Natalia Olszewska
Licenciada em medicina e co-fundadora da Impronta, a polaca Natalia Olszewska advoga a ideia de uma estreita ligação entre as ciências humanas e o design aplicado na arquitectura por forma a criar ambientes que possam prevenir doenças, através de espaços que promovam a saúde, a resiliência e a vitalidade humana. Aprofundou os seus conhecimentos em neurociência e a partir deles estabeleceu pontes para a prática, iniciando um conjunto de colaborações com reputadas empresas de arquitectura. Na sua vinda a Lisboa, como convidada do II Encontro de Neuroarquitectura, explorámos o movimento da neurociência aplicada ao projecto arquitectónico e a ideia de uma execução, com base científica, dados e directrizes, que já está a permitir uma evolução na forma como se concebe o ambiente construído.
Entrevista de Tiago Krusse
Fotografia: Fotografia de abertura Iwaszko Photography, cortesia da Impronta e da Academia Portuguesa de Neuroarquitectura

Quais são os motivos que, nos últimos anos, levaram à crescente necessidade de estabelecer ligações entre a neurociência e o design?
Na última década, os avanços em neurociência, psicofisiologia e psicologia ambiental tornaram visível o que por muito tempo foi apenas intuído: que os espaços que habitamos afectam profundamente os nossos níveis de stress, atenção, emoções, comportamento e, com certa probabilidade, a nossa saúde a longo prazo. Ao mesmo tempo, a neurotecnologia desenvolveu-se rapidamente. Hoje, podemos medir respostas cerebrais e fisiológicas por meio de ferramentas como EEG, variabilidade da frequência cardíaca, conductância da pele, rastreamento ocular e sensores móveis. Estes instrumentos permitem-nos estudar como as pessoas realmente reagem a ambientes reais, não apenas em laboratórios, mas cada vez mais em situações da vida real. Isto representa uma mudança profunda.
Já não estamos a falar apenas de impressões ou de experiências subjectivas – agora podemos observar, correlacionar e quantificar como o sistema nervoso reage ao espaço. Ao mesmo tempo, vivemos numa era de stress crónico, esgotamento profissional, crises de saúde mental e sobrecarga sensorial em cidades, locais de trabalho, residências e hospitais. O ambiente construído deixou de ser um pano de fundo neutro para esses problemas e tornou-se um participante activo neles.
Por isso, a necessidade de interligar neurociência e design não ser uma tendência passageira, mas sim uma necessidade urgente. Hoje, dispomos de ferramentas científicas para compreender como os ambientes moldam o cérebro e o corpo, instrumentos tecnológicos para medir esses efeitos e uma forte pressão social para criar espaços que não prejudiquem, mas que promovam activamente a saúde. Neste sentido, a neurociência confere à arquitectura uma nova responsabilidade: não apenas ser funcional e bela, mas também biologicamente e psicologicamente benéfica.
Como pode um médico aprofundar os seus conhecimentos no trabalho de design e de espaços construídos?
Para mim, essa trajectória não representou uma mudança repentina de carreira, mas sim uma mudança gradual de perspectiva. Formei-me e trabalhei na área médica por muitos anos, onde o foco é necessariamente no que já deu errado – doença, disfunção, patologia.
Ao mesmo tempo, o meu interesse pela neurociência crescia cada vez mais: não apenas por neurologia clínica ou psiquiatria, mas também de que modo o cérebro percebe, se adapta, regula o stress e a atenção, e interage com o ambiente.
A arquitectura sempre esteve presente na minha vida através de viagens e relacionamentos pessoais, mas o momento em que estes dois mundos realmente se conectaram foi em Veneza, durante a bienal, pouco tempo depois de me formar em medicina.
Essa experiência fez-me perceber que a arquitectura não é apenas uma prática cultural ou estética – é também uma poderosa ferramenta de saúde preventiva. Anos mais tarde, essa intuição levou-me de volta a Veneza para estudar Neurociência Aplicada ao Projecto Arquitectónico (NAAD) na Universidade Iuav. Foi nesse momento que a minha identidade profissional realmente mudou: de tratar doenças para entender como os ambientes podem ajudar a preveni-las.
Em que área académica da neurociência percebeu que estava a preparar-se para colocar em prática novas metodologias com o objectivo de reformar o espaço construído, proporcionando assim melhores condições para aqueles que o habitam?
O ponto de mudança ocorreu quando ultrapassei os limites da neurociência estritamente clínica – ou seja, da medicina – e entrei nos campos da neurofisiologia e da neurociência cognitiva durante meus estudos em neurociência. Essas disciplinas não se concentram apenas em doenças, mas em como a atenção, a percepção, o stress, as emoções e a tomada de decisões se moldam pelo contexto e pelo ambiente. Pela primeira vez, comecei a perceber claramente que o cérebro não funciona de forma abstrata – ele é constantemente moldado pelos espaços que habitamos.
Por esse altura, também descobri a ANFA, a Academia de Neurociência para Arquitectura, que já estava activa há vários anos. Saber que esse diálogo entre neurociência e arquitectura existia formalmente foi profundamente formativo para mim. Em 2012, enquanto pesquisava em Helsínquia, deparei-me com o livro Os Olhos da Pele, de Juhani Pallasmaa. O livro teve um impacto profundo em mim – ele articulava, de uma perspectiva fenomenológica, o que a neurociência começava a revelar a partir de uma perspectiva biológica. A partir daquele momento, comecei a procurar colaborações com arquitectos.
Anos mais tarde, durante a primeira edição do programa NAAD em Veneza, conheci pessoalmente Pallasmaa. Naquele momento, o meu caminho já estava claramente definido. O meu trabalho subsequente com Itai Palti no seu estúdio Hume, demonstrou-me como a neurociência pode ir além dos laboratórios e inserir-se em projectos reais, edifícios reais e experiências humanas reais.
Foi aqui que encontrei meu lugar – não na pesquisa puramente académica, mas no trabalho de transferência: na construção de pontes entre as ciências humanas e a prática espacial, e na transformação do conhecimento científico em ambientes que apoiam concretamente a vida humana.

Existe um perigo em acreditar que a ciência é a resposta para tudo. Isto porque os cientistas também são humanos e, como tal, possuem as mesmas qualidades e falhas que todos as outras pessoas. Como vê uma maneira razoável de praticar a multidisciplinaridade sem se deparar com conflitos decorrentes de estatuto ou ego?
A ciência não está isenta de limitações humanas – os cientistas carregam preconceitos, interesses, estruturas culturais, e a própria ciência está inserida em sistemas económicos, políticos e institucionais. As agendas de pesquisa são moldadas pelo financiamento, pelas prioridades dos estados e das indústrias, e, por vezes, a ciência pode ser usada para justificar narrativas que têm muito pouco a ver com o bem-estar humano. Portanto, sim, o perigo do cientificismo, de acreditar que a ciência é “a resposta para tudo”, é real.
Ao mesmo tempo, olho a ciência como um dos sistemas epistémicos colectivos mais avançados que a humanidade desenvolveu – não porque seja perfeita, mas porque se corrige continuamente. A medicina é um bom exemplo: passou da prática baseada na intuição para a medicina baseada em evidências, o que melhorou radicalmente os resultados, a segurança e a responsabilidade. Não eliminou a incerteza, mas deu-nos uma base ética e metodológica comum.
Hoje, quando começamos a entender que a arquitectura afecta diretamente a biologia humana, a regulação do stress, a cognição e a saúde mental, a integração da ciência deixa de ser um “diferencial” e passa a ser uma questão de bioética. Se os nossos ambientes moldam activamente o sistema nervoso e a saúde a longo prazo, então o design não pode basear-se apenas na intuição, nas tendências ou na estética.
Dito isso, não estou a defender uma abordagem prescritiva e tecnocrática para o design. A multidisciplinaridade só funciona quando cada área mantém a sua dignidade. Arquictetos não se tornam neurocientistas e neurocientistas não se tornam designers. O verdadeiro trabalho acontece na tradução, na humildade e no respeito mútuo. Ego e estatuto são desafios em todas as profissões. O antídoto não é a hierarquia, mas um propósito compartilhado: criar ambientes que não causem danos e que realmente apoiem a vida humana.
Para mim, as evidências devem informar a criatividade, não substituí-la. E a intuição deve permanecer viva, mas precisa tornar-se uma intuição consciente e responsável, fundamentada na consciência biológica e psicológica.
Quando surgiram as primeiras evidências de que o projecto arquitectónico estava a negligenciar aspectos mais profundos relacionados ao bem-estar espiritual e emocional?
A intuição de que o espaço afecta a psique humana é antiga e está presente na arquitectura sagrada de diversas culturas, mas as primeiras evidências científicas surgiram muito antes do que muitos imaginam. Já em 1947, o psicólogo Donald Hebb demonstrou que animais criados em ambientes enriquecidos desenvolviam melhores habilidades cognitivas do que aqueles criados em condições de privação. Essa foi uma das primeiras provas experimentais de que os ambientes moldam activamente o cérebro.
No final da década de 1950 e da década de 1960, o trabalho de John B. Calhoun revelaria ainda mais como as condições espaciais influenciam o comportamento de maneiras drásticas. As suas famosas experiências sobre o “sumidouro comportamental” mostraram que ambientes superlotados, mesmo quando os recursos materiais eram abundantes, levavam à desestruturação social, agressão, isolamento e comportamentos patológicos. Esses estudos tornaram visíveis as profundas consequências psicológicas e sociais de ambientes mal projectados.
Em paralelo, experiências urbanas modernistas, como o conjunto habitacional Pruitt-Igoe em St. Louis durante as décadas de 1950 e 60, mostraram, em escala urbana real, como uma visão arquitectónica desconectada das necessidades psicológicas humanas poderia contribuir para o colapso social e a violência. Na década de 1970, surgiu o conceito de “síndrome do edifício doente”, revelando que os próprios edifícios podiam gerar stress crónico, fadiga e doenças.
Mais tarde, a neurociência acrescentou outra camada fundamental. Pesquisas sobre enriquecimento ambiental e neuroplasticidade, incluindo trabalhos de neurocientistas como Fred Gage, mostraram que ambientes estimulantes e socialmente ricos moldam a estrutura e a função cerebral ao longo da vida. Ao mesmo tempo, arquitectos e pesquisadores como Julio Bermudez começaram a estudar o impacto da arquitectura espiritual e estados elevados de consciência na experiência humana, trazendo conceitos como admiração, contemplação e transcendência de volta ao debate científico sobre o espaço.
Portanto, a negligência não foi repentina – aconteceu gradualmente à medida que a arquitectura industrializada passou a ser cada vez mais impulsionada pela eficiência, economia e tecnologia, enquanto as dimensões emocionais, espirituais e neuropsicológicas foram deixadas à margem. O que testemunhamos hoje não é uma nova descoberta, mas sim uma reintegração há muito esperada daquilo que a ciência, a cultura e a experiência humana vêm apontando há décadas: que a arquitectura molda não apenas como vivemos, mas também como nos sentimos, nos relacionamos, nos recuperamos e até mesmo como os nossos cérebros se adaptam.
Como, partindo do conhecimento científico, no campo da neurociência, é possível chegar a um conjunto de estratégias para, de certa forma, reduzir os fcatores que contribuem para doenças, perda de vitalidade ou fragilidades sensoriais adquiridas no ambiente construído?
Partindo da neurociência, o primeiro passo é compreender que a saúde não se define apenas pela ausência de doença, stress ou patologia. Durante décadas, a medicina focou-se principalmente num modelo patogénico, ou seja, na eliminação de fctores nocivos. Mas a neurociência e as ciências da saúde demonstram claramente que isso não basta. Precisamos também de uma abordagem salutogénica: uma que apoie activamente a vitalidade, o desempenho cognitivo, o equilíbrio emocional, a criatividade, a recuperação e a resiliência.
No ambiente construído, isso significa que o design não deve visar apenas a redução de ruído, brilho, aglomeração ou sobrecarga sensorial. Ele também deve, intencionalmente, promover estados positivos – restauração, foco, conexão social, exploração, inspiração e até mesmo admiração e transcendência. Por exemplo, pesquisas sobre a restauração da atenção mostram que certas qualidades espaciais podem apoiar directamente a recuperação cognitiva. Estudos sobre enriquecimento ambiental demonstram que ambientes estimulantes, mas não superestimulantes, aprimoram a aprendizagem, a neuroplasticidade e o equilíbrio emocional. Pesquisas sobre a luz mostram o seu forte impacto nos ritmos circadianos, no humor, no sono e na função cognitiva. Materialidade, geometria, sequências espaciais, vistas e ritmo acústico interagem com o sistema nervoso de maneiras mensuráveis.
Traduzir este conhecimento em estratégias exige um cuidadoso processo de interpretação. Partimos de mecanismos científicos para princípios espaciais e, somente então, para decisões arquitectónicas. É assim que chegamos a estratégias fundamentadas na ciência para escolas que atendem a diferentes sensibilidades sensoriais, hospitais que promovem uma recuperação mais rápida, espaços de trabalho que aprimoram a colaboração e o desempenho cognitivo, ou moradias que apoiam a saúde mental a longo prazo. Nesse sentido, o design torna-se tanto preventivo quanto regenerativo — ele reduz os fatores de risco enquanto fortalece activamente o funcionamento humano, em vez de apenas evitar danos.
Considerando que cada ser humano é diferente em termos de composição celular, informação genética e contexto social, económico e cultural, como podem ser implementadas medidas baseadas na neurociência que sejam adequadas para todos? Não é cada caso singular, único?
É verdade que cada ser humano é único – geneticamente, culturalmente, psicologicamente e socialmente. E, no entanto, ao mesmo tempo, também somos notavelmente semelhantes. Pertencemos à mesma espécie. Compartilhamos a mesma anatomia básica, os mesmos órgãos, os mesmos sistemas sensoriais e as mesmas estruturas neurobiológicas fundamentais. Todos temos dois hemisférios cerebrais, conectados pelo corpo caloso. Todos dependemos de funções executivas – atenção, memória de trabalho, regulação emocional – para navegar pelo mundo. A atenção, como dizia um dos meus professores de neurociência, é a porta de entrada para a consciência.
Embora possamos diferir na intensidade com que reagimos a estímulos, não diferimos no facto de que os nossos sistemas nervosos respondem ao espaço. Todos os seres humanos são sensíveis à qualidade do ar, à luz, ao ruído, à densidade espacial, ao acesso à natureza e a factores de stress ambiental crónicos. Todos sofremos com a poluição do ar. Todos precisamos da luz do dia para a regulação do ritmo circadiano. Todos nós beneficiamos do contacto com a natureza. Estas não são preferências culturais – são factos biológicos.
Onde realmente diferimos é nos limiares. Algumas pessoas precisam de mais estímulos, outras de menos. Algumas são mais vulneráveis à sobrecarga sensorial, outras procuram intensidade. É aqui que conceitos como neurodiversidade se tornam essenciais. O papel do design baseado em neurociência não é criar um ambiente “perfeito” para todos, mas sim projectar faixas, variações e opções – espaços que possam acomodar diferentes necessidades sensoriais sem prejudicar os mais vulneráveis.
De uma perspectiva ética, devemos projectar primeiro para aqueles que são mais sensíveis: crianças, idosos, pessoas neurodivergentes e pessoas sob stress crónico. Se um ambiente for seguro e acolhedor para eles, quase sempre será acolhedor para todos os outros. Ao mesmo tempo, também podemos projectar intencionalmente espaços que ofereçam estímulo, desafio, admiração ou dinamismo para aqueles que os procuram.
Sim, cada caso é único. Mas os fundamentos biológicos são compartilhados. A neurociência ajuda-nos a entender o que é universal no funcionamento humano, e o design ajuda-nos a traduzir isso em ambientes flexíveis e inclusivos que respeitem as diferenças em vez de negá-las.
Seria redutor pensar que as razões para a adopção de formas mais equilibradas de utilização do espaço construído são desencadeadas por aspectos relacionados com a optimização da produção laboral?
Sim, é redutor tratar a produtividade como a única razão para nos preocuparmos com ambientes mais saudáveis. O bem-estar humano não pode ser reduzido à produção económica. Ao mesmo tempo, no mundo real, muitas decisões tomadas por investidores, empreendedores e empresas ainda são impulsionadas justamente pela eficiência, desempenho e competitividade. Essa tensão faz parte da transição actual.
Curiosamente, este não é um dilema novo. Quando visitei Crespi d’Adda, no norte de Itália – uma vila industrial do século XIX construída para trabalhadores têxteis – fiquei profundamente impressionada pela forma como os primeiros industriais já compreendiam que o espaço influencia o comportamento humano, o sentimento de pertença e a estabilidade social. O dono da fábrica investia em luz, qualidade das habitações, espaços verdes, escolas, lojas e ordenamento urbano, não apenas por idealismo, mas também porque entendia que as pessoas trabalham melhor, vivem melhor e criam menos conflitos quando se sentem acolhidas e amparadas. Não houve greves durante décadas sob esse modelo. Era uma forma muito primitiva do que hoje poderíamos chamar de sustentabilidade social.
O que mudou hoje foi a escala e a urgência. Não falamos mais apenas de produtividade e harmonia no ambiente de trabalho – falamos de esgotamento generalizado, depressão, stress crónico, transtornos de ansiedade, neurodiversidade e custos de longo prazo para a saúde pública. Se projetcarmos ambientes mais saudáveis apenas porque aumentam a produtividade, corremos o risco de instrumentalizar o bem-estar humano. Mas se ignorarmos a dimensão económica, a transição será muito lenta.
A verdadeira mudança acontece quando entendemos que bem-estar, estabilidade social, criatividade, resiliência e produtividade não são valores opostos – eles estão profundamente interligados.

É no campo da saúde pública, especialmente em hospitais e centros de saúde, que percebemos uma infinidade de factores altamente prejudiciais tanto para quem os utiliza quanto para quem neles trabalha. Como transformar todas essas infraestrutura? Serão elas demolidas ou feitas de novo?
Em primeiro lugar, julgo importante esclarecer o que realmente entendemos por saúde pública. Saúde pública não se limita a hospitais e centros de saúde – é a ciência e a prática da prevenção de doenças e da optimização da saúde humana por meio de políticas, educação, ambientes e intervenções sistémicas. Os hospitais são apenas uma parte desse ecossistema muito mais amplo.
Dito isto, hospitais e centros de saúde desempenham um papel simbólico e prático enorme em como vivenciamos a saúde e o cuidado. Curiosamente, algumas das arquitecturas de saúde mais humanizadas já existiam no passado – como os antigos sanatórios, projectados para maximizar o acesso à luz natural e o contacto com a natureza. Na época, isso muitas vezes baseava-se na intuição ou até mesmo em crenças religiosas, mas hoje é claramente confirmado pela ciência, particularmente por pesquisas em cronobiologia e psicologia ambiental.
Com o tempo, porém, muitos hospitais foram redesenhados principalmente para acomodar tecnologia e infraestrutura – salas de exames de imagem, salas de cirurgia, áreas esterilizadas e logística complexa. Em muitos casos, isso resultou em espaços onde até mesmo cirurgiões e equipa médica trabalham sem acesso à luz natural, o que não é benéfico para sua saúde ou desempenho. As prioridades dominantes passaram a ser funcionalidade, higiene e eficiência, frequentemente em detrimento do conforto psicológico e do bem-estar emocional.
Felizmente, esta cultura está a começar a mudar em alguns lugares. Um exemplo marcante são os Centros Maggie’s, no Reino Unido, criados para pacientes oncológicos e em cuidados paliativos, que combinam arquitectura de alta qualidade, acesso à natureza, arte e ambientes cuidadosamente projectados. Estes centros reconhecem que o próprio design pode ser um factor terapêutico e que a arte e a qualidade espacial têm efeitos mensuráveis no bem-estar.
Portanto, a resposta para a questão de demolir ou reconstruir é, na verdade: ambas as coisas, mas de forma selectiva. Algumas infraestruturas podem e devem ser transformadas por meio de uma renovação profunda e baseada em evidências, enquanto outras podem precisar ser construídas do zero sob paradigmas de design completamente diferentes – paradigmas que integrem medicina, neurociência, psicologia e design humanizado desde o início. A cura não deve ser entendida apenas como um processo médico, mas também como uma experiência espacial e sensorial.
No nosso ver, o ensino de design e arquitectura parece bastante inadequado para o conhecimento adquirido ao longo de tantos anos de más práticas. Como podemos reverter essa evolução no sistema educacional?
Eu hesitaria em descrever o ensino de arquitetura como “mau”, pois a própria profissão é extraordinariamente complexa e difícil de avaliar em termos simples. Na minha opinião, a questão não reside tanto na educação em si, mas sim na trajectória histórica da construção e da prática arquitetónica, especialmente ao longo do século XX. Devido ao rápido progresso tecnológico, a arquitectura distanciou-se cada vez mais do ser humano. O foco deslocou-se para a escala, a tecnologia, a engenharia estrutural e a criatividade formal, muitas vezes em detrimento da experiência e do bem-estar humanos.
Dito isto, sempre existiram arquitectos que projectaram para as pessoas, guiados por uma visão profundamente humanista. No entanto, muitas das descobertas científicas que agora nos permitem compreender adequadamente a relação entre espaço, biologia e mente humana – como a neurociência – são relativamente recentes. Embora a sustentabilidade ambiental seja hoje amplamente incorporada no ensino de arquitectura, a sustentabilidade social, particularmente o impacto da arquitectura na saúde e biologia humanas, ainda está atrasada.
Este campo só agora entrou verdadeiramente em desenvolvimento, e há também alguma resistência em alguns sectores da profissão, especialmente entre aqueles enraizados em fortes tradições e formados sob paradigmas muito diferentes. Acredito que estamos a testemunhar uma transformação lenta, mas profunda. Como disse a Professora Anne Glover, ex-Conselheira Científica Chefe da Comissão Europeia: o século XXI é a era da biologia. A biologia está gradualmente a entrar na profissão de arquitectura de diversas formas, inclusive por meio da neurobiologia. Estes temas já são ensinados em algumas instituições pioneiras no mundo, como a IUAV, em Veneza, e o seu programa NAAD, onde me formei.
Quando a sua empresa, a Impronta, começou a dar os primeiros passos, quais foram as maiores dificuldades que encontraram da parte dos vossos parceiros de mercado?
Quando a Impronta deu os seus primeiros passos, deparamo-nos com diversos desafios, muitos dos quais que ainda hoje persistem. A principal dificuldade reside no facto de que o nosso trabalho é frequentemente percebido, especialmente em certos mercados como a região da Europa Central e Oriental, como uma dimensão “secundária” do design, em vez de uma verdadeira necessidade ou uma forma real de mitigação de riscos pela qual os clientes estejam dispostos a pagar. O impacto da arquitectura sobre os seres humanos é tipicamente de longo prazo e não imediatamente visível, sendo, portanto, muitas vezes considerado “intangível”.
O segundo grande desafio relaciona-se com o ROI – retorno sobre o investimento. Trabalhamos com impacto a longo prazo, particularmente com os efeitos do investimento espacial nas comunidades ao longo de muitos anos. No entanto, muitos intervenientes no mercado são motivados principalmente por benefícios a curto prazo. Esses ganhos a curto prazo existem, especialmente quando o nosso trabalho é compreendido como um investimento em sustentabilidade social, alinhado com as estratégias ESG. Pode também servir como uma forma poderosa de se diferenciar no mercado e de fortalecer o valor da marca, embora, por agora, esta abordagem ainda esteja principalmente associada a projectos de padrão elevado.
Por fim, um desafio muito prático tem sido o facto de muitos investidores inicialmente terem pouco ou nenhum conhecimento de neurociência em relação à arquitectura. Como resultado, uma parte significativa do nosso trabalho inicial, e ainda hoje, tem envolvido a educação do mercado. Este campo permanece bastante num nicho, mas está claramente em crescimento.

Quais metodologias e diretcrizes que implementaram até agora, e quais delas obtiveram maior sucesso? Elas podem ser replicadas?
Gostaria de começar salientando que nosso trabalho não se baseia em metodologias fixas ou directrizes rígidas. Trata-se muito mais de integrar as ciências humanas ao processo de design e fundamentar as decisões de design no conhecimento científico sobre como as pessoas interagem com seus ambientes. As ferramentas que utilizamos para alcançar esse objectivo podem variar de projecto para projeto e podem incluir diferentes instrumentos, como medições, aplicações de pesquisa baseadas em estruturas e directrizes fundamentadas na ciência. Essas ferramentas não são prescriptivas; elas funcionam como uma camada de reacção e dados adicionais que informam e enriquecem o processo criativo de design, em vez de limitá-lo.
Permitam-me mencionar três projectos que ilustram bem essa abordagem.
O primeiro foi um projecto de design de reformulação, no qual criámos um documento estratégico para arquitectos com directrizes sobre como projectar ambientes profundamente revigorantes para um investimento específico. Tratava-se do escritório da Arup em Varsóvia. O projecto, e a aplicação de neurociência, ganhou o prémio World Frame Award de 2023 para o melhor escritório de pequena dimensão do mundo, sendo descrito pelo júri como voltado para o futuro.
O segundo exemplo é a nossa contribuição para um relatório estratégico publicado pela Skanska na região da Europa Central e Oriental sobre neurodiversidade no ambiente de trabalho. Incorporámos conhecimentos científicos e directrizes de design a essa publicação. O relatório foi acedido por milhões de pessoas e contribuiu significativamente para aumentar a consciencialização e a disponibilidade de dados sobre neurodiversidade em espaços de trabalho, tanto no mercado polaco como noutros países.
O terceiro projecto foi nossa colaboração com a Allcon, uma construtora residencial no norte da Polónia. Fornecemos insights estratégicos para o investimento e realizámos uma auditoria completa dos espaços internos e externos utilizando a nossa metodologia de propriedade. Tornou-se o primeiro projecto residencial de grande escala em que a neurociência foi usada como ferramenta directa.
Quanto à replicação, sim, absolutamente. Embora cada projecto exija uma abordagem personalizada, a estrutura subjacente de integração das ciências humanas ao design é totalmente transferível entre diferentes tipologias e mercados.
A neurociência também investiga aspectos relacionados à materialidade, ou seja, como as matérias-primas ou os materiais transformados interagem conosco?
Sim, os aspectos sensoriais da experiência material também são estudados por meio de uma abordagem neurocientífica. Hoje, sabemos que certos tipos de materiais, particularmente materiais naturais como a madeira, ou materiais que criam ligações sensoriais visuais e não visuais com a natureza, podem ter um impacto claramente positivo no corpo e na mente humana.
Por exemplo, existem estudos que demonstram que a exposição à madeira pode estimular o sistema nervoso parassimpático, responsável pelo relaxamento e recuperação. Isso traduz-se em níveis de stress mais baixos, uma sensação de calma e maior bem-estar geral.
Além do próprio material, a geometria, os padrões de superfície, as texturas e os ritmos também desempenham um papel crucial na forma como os materiais são percebidos e processados pelo cérebro. Esses factores influenciam não apenas a experiência estética, mas também as respostas fisiológicas, o conforto e a regulação emocional.
Por que razão os grandes escritórios de arquitectura estão mais receptivos a contratar serviços como os vossos?
Os grandes escritórios de arquitectura geralmente são mais receptivos à contratação de serviços como o nosso, principalmente porque possuem orçamentos dedicados à pesquisa e desenvolvimento. Para escritórios menores, investir em pesquisa e desenvolvimento ou contratar uma equipa externa de especialistas para um projecto de consultoria costuma ser financeiramente inviável ou então muito complexo.
Muitas das grandes empresas também criam suas próprias equipas internas de especialistas, como equipas de UX, departamentos de sustentabilidade ou até mesmo laboratórios de neuroarquitetura, mas, na realidade, apenas as maiores empresas podem arcar com esse nível de especialização. Para elas, trabalhar com especialistas externos como nós é uma extensão natural de sua estratégia de inovação de longo prazo.
Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar no desenvolvimento de ferramentas e formatos que possam tornar-se acessíveis também a estúdios de menor dimensão, pois acreditamos firmemente que o design centrado na saúde e baseado em evidências científicas não deve apenas limitar-se a projectos de grande escala ou de alto padrão de investimento.
Lemos regularmente artigos de sondagens com gráficos sobre felicidade e produtividade. Olhando para alguns dos principais centros urbanos europeus, suspeitamos que muitas dessas “notícias” não passam de propaganda. Não há a preocupação de que a própria neurociência possa cair em descrédito quando usada para fins que não sejam afinal o bem-estar das pessoas?
Sem dúvida, existe hoje muita propaganda e marketing superficial em torno de conceitos como felicidade, produtividade e bem-estar. Nesse contexto, pode ser realmente difícil para muitas pessoas distinguir entre conhecimento científico confiável e narrativas simplificadas e, muitas vezes, distorcidas, criadas para fins comerciais ou políticos.
Dito isto, não há risco real para a neurociência em si como disciplina científica. A neurociência é o estudo rigoroso do sistema nervoso e vem a desenvolver-se de forma constante desde o início do século XX, com uma grande aceleração nas últimas décadas graças às tecnologias de ponta. É um campo extremamente complexo que examina o sistema nervoso em múltiplos níveis: molecular, celular, funcional e sistémico. As suas principais contribuições permanecem profundamente enraizadas na medicina, neurologia, farmacologia e no tratamento de doenças, bem como em muitos outros domínios científicos aplicados.
O risco não reside na neurociência em si, mas sim em como a sua linguagem e autoridade podem ser mal utilizadas no marketing, na construção de marcas e no discurso popular. Quando a neurociência é reduzida a slogans superficiais sobre felicidade ou produtividade, ela pode, de facto, começar a assemelhar-se a uma forma de propaganda em vez de ciência séria. Isso às vezes remete-nos para narrativas distópicas como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, onde a ciência e o bem-estar são instrumentalizados de maneira extremamente problemática.
É precisamente por isso que, na nossa área, é tão importante proteger a qualidade, a integridade e a competência das pessoas que trabalham profissionalmente com neurociência. O rigor científico, a responsabilidade ética e a interpretação adequada da pesquisa são essenciais para que a neurociência realmente sirva ao bem-estar humano, em vez de prejudicá-lo.
Dado que toda inteligência é biológica, como nos deixamos envolver por este advento da chamada inteligência artificial? Será uma falha de pensamento, ou algo ainda mais obscuro?
Esta é, de facto, uma questão fascinante e complexa, e devo dizer desde já que não me considero uma especialista em inteligência artificial. Ao reflectir sobre o assunto, frequentemente lembro-me dos escritos de Yuval Noah Harari, que constantemente desafia a nossa compreensão de progresso e nos recorda da base profundamente biológica da inteligência.
Durante milénios, o comportamento humano foi regido em grande parte por algoritmos biológicos, bem como por algoritmos sociais – regras tribais sobre o que comer, com quem casar, como se comportar, quais decisões tomar e até mesmo qual profissão escolher. A biologia sempre foi o princípio fundamental que organizava a vida, a integração e a sobrevivência. Hoje, essa lógica está a ser profundamente desafiada. Vivemos na era do transhumanismo, onde a inteligência humana é cada vez mais projectada na tecnologia.
Como Harari também escreve em seu livro mais recente, Nexus, os humanos sempre construíram redes para ampliar a inteligência, e hoje essas redes tornaram-se digitais e automatizadas. Ao mesmo tempo, temos externalizado a nossa inteligência há milhares de anos – primeiro por meio da escrita, depois por meio de livros, bibliotecas, máquinas e ferramentas cada vez mais complexas. O que é diferente hoje não é o princípio em si, mas a escala, a velocidade e a potência dessas ferramentas.
Isso é inerentemente mau? Não acredito. É o que costumamos chamar de progresso. No entanto, como também mencionado durante o encontro sobre neuroarquitetura, esse progresso é frequentemente impulsionado por um grupo relativamente pequeno de pessoas que desenvolvem essas ferramentas e, ao fazê-lo, transformam mercados e sociedades inteiras. Alguns adaptam-se, outros não.
Assim, a IA é, em essência, mais uma ferramenta, uma ferramenta extraordinariamente poderosa. E, como aconteceu com muitas revoluções tecnológicas do passado, provavelmente cometeremos muitos erros ao aprendermos a usá-la. Os humanos são notavelmente bons em inventar ferramentas, mas somos muito menos hábeis em prever todas as consequências de sua implementação. Para mim, é aí que reside a verdadeira incerteza – não na inteligência em si, mas em nossa capacidade de governar o que criamos.
O que continua a despertar interesse é o aprofundamento e a aplicação da neurociência a outras disciplinas, particularmente ao design?
O que realmente continua a despertar meu interesse é a crescente compreensão de que a abordagem actual da saúde pública, ainda focada principalmente no tratamento e na prevenção, é simplesmente muito limitada. Ainda não reconhecemos plenamente o ambiente construído como prejudicial à saúde ou como capaz de promovê-la, e isso precisa de uma mudança urgente.
Há uma crescente consciencialização de que os nossos ambientes afectam não apenas quanto tempo vivemos, mas também como vivemos – como funcionamos, nos recuperamos, nos conectamos e, em última instância, como prosperamos e florescemos. É isso que realmente motiva o meu trabalho. Imagino um futuro em que projectemos conscientemente ambientes que apoiem a biologia e a psicologia humanas, ao mesmo tempo que respeitamos outras espécies e o ecossistema em geral.
Nesse futuro, os ambientes não apenas nos protegeriam de danos, mas também nos ajudariam activamente a prosperar. Do meu ponto de vista, a neurociência na arquitectura é simplesmente uma ferramenta poderosa para nos ajudar a caminhar nessa direcção, uma forma de alinhar o design mais profundamente com a vida.
Quais são os principais desafios e oportunidades que a neurociência tem pela frente?
Essa é uma pergunta muito ampla, e devo dizer abertamente que hoje estou um tanto distante da neurociência académica na sua forma pura. Ainda assim, da minha perspectiva, um dos desafios fundamentais que a neurociência continua a enfrentar é o financiamento estável e de longo prazo para a pesquisa. Estudar o cérebro e o sistema nervoso é extraordinariamente complexo, demorado e caro, mas entender o cérebro significa, em última análise, entendermos-nos.. E isso, como também disseram, é uma das tarefas mais importantes que temos como espécie.
Outro grande desafio reside na complexidade da interpretação. O sistema nervoso opera em múltiplos níveis interconectados – molecular, celular, funcional, comportamental – e a transposição das descobertas entre essas camadas para aplicações práticas deve ser feita com muita cautela e responsabilidade.
Ao mesmo tempo, as oportunidades são imensas. Graças ao rápido desenvolvimento tecnológico – imagem, processamento de dados, análise assistida por IA – estamos a obter conhecimentos que eram inimagináveis há apenas algumas décadas. O que mais me entusiasma é a crescente capacidade de conectar a neurociência com contextos da vida real, incluindo saúde, educação, ambientes de trabalho e o ambiente construído.
Vejo a neurociência como uma peça importante de um quebra-cabeça muito maior: o quebra-cabeça de compreender os seres humanos em relação aos seus corpos, aos seus ambientes e às suas sociedades.

Impronta
A Impronta é um estúdio internacional de pesquisa e consultoria que integra a neurociência e as ciências humanas à arquitetcura e ao design urbano. Co-fundada pela doutora Natalia Olszewska, médica e neurocientista, e por Ezio Lilli, especialista em construção com mais de 25 anos de experiência prática na área, a Impronta actua na intersecção entre ciência e prática para ajudar organizações a criar ambientes mais saudáveis e responsivos.
O estúdio não projecta edifícios — ele traduz o conhecimento científico em estratégias, estruturas, directrizes e ferramentas de apoio à decisão baseadas em evidências, que arquitectos, empreendedores e instituições públicas podem aplicar directamente nos seus projetos. O trabalho concentra-se em como o ambiente construído influencia o stress, o desempenho cognitivo, o comportamento e o bem-estar. Em projectos selecionados, a Impronta também realiza medições fisiológicas e comportamentais para avaliar como diferentes ambientes influenciam a atenção, a carga cognitiva e as respostas ao stress.
Isso complementa a missão mais ampla do estúdio: transformar conhecimentos científicos em impacto prático e mensurável.
A Impronta colabora com parceiros em toda a Europa, incluindo a Skanska, a Arup, a Allcon, a Flokk/Profim, a Oknoplast, instituições culturais, universidades e empresas inovadoras. Os projectos do estúdio abrangem espaços de trabalho, habitação, educação e espaços públicos.
A sua missão é simples, porém ambiciosa: fazer das ciências humanas a base do design e ajudar a moldar ambientes que promovam a saúde, a resiliência e o vigor humano.
https://www.improntaspace.com






