De Veneza para o Mundo
UM OLHAR SOBRE O PERCURSO DO DESIGNER LUCA NICHETTO, COM TEXTOS DE MAX FRASER E FRANCESCA PICCHI, EDITADO PELA PHAIDON, QUE NOS TRAZ MAIS DO QUE MATERIALIZAÇÃO DE PROJECTOS, COLABORAÇÕES E CONVERSAS DE DESIGN. 

Com dois estúdios, um em Veneza e outro em Estocolmo, Luca Nichetto leva mais de duas décadas a produzir design e a criar fortes relações de trabalho que pautam por um espírito criativo aberto ao conhecimento, à superação e a um pensamento estruturado, consolidado em boas práticas que lhe permitem chegar um pouco mais à frente na capacidade de concretizar ideias.

Texto: Tiago Krusse

Imagens: Cortesia do Nichetto Studio e da Phaidon

A monografia dedicada ao estúdio do designer italiano Luca Nichetto apresenta um cuidado levantamento sobre aquilo que tem sido a sua prática profissional nestas mais de duas décadas de concretizações de projectos. Os textos e as entrevistas, por Max Fraser e Francesca Picchi, procuram sobretudo contextualizar, ora por Luca Nichetto ou por outras pessoas com quem colaborou nestes últimos anos, um universo de ideias e a forma de actuar em cada caso específico. É um livro que vai à procura do Homem, do espírito que o move, o seu pensamento e as maneiras com que encarou os diferentes desafios. Para lá das cores e das formas, realizamos que há paixão em Nichetto quando percebemos a rapidez com que responde às solicitações de trabalho como foi o caso com a Steinway & Sons. Percebemos de imediato como gosta de trabalhar e de se aventurar em desafios no qual o design, o seu, só pode evoluir pela compreensão, pela pesquisa, pelo desenvolvimento de soluções e a necessidade de inovar nos processos que permitem alcançar novos estádios de realização na produção de objectos tão diversos. E percebemos que há realização pessoal através da alegria em que o designer se envolve com as pessoas, mostrando o interesse em aprender e a compartilhar experiências que permitem que o seu design possa de facto reflectir o espírito do trabalho de equipa. Compreendemos que estamos perante alguém cuja educação -valores, princípios e prática- abre portas para uma natural capacidade de criar equipas motivadas e de reconhecer em cada elemento delas as qualificações necessárias para que o resultado final seja o mais próximo do idealizado. É essa mesma educação que também lhe permite deixar-se fascinar pela cultura, pela História e procurar a razão do ser de coisas tão complexas nas mais distintas sociedades. E por aí entra por um conjunto de “segredos” bem guardados e de técnicas ancestrais que não se perderam e que mantêm um sentido de uma riqueza antropológica muito mais lata, mais profunda, do que uma mera solução de um momento particular. E Luca Nichetto não se deixa aquartelar em que área fôr, gosta de complementar a sua curiosidade na forma como encara cada projecto propondo encontros entre técnicas mais comuns com outras mais sofisticadas. Fá-lo de uma forma natural e objectiva, havendo casos em que é a ciência que dita o sucesso de um processo criativo e noutros cuja harmonia dos elementos é obtida através da observação e da experimentação. São muitos instrumentos ao dispor e uma infindável informação pública acessível a todos mas de pouco valem se não existir a necessária sensibilidade, a emoção e o pensamento para retirar os ensinamentos tão fundamentais para as boas práticas. De pouco vale a tecnologia sem tudo isto.

A monografia está pensada de forma cronológica, em 23 partes que nos revelam projectos, colaborações e conversas de design. Com mais de 500 fotografias, maioritariamente de imagens de produtos e uns quantos esquissos, entendemos desde logo um cuidado em dar corpo a quem é o mentor de toda esta carreira e trabalho. Desde logo permite-nos ter uma ideia do universo pessoal de Luca Nichetto, num conjunto de produtos que se estendem desde a arte de transformar o vidro – suas origens de Murano – à mais avançada tecnologia de iluminação. E todas essas imagens e desenhos deixam-nos perceber sobre a qualidade do trabalho, o apurado sentido da elegância, o gosto pelo bom uso das cores, o conforto trabalhado das formas e, essencialmente, a mais do que notória capacidade para fazer nos mais elevados graus de exigência e qualidade. E percebemos que não há uma fórmula, um formato fechado ou uma tendência para um determinado tipo de projecto. Há todo um universo de variados objectos, mais complexos ou de concepções mais simples, que vão ao encontro de um pedido e de uma intenção pelos quais foi solicitado. É claro que um apaixonado e interessado por design poderá perceber, ao reflectir naquilo que vê, os traços que definem o design de Nichetto. É a forma de fazer e a qualidade com que apresenta o que lhe foi pedido. Entrega de facto as suas afinidades culturais, os seus conhecimentos e as suas ideias de harmonia sem nunca precisar de carregar uma assinatura ou uma espalhafatosa encenação. O trabalho de Luca Nichetto contraria a ideia de que há demasiado design, que se produzem demasiados produtos ou que se desperdiçam demasiados recursos e energia. É claro que afirma que o papel do design e a sua procura trouxe consigo mais trabalho para a profissão e também muito do que é considerado de banal entre os seus profissionais. Há problemas que surgiram com todo este crescimento e que são muitos os intervenientes no mercado que não estão minimamente preocupados com os maus processos e os efeitos nefastos causados por este ciclo. Há coisas que se podem combater mas a avalanche não pode ser combatida de forma esporádica e muito menos por via singular. Daí que defenda a qualidade do seu trabalho e a seriedade com a qual o encara, sendo esse o melhor contributo que pode dar à sociedade. O seu trabalho, com todos aqueles com quem colabora e aprende, expressa que tudo o que é feito com uma qualidade superior não deve ser misturado com um sem-fim de bugigangas inúteis. E como são importantes as emoções, o pensamento, a sensibilidade. A verdade.

Nos textos inclusos nesta monografia, como é o caso de Porcelain Never Forgets, numa conversa entre Alessandro Badii com Francesca Picchi, realizamos como Luca Nichetto se envolve nos projectos e consegue contagiar, pelo seu entusiasmo e a sua natural maneira de apresentar ideias, clientes. E nesta caso, com a Ginori 1735, fica também ilustrado como o designer se deixa contagiar pela cultura, pelos processos e as diferentes etapas num projecto tão delicado e frágil como a produção em porcelana. O designer consegue por fim “refrescar” conceitos, apurar técnicas e optimizar a produção.
As quatro entrevistas de Max Fraser a Nichetto também nos deixam um claro perfil do designer. Percebemos o homem, as suas idiossincrasias, as suas preocupações e os assuntos que mexem na cultura do design. Encontramos o indivíduo preocupado com as problemáticas da produção, da qualidade dos produtos, a sustentabilidade e os desafios que promovam uma benéfica mudança nos comportamentos. Percebemos com clareza o que o designer Luca Nichetto faz e como faz.



Editado pela Phaidon

Textos: Luca Nichetto, Max Fraser e Francesca Picchi

ISBN 978 1 83866 324 7