Alain Gilles
Nomeado designer do ano pela Bienal Interieur, na Bélgica, fomos ao seu encontro para percebermos um pouco da sua vida e do seu pensamento. Encontrámos uma pessoa simples, segura dos seus valores e com uma clareza de abordagem sobre o seu percurso.
Entrevista: Tiago Krusse
Fotografia: Retrato de Alain Gilles cortesia de Serge Anton

Quais as razões que o levaram à decisão de que era tempo de mudar a sua vida e tornar-se um designer?
Nunca julguei que fosse possível alterar por completo a minha vida aos 32 anos. Após ter completado os meus estudos em ciências políticas e um trabalho universitário durante um ano como assistente de pesquisa num curso de pós-graduação, eu já tinha tentado de moto próprio criar peças de design e arte. Ao fim de 6 meses acabei por realizar que nunca iria levar uma vida decente naqueles moldes. Foi então que procurei um trabalho “normal”, respondi a uma primeira proposta de trabalho e aterrei no mundo financeiro da J.P. Morgan. Passados dois dias na empresa percebi que aquele não seria o trabalho que me iria preencher não obstante ter permanecido na empresa perto de cinco anos. Era um trabalho denso, com muito stress mas com gente excelente. Foi um período de grande dilema pessoal mas a ele devo o facto de me ter permitido chegar à conclusão que queria mudar de vida e fazer o que eu estava destinado a fazer. Foi um lugar para aprender o que é trabalhar no duro, de forma eficiente e com a precisão necessária tendo em conta as avultadas quantias de dinheiro que estavam envolvidas naquela actividade. Precisei de mudar de via e a minha mulher compreendeu isso e, em certo sentido, deu-me o aval moral para seguir em frente.
Foi fácil regressar à escola e recomeçar tudo de novo?
Nunca é fácil regressar à escola depois de já termos trabalhado e vivido no mundo real. Tinha acabado de casar, comprado uma casa e por isso foi uma mudança de planos algo dramática. Mas esse regresso à escola depois da experiência profissional tornou-se algo diferente pois já sabia qual a razão que ali estava de novo e o que precisava realmente de aprender. Estava a viver em Bruxelas mas entrei para o Instituto Superior de Design, em Valenciennes (França), e como se pode calcular não estive presente nalgumas aulas que não eram relevantes para mim.
Como descreve esses anos no Instituto Superior de Design?
Foi um período muito bom, as pessoas e os outros alunos foram maravilhosos. Eu era 10 anos mais velho que todos os outros alunos, gerações bem diferentes. Ao cont´rario do que acontece noutras escolas de design, tínhamos muito trabalho para fazer e agrupava-nos o que permitiu uma boa troca de ideias e opiniões. Algumas vezes surgiram conflitos e pontos de vista diferentes relativos ao tratamento de perguntas ou à apresentação específica de um design. Tudo isso tornou aqueles momentos ainda mais interessantes. Foi um período intenso, não tive muito tempo para dormir e o desgaste causado pelas viagens entre os dois países era grande. Tive de recuperar muita matéria uma vez que consegui evitar os dois primeiros anos dos cinco do total do curso.
Como surgiu a oportunidade de trabalhar para Arne Quinze?
Fui contratado por Arne Quinze de uma forma acidental. Após ter completado o primeiro ano de design industrial (oficialmente o terceiro ano) eu já tinha feito um estágio com Xavier Lust. Naquela altura Xavier e Arne eram de facto as estrelas emergentes do design belga. Já estava também a trabalhar a nível individual, sempre que tinha tempo para isso, a inteirar-me do mercado e a fomentar contactos com grandes editores e produtores de mobiliário. Comecei a visitar diferentes feiras do sector a nível europeu. Na altura um amigo meu que estava a trabalhar para um projecto nocturno para a Lucky Strike viu um dos meus projectos e quis que eu o produzisse para o evento. Era um assento chamado Hotel Grande que era para ter capa em vez de ser estofado e foi assim que entrei em contacto com Quinze & Milan, numa altura em que ainda estava a estudar. Eles viram o meu trabalho através do meu sítio e pensaram que eu já era um profissional com o seu próprio estúdio ou a trabalhar em regime de freelance. Elas estavam à procura de um designer para trabalhar durante um ano. Disse-lhes que ainda estava a estudar mas que iria precisar de um estágio de seis meses após completar os meus estudos. Eles ofereceram-me trabalho de imediato. No princípio comecei a trabalhar nuns assentos para um projecto de arquitectura, um teatro em Dallas (EUA), o WYLY Theater da autoria do NY Studio liderado pro Rem Koolhass (OMA NY que depois se tornou REX). Nos meus últimos seis meses de estudos, numa altura em que eu era suposto começar um estágio, comecei logo a trabalhar para eles a tempo inteiro.
Como é que esses dois anos e meio de trabalho para Arne Quinze influenciaram as suas reflexões e abordagem ao design?
Foi um período fantástico aquela a trabalhar para Quinze & Milan. Existia imensa energia naquela empresa. O Arne acreditava que podia fazer tudo, trabalhar para os grandes nomes e nos mais variados segmentos de produto. Nessa altura o estúdio ainda era muito pequeno e tudo se produzia ali. Só nós tínhamos acesso à produção e à oficina em que os novos projectos se transformavam em protótipos seguindo-se depois o confronto de ideias com as pessoas que iram produzir as peças. Enquanto trabalhei para a Quinze & Milan aprendi em profundidade sobre os constrangimentos de produção, técnicas e tolerâncias. E vive esse período num estúdio em que tudo parecia exequível. Fui também chamado a trabalhar numa diversidade de projectos, desde design de sapatos para Onitsuka Tiger até peças de mobiliário e inclusive arquitectura. Mas aprendi tanto quanto quando trabalhei para o Xavier Lust. Formas distintas de trabalho, o Xavier mais centrado no detalhe e perfeição enquanto que o Arne era uma explosão de criatividade levada de uma forma impulsiva. Estas duas figuras do design belga têm verdadeiramente posturas opostas. Em termos pessoais sinto-me num meio termo entre elas. Eu posso ser muito espontâneo mas pretendo fazer sempre o projecto certo, prestando atenção a todos os detalhes… o mais possível mas até um ponto necessário!
Trabalhou noutros projectos. Quais foram os mais importantes para o seu estofo pessoal e de conhecimento enquanto profissional?
Eu diria que cada projecto ou trabalho que tive é que me fizeram ser como sou. Tendo trabalho em diversos campos, o estudo em ciências políticas e marketing e gestão deram-me a capacidade de perceber as pessoas e maneiras de pensar nas suas diversidades. Assim que tens o teu estúdio não é preciso apenas fazer design, é necessário ter a capacidade de ir ter com as pessoas e perceber quais são os seus interesses. Muitas das vezes não é nada mais do que explicar um projecto através de diferentes perspectivas de modo a que a pessoa interessada em investir no teu projecto possa sentir-se segura. Das minhas primeiras experiências que contribuíram para o meu conhecimento enquanto designer houve dois que forma muito importantes pois cada um deles foi uma primeira vez. A cadeira para o teatro em Dallas foi o meu primeiro trabalho como designer no mundo real. Foi produzida pela Moroso. Quando fui ver o protótipo, durante dois dias, à fábrica em Udine (Itália) e por ter visto como um trabalho em 3D se tinha transformado num produto real, para lá do desenho, isso deu-me imenso conhecimento sobre ergonomia e a inteligência dos pequenos detalhes que forma quase suficientes para explicarem quase tudo. Falámos línguas diferentes, italiano comigo e eu respondia em espanhol mas percebíamo-nos perfeitamente. Senti que tinha ganho dois anos de avanço! O segundo proejcto foi quando desenhei a primeira colecção para Qui est Paul? E vi as primeiras peças a saírem dos moldes.
Em 2007 quando decidiu abrir o seu próprio estúdio que orientação e conhecimento possuía para poder desenvolver produtos e serviços?
Penso que quando abri estúdio ainda não tinha uma ideia da orientação que queria tomar. Foi uma decisão que tomei tendo em conta que precisava de trabalhar o meu design e começar a deixar um traço do meu percurso. Por alguma razão, os primeiros projectos tinham a mesma lógica sobre a qual ainda mantenho o meu trabalho. Nesse sentido já sabia parte do que queria expressar e possivelmente por ser mais velho do que a maioria das pessoas que se iniciarem na sua própria actividade como designer.
Por que razão na maioria dos caso é mais fácil para um designer mostrar as suas capacidades por trabalhar para um empresa conhecida ganhando reconhecimento por isso do que trabalhando por conta própria?
Uma empresa firme no mercado tem por definição muito conhecimento, boa distribuição, poder de comunicação e acima de tudo a credibilidade que advém dos seus produtos já editados e dos designers que quiseram associar às suas colecções. Por um lado, ter um trabalho produzido por uma boa marca é como um corta-mato. Significa que ganhaste um melhor e mais amplo acesso aos factores que contribuem para o bom design. Por outro, ao trabalhares para uma marca ganhas menos uma vez que és pago por direitos de autor mas o teu investimento pessoal e risco é menor. Tive desde o início a oportunidade de trabalhar para boas marcas como a Bonaldo mas também fazer parte do processo criativo de novas marcas como a Qui est Paul? e a O’Sun. Trabalhar com uma nova marca e ser parte integrante da sua criação requer um trabalho imenso e é muito gratificante quando se é bem sucedido porque, como designer, tens a oportunidade de estar por dentro de todo o processo. Não se desenha apenas o produto, há que cria o logo, os valores da marca e por vezes as embalagens e o sítio. Nós mais o DNA da marca e da alguma forma o indivíduo como parte integrante dessa estrutura permite que mais tarde seja mais fácil desenhar para essa mesma marca pois estaremos próximos dela e saberemos como jogar dentro dos seus valores.
Durante estes cincos anos quais foram as maiores dificuldades com que deparou e que teve de ultrapassar?
A decisão mais difícil foi a de tomar o risco de lançar o meu próprio estúdio. Queria trabalhar com editores naquela base dos direitos de autor e sabia que os primeiros anos seriam duros. Tive a sorte de eles terem passado relativamente rápido. A segunda fase mais complicada teve início há um ano atrás, quando comecei a ter demasiado trabalho e pedidos tendo que organizar tudo sozinho. Não estava ainda preparado para criar um estúdio a sério com outras pessoas a trabalhar para mim. Finalmente ultrapassei essa fase e criei, em termos físicos, um estúdio real com suficiente espaço para poucas pessoas. Somos apenas dois de momento, eu e um estagiário, que integrará o estúdio depois dessa fase. Já sei que vou precisar de mais uma mão mas a minha verdadeira paixão é desenhar e não gerir pessoal, que obriga ir de reunião em reunião… a ideia é não se tornar um estúdio grande. Quero manter aquela liberdade de apenas aceitar trabalho que considero interessante e merecedor de investirmos tempo nele. Não quero chegar aquela situação em que estaríamos a aceitar trabalhos de forma a podermos pagar ao pessoal do estúdio. A ideia, em definitivo, é não crescer demasiado depressa.
Sente que existe muita manipulação e influência das grandes marcas sobre os consumidores e utilizadores?
Qualquer pessoa ou marca se estiver numa posição de destaque ficaria feliz em fazer acreditar que aquilo que está a fazer é o que conta e o caminho a seguir. É humano ou é como funciona a natureza das coisas. Se tiveres a possibilidade também queres ser a referência. O poder quer influenciar e usar dessa influência para manter ou aumentar os seus interesses! Até certo ponto isso acontece até ao momento em que é conquistado status, credibilidade ou sucesso que as pessoas e a imprensa olham para o todo como tendência mesmo quando já deixou de ser uma verdadeira tendência.
É relevante para si que algumas pessoas estejam sempre preocupadas em lançar tendências?
É claro que não mas vejo isso com normalidade. As pessoas apenas se podem lembrar de muitos nomes e o trabalho de alguns designers. No momento em que esse objectivo é sucedido é normal que só dure um certo tempo. Alguma inércia é criada até que as pessoas e a imprensa decidem que aquela pessoa já não é mais a referência. Tens mais presente na memória o que um designer que conheces tem feito do que é feito por outros cujo nome ainda sequer fixaste. O mesmo acontece com cantores, artistas…
Com define se um produto é bom ou mau?
Os produtos da minha autoria (pois posso ter diferentes critérios para outros) deixam-me feliz quando são novos, interessantes ou artísticos mas preservando a sua funcionalidade. Não tenho nada contra trabalhos de galeria e no que ao meu trabalho diz respeito quero que as peças se mantenham totalmente úteis. Faço o que realizo que o desafio é produzir algo inovador com uma história e uma visão personalizada enquanto garanto a alta funcionalidade e evito investimento desnecessário ou transformações posteriores. Costumo dizer que brinco com a simplicidade, apresentando um produto que é simples mas suficientemente complexo para manter o interesse e a frescura. A Big Table e as mesas Tectonic para a Bonaldo, os canteiros e a mesa para a Qui est Paul? são bons exemplos dessa simplicidade. Ultimamente comecei a trabalhar numa nova simplicidade, que me parece correcta com os nossos tempos. São peças muito simples, gráficas e em certo modo iconográficas mas não obstante com uma personalidade única tal como as peças minimalistas, que muitas vezes são vistas como parecidas a qualquer outra coisa e parecendo não ter aquela identidade que torna cada design diferente e único. Esta nova simplicidade pode ser percebida em produtos como a mesa Welded para a Bonaldo, Conteiner para a Casamania, o candeeiro Nomad para a O’Sun ou no produto para a Buzzispace. Reparo que tendo a ficar satisfeito com um produto que concebo quando ele tem um lado feminino e masculino. Se apenas um lado está presente não fico satisfeito e ganho a sensação de que está ora demasiado frio ou delicado. Mas o bom produto para mim também é aquele que tem o potencial de envelhecer bem. Creio que o bom design tem de ter uma qualidade duradoura e a possibilidade de ser apenas reinterpretado através do uso de cores ou acabamentos diferentes ao longo dos anos.
Quais são os factores cruciais que orientam os seus projectos até eles chegarem aos mercados?
Quer eu realize um projecto com um produtor, editor, garanto que a essência do produto nunca será perdida mesmo deixando algum espaço para a flexibilidade pois cada empresa tem a sua forma específica de resolver dificuldades técnicas. Tento sempre garantir que o produto faz sentido para o produtor que estou a trabalhar ou a quem o proponho. Que o produto, graças ao uso de diferentes cores e acabamentos, possa ganhar diferentes personalidades e assim tocar ou fazer sonhar as pessoas de maneiras distintas… nesse sentido ele alarga o seu alcance de mercado e apreciadores diminuindo o risco para e a empresa!
Como reagiu quando soube que foi nomeado Designer do Ano 2012 pela Interieur?
Bem, a princípio fiquei muito surpreendido e depois pensei que era uma boa oportunidade de tornar o meu trabalho melhor conhecido. É claro que também é uma muito boa oportunidade para os produtores que depositaram a sua fé no meu design e visões.
Para os próximos anos que desafios profissionais quer ultrapassar?
Eu penso que já tens sorte de ter a possibilidade de fazer mais e mais projectos. O mais difícil é garantir que farás sempre trabalho com qualidade. Se o teu trabalho se torna mais reconhecido e o teu nome cresce, os produtores sentem-se inclinados a produzir apenas porque o produto leva a tua assinatura… porque te tornaste rentável.
Como vê o futuro para o design?
Design tem e terá sempre semelhanças à sociedade de onde surge. Como consumidores só temos o que merecemos ou se quiser aquilo para o qual estamos preparados.
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