Mugendi K. M’Rithaa

Tem um interesse especial no papel central que o design pode significar no avanço da agenda de desenvolvimento no continente africano. Está associado a uma série de redes internacionais que se centram no design, dentro de contextos mundiais de políticas de desenvolvimento industrial, sendo actualmente o presidente eleito do Conselho Internacional das Sociedades de Design Industrial -ICSID-, iniciando funções no mandato compreendido entre os anos 2015 e 2017.

Entrevista: Tiago Krusse
Fotografia: cortesia de Mugendi K. M’Rithaa

Mugendi K. M’Rithaa

O Professor Doutor Mugendi K. M’Rithaa é designer industrial, educador e investigador na Universidade de Tecnologia da Península do Cabo, na África do Sul. Possui qualificações de pós-graduação em desenho industrial, ensino superior e design universal. É um apaixonado pelas várias expressões do design socialmente responsável, incluindo design participativo, design universal e design para a sustentabilidade.

Que memórias guarda da sua infância perto do Monte Quénia?
Obrigado por me levares ao fio da memória Tiago… As minhas memórias de infância estão cheias de belas vistas da natureza e dos sons alegres de uma grande e numerosa família que me apoia, incluindo avós sábios e amorosos. 

As suas experiências de viagens começaram bastante cedo. Desde que deixou o seu país, ainda criança, que percepções ficaram do lugar de origem?
Parti para os Estados Unidos da América numa idade relativamente precoce, mas as memórias de uma comunidade integrada e ligada no Quénia rural perduram até hoje. Acredito que este sentido de comunidade e a interconectividade da humanidade enriqueceram a minha visão do mundo de uma forma muito profunda. Em África, referimo-nos a esta qualidade de humanidade e atitude empática, e participativa, em relação ao bem-estar de outras pessoas como o Ubuntu… 

O Quénia passou por vários períodos políticos difíceis desde a sua independência, em 1963, da Grã-Bretanha. Como é que esses tempos difíceis afectaram a sua vida e que tipo de repercussões tiveram durante o seu crescimento?
Os desafios de um país que tenta encontrar o seu destino e identidade não são exclusivos do Quénia. Não obstante, o legado da luta pela independência pela liberdade, igualdade e dignidade humana está profundamente enraizado na nossa psique nacional. O Quénia ainda tem uma série de desafios socioeconómicos a ultrapassar para alcançar o sonho da equidade e para que todos os seus povos realizem todo o seu potencial humano … o impacto da corrupção e das elevadas taxas de desemprego tem retido o país de alguma forma… Estou optimista, apesar de que a boa governação, instituições públicas robustas e transparentes, empresas resilientes do sector informal, responsabilidade política e cidadania activa são pré-requisitos críticos para as futuras aspirações do Quénia para evoluir para uma sociedade próspera, socialmente equitativa e coesa.

A oportunidade de obter educação no estrangeiro como o influenciou? Como descreveria esses anos e em que sentido o impulsionam para este caminho?
Eu tenho a sorte de ter começado a minha educação infantil nos EUA, numa altura em que era suficientemente jovem para interiorizar noções de mudança de paradigma. A exposição a uma economia sofisticada e a contextos industrialmente avançados foi fundamental para lançar as bases da minha paixão pelo design e pela tecnologia. Lembro-me de testemunhar a aterragem da lua ao vivo na televisão e de como esse acontecimento único capturou a minha imaginação. Esse evento também me demonstrou o poder de uma visão colaborativa, e quanto potencial temos para o bem como raça humana, desde que abraçemos a nossa humanidade comum.

Que razões o levaram a escolher o design industrial?
É uma boa pergunta, Tiago. Como mencionei, o fascínio pela tecnologia e pelos artefactos começou quando eu estava nos EUA. A minha família acabou por regressar ao Quénia e eu prossegui para completar o meu liceu na Escola de Lenana e os estudos de licenciatura em design na Universidade de Nairobi. A minha professora de arte da escola secundária, Themina Kaderbhai, é responsável por me orientar para o design. Foi durante os meus estudos de bacharelato em design que percebi a minha afinidade com o design tridimensional. Concluídos os estudos, comecei a trabalhar como designer profissional e durante este tempo recebi uma bolsa de estudo da Commonwealth que me permitiu estudar design industrial no Centro de Design Industrial (IDC), no IIT em Mumbai, na Índia.

Como é que os seus estudos no Instituto Indiano de Tecnologia (IIT) em Mumbai influenciaram não só a sua busca de conhecimento, mas também os planos que tinha para o seu futuro? 
O IDC no IIT-B foi uma mistura perfeita entre o design de produtos socialmente consciente, o design centrado no ser humano, e a prática industrial/profissional de alta tecnologia. Aprendi o valor do emprego de conhecimentos indígenas em formas socialmente responsáveis (e responsivas), de modo a evoluir soluções de design que reconheçam e respeitem preocupações sócio-culturais, económicas, ecológicas, tecnológicas e geopolíticas mais vastas. Estes foram os próprios fundamentos da minha actual filosofia de design.

Quando voltou ao Quénia já tinha um plano ou uma ideia de um programa para espalhar às pessoas a importância do pensamento do design?
Sim, de facto! Fiquei altamente motivado após os meus dois anos de estudo na Índia. Imediatamente iniciei o ensino na minha alma mater, a Universidade de Nairobi, onde fui nomeado para assumir a responsabilidade pelos programas de design industrial e design de interiores. O ethos centrado no ser humano foi central em todos os meus esforços de ensino e investigação.

Olhando para o seu caminho, podemos facilmente ver este objectivo de promover o design e difundir o pensamento do design por toda a África. Como conseguiu iniciar esta missão?
Este é um ano especial para mim, pois marca exactamente 20 anos desde que comecei a ensinar design a nível universitário! Tive a sorte de ter conhecido Adrienne Viljoen, que era então Directora do SABS Design Institute em Pretória, em 1994, que quando visitou Nairobi – tal como eu, comecei aí a minha carreira de professor. Mais tarde, assisti a uma Interdesign on Water em Pretória, em Abril de 1999, que foi endossada pelo ICSID. Foi durante esta visita que um grupo de nós, sob a direcção de Adrienne, formou a Rede de Designers Africanos (NAD). A NAD tem sido fundamental para permitir aos designers do nosso continente trabalharem em rede uns com os outros e trocarem as melhores práticas na educação, investigação e prática profissional. A NAD tem também proporcionado uma excelente plataforma para actores-chave interessados no design se empenharem num diálogo significativo e produtivo.

Quais são os desafios mais importantes que enfrenta na sua agenda de trabalho?
Os desafios que enfrento são mais em torno da atitude do que da aptidão. Com isto quero dizer que os maiores impedimentos ao progresso e desenvolvimento não são muitas vezes a falta de recursos, mas tipicamente a falta de boa vontade e apoio a estratégias de pensamento criativas para resolver problemas. No entanto, isto está a mudar à medida que mais pessoas se tornam conscientes da eficácia do pensamento criativo em ajudar a resolver os miríades de problemas perversos que enfrentamos quase diariamente dentro da maioria dos contextos mundiais. A maioria dos decisores e decisores políticos não reconhece o valor do design como “parte da solução” para enfrentar os vários desafios de desenvolvimento em África. Outro grande desafio é a ausência de uma política oficial de design para promover e proteger a profissão no continente africano.

Qual é a consciência que as sociedades africanas têm quanto ao papel do design na melhoria das suas vidas e necessidades?
A sensibilização é tipicamente bastante baixa. As pessoas estão familiarizadas com o artesanato, ou belas artes, ou engenharia, mas não com o design… Esperamos que os eventos e projectos da Cidade do Cabo Capital Mundial do Design 2014 ajudem os nossos esforços para promover a alfabetização e a sensibilização para o design.

Que tipo de mudanças se podem prever se as pessoas começarem a perceber a importância do design?
Estou entusiasmado com o potencial Tiago! Acredito que quando as pessoas se aperceberem da relevância crítica e do vasto potencial do design na resolução de diversos desafios socio-técnicos, que a África poderá saltar para um futuro positivamente sustentável para todos dentro de uma geração…

Para lá da inovação e da utilidade do design, há aspectos sociais, culturais, políticos e económicos que têm de ser considerados como um todo. Como é que todas estas diferentes sensibilidades estão a lidar com esta necessidade de desenvolvimento, sustentabilidade e melhor qualidade de vida?
Todas estas preocupações estão interligadas, precisamente porque as pessoas estão no epicentro de cada questão, seja ela sócio-cultural, sócio-económica, sócio-técnica ou outra. A sustentabilidade é o imperativo mais urgente da nossa era – todos devemos agir em uníssono para alcançar a equidade e a sustentabilidade: como diz um popular provérbio africano: “se eu correr sozinho, posso correr mais depressa; mas se corrermos juntos, podemos correr mais longe”…

Que nível de gravidade tem, de facto, a questão do ambiente global para os países africanos? 
Esta é uma questão importante e digna de apoio por parte de todos os líderes africanos e dos seus cidadãos. As alterações climáticas são um fenómeno real e os países mais pobres do Sul global são muito mais vulneráveis do que a maioria. O momento de agir é agora, e deve ser um esforço colectivo coordenado.

Será que a poluição e a destruição do ambiente em África atingiu um ponto de não retorno? Que recursos naturais exigem uma linha consistente e pró-activa de medidas de protecção?  
A situação é grave, mas ainda não desesperada. Alguns países que registam chuvas anuais decrescentes viram a expansão do deserto à medida que este invade as terras aráveis, enquanto outras regiões estão a sofrer graves inundações. A frequência destes extremos é motivo de preocupação e de acção concertada. A procura de segurança energética exige também um novo pensamento e investimento em fontes renováveis distribuídas. Felizmente, um número significativo de projectos de investigação em colaboração Norte-Sul estão a abordar esta importante questão global – ainda não se perdeu toda a esperança, mas …

Que campos de design podem desempenhar um papel crucial em todo o continente africano e nas suas necessidades específicas?
Uma abordagem transdisciplinar envolvendo várias ciências sociais e aplicadas, bem como o eco-design, Design para a Sustentabilidade e sub-disciplinas relacionadas apoiadas por metodologias participativas ou de co-design seria certamente útil…

É neste momento o presidente eleito do Conselho Internacional das Sociedades de Desenho Industrial (Icsid). Como encara esta eleição e como a vê como uma oportunidade para reforçar esta missão que tem vindo a levar a cabo e os objectivos que ainda pretende alcançar em benefício das pessoas? 
É de facto uma enorme honra, especialmente porque serei presidente para o mandato de 2015-2017. A fé que a família Icsid tem demonstrado ao eleger-me para este importante cargo é verdadeiramente humilhante. Estou também entusiasmado com a oportunidade histórica de articular uma visão colectiva que muitos de nós neste continente alimentámos ao longo dos anos. O centro desta visão é a busca do Icsid em articular uma compreensão matizada da agência de design no avanço de tecnologias humanizantes e soluções sócio-técnicas que são afirmação da vida e ressoam particularmente com designers mais jovens em todo o mundo…

Que tipo de papel tem o Icsid na protecção e promoção do design a nível mundial?
Esta é a razão de ser do Icsid – a principal razão de ser do Icsid desde 1957! O Icsid dirige vários programas excitantes, incluindo, entre outros: o Prémio Mundial do Impacto do Design; o Dia Mundial do Design Industrial; workshops Interdesign; e a Capital Mundial do Design.  Subsequentemente, o Icsid apoia os seus membros (listados nos pilares Empresarial, Educativo, Profissional e Promocional) através de intercâmbios regionais regulares onde as comunidades locais de design interagem com representantes do Icsid, conselheiros regionais e membros do conselho executivo.

O desenvolvimento tecnológico actual continua a oferecer novas oportunidades de soluções inovadoras, mas será que o design está realmente ao serviço da humanidade?
Este é uma dura de roer, Tiago! Acredito que a tecnologia por si só é neutra na sua qualidade e intenção. É a vontade humana e a agência social que se apropriam da tecnologia para servir diferentes necessidades e funções. Em última análise, isto é uma questão de ética e escolha – nós (a raça humana) devemos fazer escolhas informadas e benéficas que melhorem as qualidades de vida de outras pessoas, bem como proteger o ambiente que todos nós precisamos para a nossa sobrevivência como espécie. Neste sentido, o design é uma força poderosa que pode ser aproveitada e canalizada para o bem maior…

Como avalia a sua contribuição pessoal para o design? Onde é que percebe que ainda existe muito trabalho para ser levado adiante?
Eu acredito que cada designer, independentemente do foco sub-disciplinar que persegue para o seu sustento, pode e deve fazer a diferença – todos nós podemos fazer parte da solução! O Norte global tem avançado uma panóplia de design tecnologicamente superior que nos permite alcançar uma grande precisão e eficiência. Eu defendo, humildemente, que os designers do Sul global estão mais sintonizados com o “design por necessidade”, o que nos mantém sintonizados com as necessidades reais de 90% da população mundial – é a isto que me refiro como ritmo de ritmo humano. Acredito que quando combinamos os melhores atributos de precisão e ritmo, acabamos com uma abordagem perfeitamente equilibrada aos problemas perversos que nos acostumam como uma comunidade global – soluções tecnologicamente avançadas que são humanizantes, duráveis e robustas!

Para si o que significa bom design?
Esta tem sido uma entrevista muito estimulante Tiago e agradeço-vos muito sinceramente esta oportunidade de dialogar convosco. Concluindo, para mim o Bom Design é inclusivo, participativo e ‘honesto’. O Bom Design é respeitoso das aspirações humanas e conhecedor das nuances subtis que nos tornam verdadeiramente humanos – é dar -generoso-, e perdoar -empático-.