Para lá do Design
ENTREVISTA A DIOGO GAMA ROCHA, DESIGNER E GESTOR DA OMDESIGN, EMPRESA DE DESIGN E PUBLICIDADE, PARA QUEM A EXCELÊNCIA E A PERFEIÇÃO TÊM SIGNIFICADOS PROFUNDOS. UM RETRATO DO BRIO ARTESÃO DO NORTE DE PORTUGAL.  

A omdesign entra numa nova dimensão, evoluindo de micro para pequena empresa, mantendo a simplicidade e adquirindo uma maior maturidade. Para Diogo Gama Rocha um dos maiores privilégios que a equipa que lidera tem é o poder trabalhar as marcas, que considera o maior activo das empresas. O reconhecimento e os êxitos que a empresa tem alcançado em Portugal e no estrangeiro prestigiam a marca de um trabalho feito com prazer.

Texto: Tiago Krusse

Fotografias: Cortesia da omdesign

Simplicidade e discrição é a mais fina das elegâncias

“O Design não é Arte, de todo! … tem de ter arte”, a afirmação é de Diogo Gama Rocha, o designer que lidera a equipa da omdesign. Não foi a frase do início da entrevista, produzida na sede da empresa, em Leça da Palmeira, Matosinhos, na área metropolitana do Porto e junto ao mar, mas ela capta bem o espírito que orienta toda uma equipa de profissionais. O mar e Matosinhos acabam por ter um sentido muito profundo quando olhamos para a localização da empresa, isto é, a característica universalista do português, que se aventura no Mundo com ousadia, conhecimento e dignidade, e a cidade que também é município, com história e reputação quotidiana no campo do ensino e da actividade económica e social orientada por design.

A omdesign foi criada em 1998, ano em que Portugal realizou a Expo 98 – a exposição mundial que teve lugar em Lisboa -, e passadas mais de duas décadas de existência dedicadas à prestação de serviços de design e de publicidade, ela evoluiu de micro para pequena empresa. Uma evolução sem pressas, num processo de ganho de maturidade contínuo, que sublinha antes de tudo mais o que a empresa é e não o que ela possa parecer aos outros. É uma forma de estar que Diogo Gama Rocha gosta de passar à sua equipa, inteiramente nacional. Uma equipa multidisciplinar, onde a parte criativa é a maior, mas onde se integra também a comunicação e a produção. Não há uma preocupação com quotas relativa ao género, perfeitamente equilibrada entre mulheres e homens numa equipa em que sente um orgulho que é comum a todos. Tal como é intenso em tudo aquilo que faz, Diogo Gama Rocha também exige o mesmo dos seus colaboradores. Mas o sentimento geral, diz, é natural a todos e que todos sentem que só pelo gosto, pela dedicação e pela entrega total se poderão alcançar novos estádios de evolução profissional. Tudo feito com muita naturalidade, com verdade e sem necessidade de águas muito agitadas. “Simplicidade e discrição é a mais fina das elegâncias”, como costuma dizer, no trabalho ou em casa.


Embalagem promocional da omdesign, produto que venceu o prémio iF Design Award Ouro em 2018

O ambiente familiar proporcionou a Diogo Gama Rocha uma atmosfera rica, com marcas e exemplos do seu pai e dos seus avós que, para lá do jeito e a inclinação para muitos ofícios, tinham ambos uma vontade de aprender a que se juntava uma incessante busca de conhecimento em diferentes áreas. Seu pai tinha uma oficina em casa, para fora do trabalho, dar largas à paixão por tudo o que eram trabalhos manuais e o fascínio pelos automóveis clássicos. Da mãe enaltece o gosto pelos detalhes, os pormenores e a capacidade para criar o requinte. Refere a avó Rosa Moutinho, artista plástica, que despertou em si uma orientação e a exigência pelo detalhe da cor, e João Martins da Costa, conhecido artista plástico e referência no mundo da arte nacional. O avô era apelidado de “da Vinci português”, uma pessoa para a época com um pensamento muito evoluído em diversas áreas e dotado de uma inteligência muito fora do normal. Deixa um bom exemplo do trabalho do seu avô, nomeadamente os estudos relativos ao aproveitamento da energia produzidos pelas marés, recentemente adaptado e materializado. O projecto foi oferecido ao estado português na pessoa de Maria de Lurdes Pintasilgo, antiga primeira-ministra portuguesa, para a época, em 1979, manifestando então preocupações ambientais mas também apresentando soluções para recuperar as harmonias da natrureza . Na altura deixou expresso que “há anos que penso ser um problema de relativamente fácil solução, se os governantes das nações banhadas por oceanos (e em grande parte o são) estiverem na disposição de modificar os sistemas energéticos tradicionais, nomeadamente os dependentes de petróleo e seus derivados” 
Quer no seu seio familiar ou fora dele, Diogo Gama Rocha sempre gostou de observar e os exemplos que tinha da família levaram-no a gostar e a querer aprender. Assume-se como um incansável observador. Diz-nos que para lá dos pais, os avós nunca morrem.

A ideia na premiada embalagem promocional de 2016

O mundo particular das serralharias e das carpintarias fazem parte da memória viva de Diogo enquanto profissional que é, e recorda também essa fase do processo até se tornar designer e gestor. Lembra a Escola Industrial de Matosinhos, onde frequentou o sétimo e o oitavo ano, e a boa memória de ligar as máquinas, de bater a chapa ou visitar inúmeros artesãos. Sublinha que foi a melhor coisa que lhe poderia ter acontecido no seu percurso. E esse gosto em perceber e sentir a indústria está presente desde aí. Isto explica a vontade em querer fazer e de aprender também com o conhecimento que os outros têm. A diversificação na área do negócio é mais uma das mais-valias da empresa e daí uma ligação a outras empresas com outras especialidades, não esquecendo a consistência em tudo o que fazem nos últimos 23 anos.

Embalagem para o azeite da Quinta de Ventozelo, produto que venceu o iF Design Award Ouro em 2017
Reformulação gráfica na comunicação do vinho João Pires da José Maria da Fonseca

A perfeição é atingida através de passos pequenos e calmos, requer sobretudo a mão do Tempo

Nos últimos 6 anos, desde 2015, a omdesign ganha uma reputação a nível nacional e, sobretudo, no estrangeiro, ao ser reconhecida e premiada em diversas e reputadas competições de design, cuja ideia orientadora é reconhecer e distinguir a qualidade e as boas práticas na disciplina. Diogo Gama Rocha frisa com contundência que o resultado deste reconhecimento é fruto de muitas variantes e em particular a importância da relação da omdesign com fornecedores e parceiros. Trabalhar e fazer trabalho bem feito.  As condicionantes de processos de fabrico e as barreiras encontradas em cada uma das fases do trabalho são superadas em conjunto. Uma relação com dois sentidos, da empresa com fornecedores e parceiros e vice-versa. Há uma inequívoca interiorização de valores e princípios que são fundamentais nas diferentes cadeias do processo de um trabalho. O sucesso e a superação de desafios são feitos em conjunto, é de facto um trabalho de equipa. E surge a palavra perfeição e aqui, o estratega da empresa, diz-nos que nunca a atingiu ou a ela chegará mas que já teve alturas em que sentiu que andou lá muito perto. E nesse rumo à perfeição há inevitavelmente muito trabalho e muita insatisfação. Para si, e desde 1998, o foco e o pragmatismo mais a busca pela perfeição e a excelência são um modo de estar na vida. É esse o modus operandi da equipa onde a qualidade humana é fundamental. De uma maneira maniqueísta, expressa que só há duas formas: “ou bem ou mal”. O mais ou menos, o meio termo, isso não interessa, sabe que têm de trabalhar para o bom e o muito bom. Tem plenamente a consciência de que aquilo que se conseguiu ontem ou é alcançado hoje terá de ser superado amanhã. É esta a filosofia da omdesign, algo que está presente diariamente e desde o início da empresa. E será que o cliente percebe essa perfeição? Afirma que vão sempre mais além e para lá das expectativas que os clientes têm, do início ao fim do processo. E Diogo fica satisfeito por essa exigência e coerência, sublinhando, com satisfação, que faz o que gosta e ainda é pago por isso. Confidencia-nos que na sua secretária de trabalho tem, tal como viu na do seu pai – empresário químico e gestor, sempre ligado à indústria -, um recorte com uma máxima de Voltaire: “a perfeição é atingida através de passos pequenos e calmos, requer sobretudo a mão do Tempo”.

A marca, o logo e toda a simbologia da empresa, criada por Diogo Gama Rocha, mantém-se inalterada desde a sua fundação. O verde e o azul do logo têm um razão, um significado. O verde como cor da natureza e o azul da água que nos remete para o céu, para o mar e o elemento que sustenta a vida. Foi o que sentiu na altura para a marca da empresa e se mantém, é uma identidade e como tal uma idiossincrasia que não vai por modas, tendências ou vaidades.

A omdesign tem o privilégio de trabalhar o maior activo das empresas: as marcas

Rita Gama Rocha e Diogo Gama Rocha no espaço expositivo da omdesign na feira Luxe Pack Monaco, em 2021

Actualmente Diogo Gama Rocha diz-nos que a omdesign tem o privilégio de trabalhar o maior ativo das empresas: as marcas. O seu pensamento é contrário aos que pensam que a maior riqueza de uma empresa é a sua capacidade produtiva, no seu entender é a marca, os seus produtos. Dá-nos um exemplo hipotético de uma empresa cuja fábrica arde e a sua capacidade produtiva é terrivelmente afectada. A marca, contudo, não se perde no incêndio. Outra pessoa por quem tem grande consideração, estima e amizade, o professor Gaspar Martins Pereira disse-lhe em tempo que há muitas empresas que perduraram mais de 300 anos mas o que deixaram de legado foi rapidamente esquecido e que a omdesign com estes vinte anos já deixou trabalho de inolvidável qualidade. Numa citação, o professor deixa um testemunho em enaltece as qualidades do designer dizendo que “Trabalhar com o Diogo e a equipa Omdesign é um privilégio. … Com brio artesão, combinam simplicidade de processo, ousadia e modernidade, ingredientes certos para fazer do trabalho uma arte e um prazer partilhados”. 

Diogo Gama Rocha


Diogo Gama Rocha nasceu a 2 de agosto de 1973, no Porto. Diogo é o fundador da Omdesign, uma das principais agências portuguesas de design e publicidade. Licenciou-se em Design Gráfico pela ESAD em Matosinhos, Portugal, e obteve o Mestrado em Marketing e Comércio Internacional pela ESADE em Barcelona, ​​Espanha.

Fundou a Omdesign em 1998 e a agência de design e publicidade tem vindo a trabalhar com marcas líderes em diferentes áreas de negócio como aquelas ligadas às bebidas, à alimentação, ao grande consumo, ao turismo ou à saúde. A sua actividade tem sido reconhecida com regularidade, tendo arrecadado mais de 300 prémios de design nacionais e estrangeiros.

É também membro do Conselho de Fundadores e Administrador da Fundação Júlio Resende e foi reconhecido como Bolseiro Honorário com o Grau de Cavaleiro da Confraria do Vinho do Porto, desde 2016.

Tem sido convidado a participar como júri em importantes concursos de design, nomeadamente o iF Design Award, na Alemanha, o Graphis Design Annual, nos Estados Unidos da América, e foi também presidente do júri da LUSOS – Prémios Lusófonos da Criatividade, em Portugal.