalho tão específico?

Penso que esta resposta se divide em dois caminhos. O caminho de crescimento do nosso trabalho e da nossa assinatura, da consideração e referência ao nível dos nossos pares. Quando já somos procurados pelas nossas ideias, pelo iconográfico e o estético. E depois há o caminho na valorização comercial. Os dois normalmente complementam-se, quando mais poder temos no mercado, mais valorizados somos. É possível aceitar projectos diferentes onde se preveja uma margem de ensaio para acentuar o cunho estético, pessoal, e a personalidade. São dois caminhos de equilíbrio e compromisso.

O que pretende dizer com isso? 

É um compromisso difícil, conciliar as duas coisas, o estético e a função. Ser um designer rápido, com boas peças, boa resposta, e ter um cunho pessoal bastante desenvolvido. As exigências são muitas, os prazos e orçamentos apertados. É uma gestão de tempo e esforços, separar a direcção criativa do trabalho de design, e trabalhar um objectivo em constante diálogo com o cliente.

Em estúdios pequenos existe uma grande luta para conseguir fazer as duas coisas. Ou seja, para conseguir ter uma peça gráfica que tenha um impacto emocional e que depois cumpra, com as necessidades certas, a comunicação da mensagem. É um trabalho exaustivo emocionalmente que contamina todas as horas do dia. 

Dá-se então a procura?

Sim. Existe uma identificação com a abordagem conceptual, o desenvolvimento e a resposta. É um trigger que liga o cliente ao designer para lhe confiar a transmissão da sua mensagem.

Unfinished, 2021, Kale. ∏Z
Unfinished, 2022, Kale. ∏Z


Os arquitectos têm muitas das vezes uma tendência para olhar muitas profissões como menores. É, claro, uma generalização, que acredito tenda a dissipar-se.

What When Why Not Portuguese Architecture, 2021, Casa da Arquitectura. ∏Z

Foi importante o teu trabalho gráfico para a Casa da Arquitectura?

Especialmente o meu trabalho gráfico inicial para a Casa da Arquitectura, muito ligado ao nicho, que é sempre muito mais depurado e subtil. Acho que ter esta perspectiva sobre a arquitectura me ajudou nesta especificidade de encomenda no design gráfico.

Como defines o teu trabalho dentro da arquitectura?

Tenho uma relação privilegiada. A arquitectura já tem uma longa história na minha influência. Não só nas ferramentas como no pensamento. O meu primeiro mestrado foi na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e o meu primeiro trabalho no gabinete Nuno Sampaio Arquitectos, actual director executivo da Casa da Arquitectura. Exerci 3 anos. Foi o suficiente para perceber que muita da liberdade, sensibilidade, equilíbrio e gestão de dicotomias, de que aqui falo, merecia ser aprofundada a uma escala diferente. A arquitectura também é mais do que achamos que é arquitectura. Um exemplo disto foi a Estratégia Urbana, com um conceito similar ao da Casa, de promoção das obras da profissão e que procurava uma ligação maior ao público em geral e ao mundo académico. O designer encarregue na altura deste projecto, tanto de branding como comunicação, era o António Queirós. De certa forma percebi o “tom” que uma peça neste contexto deve ter. Estruturada, detalhada, subtil, mas cheia de intenção. Uma abordagem muito próxima ao que aprendi com a arquitectura.

Abertura Real Vinícola, 2017, Casa da Arquitectura. ∏Z
15.º Congresso dos Arquitectos, 2018, Ordem dos Arquitectos. ∏Z

É verdade que os arquitectos têm uma tendência para olhar para os designers como um colega menor?

Os arquitectos têm muitas das vezes uma tendência para olhar muitas profissões como menores. É, claro, uma generalização, que acredito tenda a dissipar-se. Souto de Moura, Siza, Carrilho da Graça, os grandes nomes da arquitectura nacional e internacional, têm uma grande ligação ao designer gráfico. Trabalham lado a lado. Exemplo disto são os trabalhos dos R2, Dobra, Pedro Nora e Pedro Falcão em exposições e publicações de arquitectura, sinalética, branding e intervenção em espaço público. Eu noto que neste nível o respeito pelo designer gráfico é muito maior que numa faixa média de arquitectos onde alguns têm a vontade/necessidade de se aventurar no campo do design gráfico, a começar pela sinalética dos espaços que criam e a acabar no editorial dos catálogos e portfolios que apresentam. É certo que podem ter algumas ferramentas mentais que lhes permitem deambular no campo do gráfico, equipamento e produto, mas os pormenores e a agilidade deste campo exigem uma dedicação maior.

Plural, 2019, Casa da Arquitectura. ∏Z
Percursos, 2021, Casa da Arquitectura. ∏Z

Como é que foi começar a trabalhar com a Casa da Arquitectura?

Orgânico. Cresci com a Casa da Arquitectura e o meu trabalho cresceu com ela. A instituição foi fundada em 2009, e a projecção era local, mas ambiciosa. Uma equipa pequena, mas multifacetada e muito capaz. Entrei em 2014 para trabalhar na comunicação, imagem e eventos, e auxiliar a equipa no que fosse preciso.  O espaço na altura era mágico e inspirador, o 582 da Rua Roberto Ivens, uns dos primeiros projectos de Álvaro Siza. 

Naquela altura já se estava a preparar para o salto gigante do Centro Português de Arquitectura, já com outra envergadura não só institucional, mas física. Eu acompanhei todo esse processo. A actual identidade visual foi-me encomendada na altura — reformulada em 2014 e apresentada em 2015 à direcção — mas com uma série de premissas. A imagem anterior, criada pelo António Queirós, era muito ligada ao projecto da Casa da Arquitectura que o Siza estava a desenvolver para a Câmara de Matosinhos. O projecto não avançou. Mas avançou a reabilitação da Real Vinícola e a nossa instalação no quarteirão, em 2017. 

Na altura, 2014, decidiu-se respeitar o trabalho do António Queirós com pequenas modificações à imagem, como retirar o esquisso de um projecto já sem consequência. O naming “Casa da Arquitectura” deveria ser incontornável da imagem, não estar associado a um símbolo gráfico, mas ser um exercício de cheios e vazios com a tipografia vigente, um condensar de várias noções, em 2D, do que significa esculpir e conformar espaço.

Posso dizer que na Casa da Arquitectura há um grande respeito pelo designer gráfico não só por aspectos ligados à comunicação, mas também ao nível expositivo e editorial. No meu caso permitiu-me trabalhar toda uma imagem gráfica que tem vindo a crescer num projecto que vai ganhando mais corpo e novas dimensões. Tem, no entanto, já várias limitações, reflexo das crescentes necessidades e vertentes da Casa. Para as grandes exposições e eventos, por serem objectos com vida e escalas próprias, recorremos a designers externos, muitas vezes recomendados ou já com ligações aos curadores. O nosso trabalho aqui é de ligação aos caminhos normais de comunicação da Casa. O que se sente sempre é um respeito mútuo. Acredito que os designers gostem de trabalhar com a Casa. É o que esperamos de um bom cliente: participativo, conhecedor, compreensivo, mas também exigente. E esta exigência só retira também o melhor de mim e dos profissionais que são contratados. 

© Pedro Rocha

José Filipe Pereira


José Filipe de Oliveira Pereira, Porto, 1984. Designer gráfico (Escola Superior de Media Artes e Design / Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto). Tem uma ligação, desde 2014, até aos dias de hoje com a Casa da Arquitectura, em Matosinhos.

A sua actividade como ilustrador e designer gráfico também se mantém desde 2004, reunindo um conjunto de projectos para várias entidades incidindo sobretudo na área cultural e artística, no design de comunicação, no digital e no editorial. Salientam-se os trabalhos com a Kale Companhia de Dança, Ginasiano Escola de Dança, Armazém22, O Corvo e a Raposa, Ordem dos Arquitectos e Casa da Arquitectura.