Sofia Mourato

COM UMA SÓLIDA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NA COORDENAÇÃO DE EVENTOS NO ESTRANGEIRO QUE UNEM O CINEMA E A ARQUITECTURA, FOMOS AO ENCONTRO DA CRIADORA DO ARQUITECTURAS FILM FESTIVAL PARA PERCEBER O QUE A MOTIVOU A ARRANCAR COM A INICIATIVA. UM TRABALHO CUMPRIDO ATRAVÉS DA DO YOU MEAN ARCHITECTURE, DA QUAL FICAREMOS A AGUARDAR POR OUTRAS BOAS SURPRESAS CULTURAIS.

Entrevista: Tiago Krusse
Fotografia: cortesia de Sofia Mourato / Do You Mean Architecture

Sofia Mourato

O que é a Do You Mean Architecture?
A DYMA é um projecto iniciado em 2012 com o objectivo de investigar a relação entre aquitetura, imagem em movimento e fotografia. Trata-se de uma plataforma que visa o cruzamento do conhecimento de várias disciplinas para criar inovação no pensamento crítico. Surge então um primeiro projecto, a realização de um festival dedicado à longa e estreita relação entre a arquitectura e o cinema – o ARQUITECTURAS.

Quando é que surgiu a ideia para criar o Arquitecturas Film Festival Lisboa?
Em 2010, tornei-me coordenadora daquele que seria também o primeiro Festival de Cinema e Arquitectura de Nova Iorque. Nessa altura, prometi a mim mesma que um dia traria um projecto similar até Portugal. Acabei por rumar primeiro à Holanda, onde tive oportunidade de trabalhar como curadora e colaboradora do Festival de Arquitectura de Roterdão e de ter participado no projecto de digitalização do arquivo holandês, no EYE Film Institute. Essas duas experiências internacionais foram extremamente importantes para que o ARQUITECTURAS chegue agora a Lisboa no formato em que estamos a pensá-lo: uma plataforma relevante que sirva como instrumento de consciencialização e interesse na preservação e promoção do nosso património arquitectónico, e que apresente Lisboa como uma cidade de espírito aberto ao diálogo criativo internacional. E, sobretudo, realizado na perspectiva de captar investimento estrangeiro e solidificar a imagem de Portugal como um dos melhores países do mundo para a rodagem de filmes.

Que razões estiveram na origem desta primeira edição e quais os objectivos traçados?
Há uma razão óbvia: não existe nenhum festival de cinema dedicado a arquitectura em toda a Península Ibérica. Só por isso, a realização do ARQUITECTURAS já se justificava, mas a esta acrescentam-se outras. Uma delas é o excelente timing: 2013 foi declarado oficialmente como o Ano da Arquitectura em Portugal, ano em que decorrem também eventos altamente direccionados para o nosso público-alvo, como a Trienal de Arquitectura de Lisboa, a cerimónia oficial do prémio Aga Khan e a experimentadesign. A actual conjuntura nacional também contribui bastante, já que não há melhor momento para que as indústrias do cinema e da arquitetura se “descubram” mutuamente e desenvolvam uma relação que tem produzido excelentes resultados ao nível internacional, mas que, no nosso país, está há muito tempo subvalorizada. E isso leva-nos directamente aos objectivos do festival: de forma geral, o ARQUITETURAS ambiciona tornar mais evidente esta relação possível, para não dizer quase obrigatória, entre arquitectura e cinema, não somente para o público especializado mas também para o público em geral, quer numa perspectiva cultural, quer numa vertente económica.

Que parcerias foram estabelecidas para este arranque?
Ao nível nacional, a primeira parceria do ARQUITECTURAS foi feita com o Cinema City Alvalade, que acreditou no projecto e nos deu força para avançar. De seguida contámos com o apoio institucional da Ordem dos Arquitectos Secção Regional do Sul, Trienal de Arquitectura de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, Ruptura Silenciosa e diversas universidades de arquitectura. Os nossos media partners são a Magnética Magazine, Vida Imobiliária, Jornal Construir e Anteprojectos, os Archmov e a Platform-A. Internacionalmente, contamos com o apoio dos Festivais de Cinema e Arquitectura de Roterdão, Nova Iorque, Santiago do Chile e Budapeste, bem como com media partners italianos como a Image e o Archiworld.

A entrega a um projecto desta dimensão é contabilizada de que formas?
Julgo que a experiência adquirida em outros festivais de cinema ao longo dos últimos anos e o conhecimento necessário que daí resultou foi determinante para a realização de um evento deste nível. No caso do ARQUITECTURAS, o mais importante foi perceber que iria preencher uma lacuna cultural em Lisboa e em Portugal. A partir daí, a visibilidade do projecto advém da aceitação e interesse por parte das principais entidades que gerem as indústrias do cinema e arquitetura, que nos deram todo o apoio. Por outro lado, o apoio financeiro é sem dúvida essencial – e, nesse sentido, o ARQUITETURAS é uma plataforma extremamente interessante para dar visibilidade a empresas que pretendam criar um meio de comunicação privilegiado com este público-alvo, uma dimensão que também pretendemos que tenha muita força no festival. Estamos a trabalhar no sentido de escolhermos os major sponsors que mais se identificam com o projecto para podermos criar o que se pode chamar de uma situação win-win: maior qualidade do festival e novas oportunidades económicas.

Que métodos e critérios de avaliação estabeleceram para as inscrições de participação no festival?
Participar no ARQUITECTURAS é fácil – basta ter realizado um filme que tenha sido finalizado até Janeiro de 2011 e que se enquadre numa das categorias de ficção, documentário, cinema experimental ou animação. Depois, só é necessário preencher a ficha de inscrição no nosso website e enviar-nos o link do filme ou DVD para avaliação até 1 de Agosto. E é isso! Em relação aos critérios de avaliação, esperamos receber filmes com um registo inovador, que comuniquem efectivamente um interesse não só na parte de investigação mas também no cuidado com a fotografia, argumento e montagem. Em suma, estamos à procura de filmes que destaquem a arquitectura como mediadora dos momentos extraordinários e banais das nossas vidas.

O local escolhido para o evento foi o pretendido?
O ARQUITETURAS poderia realizar-se em vários espaços, mas pode dizer-se que o Cinema City Alvalade assenta “como uma luva”. Em primeiro lugar, devido à sua história: o antigo cinema Alvalade foi demolido e reconstruído pelos arquitectos Rui Rosa e Carlos Rui Sousa, mantendo a memória do antigo edifício mas acrescentando-lhe uma componente habitacional. Desde 2008, altura em que o City Alvalade abriu as portas, tem conseguido com sucesso oferecer um programa diversificado entre o comercial e o alternativo, e essa flexibilidade do espaço, bem como a disponibilidade da gerência para a realização de actividades paralelas na zona do foyer e do café, foram cruciais para esta escolha. Para além disso, ainda temos uma excelente localização e bons acessos e o charme que só um cinema “de bairro” histórico como o City Alvalade pode emprestar a um evento como o ARQUITECTURAS. É lá que vamos estar de 26 a 29 de Setembro, e não poderíamos deixar de destacar o profissionalismo da equipa que gere actualmente o cinema, que acreditou no ARQUITECTURAS e apostou connosco numa primeira edição ambiciosa, mas realista.

Para além da exibição dos filmes, o programa do festival tem previsto outro tipo de iniciativas?
O ARQUITECTURAS foi pensado como um festival multidisciplinar. Nesse sentido temos uma série de actividades paralelas previstas, das quais fazem parte uma exposição de fotografia, conversas informais entre personalidades da arquitetura, arte e cinema, uma sessão de pitching, uma visita guiada por locais em Lisboa que já serviram de cenário para filmes e uma actividade para os mais jovens. Há muito para ver e para fazer, e com isto esperamos chegar a um público mais alargado.

Nos últimos tempos alguns profissionais, críticos e agentes têm falado que a Arquitectura se esqueceu da realidade. Esta ligação à sétima arte vem com que género de interrogações?
O cinema e a arquitectura são, desde os seus primórdios, fabricantes de sonhos.
O cinema revela arquiteturas que só existem na mente, compostas por sensações, memórias e imaginação, e por vezes essa arquitectura cinematográfica confunde-se com a percepção que temos na vida real. Não concordo que a arquitectura se tenha esquecido da realidade: da mais modesta casa à maior torre da cidade, os arquitectos querem que os seus edifícios consigam ir mais além do que apenas a sua funcionalidade. O desejo faz parte da linguagem das duas artes e todas as civilizações tiram o máximo partido dos seus edifícios. Todas as culturas esperam que a sua arquitectura contenha uma mensagem que perdure, e é através da narrativa que a realidade e a ficção se confrontam na cultura da imagem contemporânea que atravessamos. O cinema e a arquitectura atravessam estilos ao longo da história, mas na minha opinião estão sujeitos a uma versão da evolução de Darwin.

Para além de promover uma ponte entre profissionais de duas áreas distintas, que outras preocupações foram tomadas em conta?
Mais do que promover a ponte, há que a construir. Na actual era digital, é necessário que os estudantes e profissionais de arquitectura utilizem a ferramenta da imagem em movimento globalmente para comunicar informação e conteúdos locais. É essencial que tenham conhecimento de técnicas cinematográficas e de narrativa para serem competitivos. Para além desta preocupação fulcral, queremos promover a internacionalização da arquitectura e cinema português, promover Portugal como um país ideal para produção de filmes, aumentar o interesse geral nas transformações urbanas e da sua importância e valorizar a dinamização interdisciplinar.

Na sua opinião o cinema tem vindo a criar que tipo de visão sobre a arquitetura?
O cinema não cria uma visão sobre a arquitectura porque o cinema não existe sem arquitectura. Todos nós conhecemos milhares de edifícios, ruas e cidades, não por experiência táctil mas através de imagens, fotografias e filmes. Adicionalmente, habituámo-nos a experienciar a arquitectura através da janela do nosso carro, do autocarro ou do comboio e porque temos sempre mudanças de ponto de vista isso modifica a nossa percepção da urbanidade que nos rodeia. Neste caso, a nossa visão edita as imagens. O cinema interpreta o espaço, confere-lhe narrativas – mas apresenta-se como um veículo de interpretações individuais. A arquitectura nos filmes está sempre contida na experiência de cada espectador.

É da opinião que a arquitetura e o cinema são muitas vezes distorcidos pelos media e pelas instituições do meio?
A arquitectura é a mais íntima das artes, pelo menos na forma como se relaciona connosco – dormimos, comemos, trabalhamos e vivemos nela, todos os dias. Contudo, nunca houve grande interesse da parte do público em assistir a documentários sobre o tema. Os que foram produzidos em toda a história do cinema, até aproximadamente uma década, têm a tendência para serem biografias de arquitectos e do seu trabalho. Mas assistimos hoje em dia a uma grande mudança: especialistas, governantes e académicos prestam cada vez mais atenção à importância de obras arquitectónicas e à sua influência positiva, não só na estrutura urbana, mas também como instrumento de promoção e distinção no âmbito da competitividade económica global. Esta nova tendência, aliada ao corrente avanço da tecnologia do aparato de documentação da imagem em movimento, faz com que o cinema seja a melhor e mais rápida ferramenta de divulgação. E a arquitectura e o cinema sempre foram, ao longo da sua história, ferramentas de “propaganda” positiva e negativa, reflexos da sociedade onde se inseriam. Isso continua a acontecer.

Para si qual é o filme que melhor contempla a arquitectura?
Por muitas razões, o filme “Conformista”, de Bernard Bertolucci.

Já há planos para uma segunda edição? O que vai ela trazer de novo?
Esta é a primeira edição, pelo que a nossa prioridade passa por levar a cabo os seus objectivos a curto, médio e longo prazo, nomeadamente através da criação de circuito itinerante ao nível nacional e internacional a partir da programação inicial, oferecendo uma plataforma de exposição mais alargada. Mas sem dúvida que a ideia passa por transformar o ARQUITECTURAS em mais do que um evento pontual, desenvolvendo ao longo do ano projectos de colaboração com diversas instituições, como museus, escolas, universidades, produtoras de cinema e outras organizações culturais. Depois destes objectivos concluídos, podemos começar a pensar nas próximas edições – e acredito que uma das mais-valias possíveis em edições futuras passa pela apresentação de documentos visuais que resultem de colaborações entre profissionais do cinema e arquitectura geradas no âmbito do festival. Neste aspecto, já temos inclusivamente alguns projectos em cima da mesa, mas ainda são “top secret”. Para já. Mas, de maneira geral, a filosofia da Do You Mean Architecture passa por construir através deste e de outros projectos futuros uma plataforma de projecção, divulgação e distribuição da arquitectura e cinema contemporâneos portugueses, ao nível nacional e internacional. Esse é, sem dúvida, o nosso principal objectivo, e que irá certamente dar o mote não somente a esta primeira edição, como às que se lhe seguirem.