Premiar a fotografia de arquitectura
PIONEIRA DOS PRÉMIOS DE FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA, INSERIDOS NO FESTIVAL MUNDIAL DE ARQUITECTURA,  LYNNE BRYANT REVELA OS PROPÓSITOS DA INICIATIVA E EXPRESSA A IMPORTÂNCIA DE QUEM OLHA PARA A ARTE DE FOTOGRAFAR.

A importância da relação entre fotógrafos e arquitectos é sublinhada por Lynne Bryant, directora dos Prémios de Fotografia de Arquitectura, que salienta também os relatos que lhe são transmitidos sobre as dificuldades sentidas por todos os profissionais no sector.

Lynne Bryant, directora dos Prémios de Fotografia de Arquitectura. Fotografia de Richard Bryant.

Texto: Tiago Krusse

Fotografia e imagem: Cortesia de Lynne Bryant

São inúmeros os fotógrafos talentosos e qualificados que estão a complementar as suas fontes de rendimento com outros tipos de trabalho

Do que se trata nos Prémios de Fotografia de Arquitectura?

Os prémios funcionam como uma chamada de atenção para a importância de uma boa fotografia de arquitectura. A sua organização tem como objectivo aumentar a percepção dos arquitectos para a importância de uma boa relação de trabalho com os fotógrafos. Que os arquitectos os considerem como parte das suas equipas e que se lembrem de dar os devidos créditos do seu trabalho.

Como escreveu Paul Finch, director do programa do Festival Mundial de Arquitectura, “agora que todos são fotógrafos, a importância da boa fotografia de arquitectura tem aumentado devido à miríade de imagens, que trazem clientes todos os dias e que captam a atenção de juízes premiados. O programa dos Prémios de de Fotografia de Arquitectura é uma recordação anual que sublinha como esta fotografia profissional específica pode contribuir para uma melhor compreensão da nossa percepção do design, ao invés de se limitar apenas a registar o que lá está.”

Quem começou e como foi desenvolvido?

Comecei-os em 2012 e logo nesse momento o Paul Finch percebeu perfeitamente quais os meus propósitos. A colaboração inicial do Paul não se limitou apenas a apreciar as entradas para os prémios de arquitectura, a sua experiência acumulada como editor executivo da revista Architectural Review e em outra séries de participações em processos de revisão de projectos foi fundamental.

As fotografias têm de contar a história e isso foi o cunho essencial que o Paul deu à primeira e única visita aos Prémios da Fotografia de Arquitectura e uma consequente plataforma, inclusa dentro do Festival Mundial de Arquitectura. Depois recebemos apoio da empresa Sto AG, que tem estado connosco desde o início. A partir daí outras empresa e fabricantes foram contribuindo ao longo deste caminho.

Em que regiões do mundo se encontra menos interesse ou dificuldades em participar nos prémios?

Quando conseguimos chegar aos países há interesse. É espantoso registarmos entradas do Irão ou termos um grande número de seguidores na China. Eu gostaria de contar com mais participações da América do Sul, de África e da Europa. Mas percebo que estabelecer contacto com estas regiões é um pouco feito aos remendos.

Como tem visto o papel da fotografia e o pensamento dos fotógrafos, em relação à arquitectura, ao longo destas últimas décadas?

O que me relatam jovens fotógrafos é que se está a tornar cada vez mais difícil ganhar a vida. São inúmeros os fotógrafos talentosos e qualificados que estão a complementar as suas fontes de rendimento com outros tipos de trabalho. Há quem trabalhe como estilista independente, outros em órgãos de comunicação social e ainda quem se aventure pelo marketing on-line.

Penso que a plataforma Instagram não está a ajudar porque há curiosos da fotografia com muitos seguidores e que têm a oportunidade de captar imagens únicas mas percebemos que nem todos conseguem contar, por exemplo, a história de um edifício. Obtenho informação que diz que muitos fotógrafos profissionais estão a afastar-se desta plataforma, procurando melhores meios, mais selectivos, para difundir o seu trabalho.

A fotografia ainda é relevante para a sociedade?

Sim! Absolutamente. Sem a fotografia não se pode dar uma opinião real e mais reflectida sobre um determinado olhar. Com as imagens em movimento tornamo-nos passivos, vamos sendo distraídos e conduzidos para onde o realizador nos quer levar, ditando ele o ritmo. Com uma imagem estática há uma grande diferença, o espectador é o responsável pelo que vê, pode optar por observar durante mais tempo, concentrar-se num pormenor ou não aprofundar.

Pode nomear alguns fotógrafos cujo trabalho lhe causou maior impacto?

O meu marido, claro -Richard Bryant. Trabalhámos durante a era dourada da fotografia de arquitectura. Uma era em que os arquitectos ganhavam importância, estatuto nos meios de comunicação e que dispunham de bons orçamentos. Desde o primeiro projecto construído por Zaha Hadid, mobiliário, à concepção do campus da Vitra, o trabalho de Foster em Hong Kong … Rogers e Lloyds … o interesse e influência da Tadao Ando. A tudo isso juntaria trabalho de componente histórica. Viajámos muito.

Quais são os desafios que a fotografia está a enfrentar? A digitalização trouxe vantagens ou desvantagens ao acto de fotografar?

Uma, das várias vantagens, é não ter de viajar com 30 quilos de slides de 5 x 4 ou ter de insistir em quartos de hotel com casas de banho sem janelas. Isto porque no final do dia era imperativo fechar-nos na casa de banho, na escuridão, descarregar a película e recarregar uma nova para o dia seguinte.

A desvantagem que vejo é a falta de disciplina e a incapacidade de reflectir -editar- antes de tirar a fotografia

É barato continuar a fotografar e possivelmente escolher alguns bons planos mais tarde para adorno perfeito de Instagram. Esta é uma das razões pelas quais os fotógrafos profissionais estão a ser injustamente comparados a uma pletora de fotógrafos de redes sociais.

Como é que Lisboa a faz sentir?

Gosto muito de Lisboa. A última vez que a visitei foi aquando da organização de uma visita à cidade para o Clube de Arquitectura. Tive a ajuda preciosa para obter acesso e transporte providenciada por um arquitecto sediado em Lisboa, o Sven Klocker da Bau Architektur. Foi uma viagem maravilhosa. Desta vez só tenho pena de não ter tempo para ficar depois do Festival Mundial de Arquitectura. Ainda assim terei a oportunidade de encontrar amigos e estou ansiosa por uma refeição especial no Solar dos Presuntos.



Lynne Bryant


Vive no Reino Unido onde se dedica ao trabalho com fotografia, à arquitectura e aos meios de comunicação.

Viajou de forma intensa, visitando projectos de arquitectura antigos e novos, em parceria com o seu marido, o fotógrafo Richard Bryant.

Tem uma quantidade apreciável de textos publicados por diversos órgãos de comunicação social e durante uma década foi contratada para escrever sobre arquitectura e interiores para a Ambiente, que se tornou a Architectural Digest Germany. Teve a rubrica Londres na Belle Australia.

Fundou e deteve por muitos anos a Arcaid Images, um acervo de imagens sobre o mundo da construção.

Foi presidente da British Association of Pictures Libraries and Agencies.

É actualmente presidente honorária do Clube de Arquitectura.