Maria João Félix

Impulsionadora da Design Commit e no momento em que leva a segunda edição desta conferência a Guimarães, Capital Verde Europeia 2026, Maria João Félix deixa-nos um retrato do estádio do design em Portugal. A iniciativa, para lá de um encontro para a reflexão, vinca sobretudo o benefício do design quando integrado em processos de trabalho e de tomada de decisões, diagnosticando problemas mas acelerando mudanças que permitem progressão.

Entrevista de Tiago Krusse
Fotografias e imagens: cortesia da Design Commit

O que tem a Design Commit como seus principais pilares?


A Design Commit assenta numa visão do design como força de mediação entre sociedade, natureza, cultura, tecnologia e indústria. Os seus pilares fundamentais são, por isso, a transdisciplinaridade, a sustentabilidade, a regeneração, a inovação responsável e a aproximação efectiva entre academia, tecido empresarial, instituições públicas e território.

Não se trata apenas de uma conferência científica. A Design Commit foi pensada como uma plataforma internacional de pensamento e acção, capaz de reunir investigação, prática projectual, indústria, políticas públicas e cidadania. O seu objectivo é criar condições para que o design deixe de ser visto como uma camada final de forma ou comunicação e passe a ser reconhecido como uma disciplina estratégica, com capacidade para intervir nos grandes desafios contemporâneos: a crise ecológica, a transição industrial, a saúde dos ecossistemas, a inclusão social e a transformação dos modos de vida.

Em 2026, esse posicionamento torna-se ainda mais claro com o tema “Design for Different Futures | Learning with Nature”, que propõe uma mudança de paradigma: deixar de olhar para a natureza apenas como recurso ou inspiração formal e passar a reconhecê-la como inteligência, sistema e mestra.

Quem foram os mentores e responsáveis pelo arranque deste colóquio bianual?


A iniciativa nasce da minha trajectória académica, científica e profissional, e da necessidade que fui sentindo, ao longo dos anos, de criar em Portugal um espaço internacional mais exigente, mais consequente e mais comprometido com os desafios reais do nosso tempo.

A génese da Design Commit está também ligada ao desenvolvimento da minha investigação em design, nomeadamente ao percurso que conduziu ao Bioneurodesign, bem como à consciência de que era necessário criar uma plataforma onde o design pudesse dialogar de igual para igual com a indústria, a ciência, a tecnologia, os decisores e os territórios.

Naturalmente, uma iniciativa desta natureza só ganha corpo através de uma rede alargada de colaboração. A conferência envolve hoje várias instituições de ensino superior, centros de investigação, comissões científicas nacionais e internacionais, parceiros institucionais e equipas de organização. Mas o impulso fundador foi muito claro, criar, a partir de Portugal, uma conferência internacional com identidade própria, relevância científica e impacto real.

Onde é que foi reunido o apoio financeiro e qual o interesse económico dos intervenientes que consolidam a iniciativa?


A sustentabilidade da Design Commit resulta de um modelo misto, assente em inscrições, parcerias institucionais, apoio logístico e patrocínios estratégicos. Esse modelo é importante porque garante diversidade de contributos e evita que a iniciativa fique dependente de uma única lógica ou de um único financiador.

Os intervenientes que se associam à conferência fazem-no por diferentes razões. Algumas instituições reconhecem o valor científico e cultural da iniciativa. Outras vêem nela uma oportunidade de reforçar posicionamento territorial, inovação, redes internacionais e visibilidade. No caso das empresas e parceiros industriais, há também um interesse legítimo em integrar um ecossistema onde se discutem tendências, metodologias, materiais, políticas europeias, modelos de negócio e novas exigências regulatórias.

Dito isto, importa sublinhar uma coisa, a Design Commit não foi criada para servir interesses económicos de curto prazo. Foi criada para gerar valor estrutural, intelectual, territorial, relacional e estratégico. Quando uma conferência consegue aproximar investigadores, estudantes, empresas, municípios, indústria e decisores, está a produzir condições para inovação qualificada. E isso tem, evidentemente, reflexos económicos, mas também sociais, culturais e ambientais.

Os General Chairs e Chairs da Design Commit, Fernando Moreira da Silva, Fátima Pombo, Maria João Félix, Rita Assoreira Almendra e Paulo Cruz.

Quando é que foi percebida a necessidade de criar um espaço para a discussão dos assuntos e de que forma foi ela recebida interna e externamente?


Essa necessidade foi-se tornando evidente ao longo dos últimos anos, à medida que se agravavam os sinais de insustentabilidade dos modelos dominantes de produção e consumo e, em simultâneo, se tornava claro que o design continuava subaproveitado nas grandes decisões.

Internamente, entre colegas, investigadores, estudantes e profissionais, havia uma percepção crescente de que faltava um espaço agregador, com ambição internacional, onde o design pudesse ser discutido de forma profunda, crítica e conectada à realidade industrial e social. Externamente, a resposta foi muito positiva desde o início, precisamente porque a proposta não surgiu como mais um evento, mas como uma plataforma com discurso, curadoria e orientação temática claras.

A primeira edição confirmou isso. A segunda consolida-o. O interesse de autores, keynote speakers, parceiros institucionais, editores e redes científicas mostra que havia, de facto, uma lacuna. E mostra também que Portugal tem capacidade para acolher e liderar este tipo de debate a um nível elevado.

Como é que tem sido avaliado o resultado prático, não só em termos de diagnóstico e conclusões das temáticas em discussão, bem como no alcance a profissionais, empresas e indústrias que partilham semelhantes preocupações e interesse na evolução de comportamentos?


O resultado prático tem de ser avaliado em vários níveis. Em primeiro lugar, ao nível científico, qualidade das submissões, internacionalização dos autores, indexação de publicações, produção editorial, continuidade de temas e criação de novas redes de investigação. Em segundo lugar, ao nível relacional, número e qualidade das parcerias, envolvimento de empresas, aproximação entre investigadores e tecido produtivo. Em terceiro lugar, ao nível simbólico e estratégico,  a capacidade de colocar determinados temas no centro da agenda.

No nosso caso, a conferência já demonstrou capacidade para mobilizar autores de diferentes geografias, consolidar publicações científicas, gerar volumes editoriais de referência e, sobretudo, criar uma comunidade em torno da relação entre design e indústria, hoje atravessada por questões como regeneração, circularidade, biomateriais, inteligência territorial, natureza e ética tecnológica.

Mas há outro aspecto muito importante,  a conferência não pretende apenas diagnosticar problemas. Pretende acelerar mudança. Quando uma empresa participa e percebe que o design pode intervir a montante, quando um município reconhece o valor do design nos processos urbanos, quando um estudante entra em contacto com agendas internacionais exigentes, já existe impacto prático.

Por que motivos os designers e a sua prática profissional não encontram a mesma facilidade de intervenção especializada quer no seu relacionamento com os decisores políticos quer com os decisores industriais e empresariais?


Porque, durante demasiado tempo, o design foi reduzido, por muitos, a uma função acessória, associada à estética, à comunicação ou à diferenciação superficial. Essa leitura empobrece radicalmente a disciplina e impede que o designer seja chamado aos momentos estratégicos da decisão.

Há ainda um problema estrutural, muitos decisores políticos e empresariais reconhecem o valor do design apenas na fase final, quando o produto, serviço ou espaço já está praticamente definido. Ora, nesse momento, o contributo do design fica amputado. O design tem de estar presente na definição do problema, na leitura do contexto, na antecipação de cenários, na mediação entre utilizadores, tecnologia, sustentabilidade e viabilidade.

Também é verdade que o próprio campo do design tem de continuar a afirmar-se com maior robustez metodológica, linguagem estratégica e capacidade de diálogo intersectorial. Sempre que o design demonstra evidência, métricas, impacto e capacidade de integrar complexidade, conquista espaço. O problema não está na falta de valor do design; está, muitas vezes, na persistência de modelos de decisão que ainda não compreenderam todo o seu alcance.

Quais os principais desafios que se levantam hoje no ensino do design e consequente prática, contemplando questões de filosofia, ética e a introdução de novas metodologias de trabalho com base científica e tecnológica?


O maior desafio é formar designers capazes de pensar e agir num mundo de elevada complexidade. Isso exige muito mais do que domínio formal ou técnico. Exige cultura crítica, consciência ética, literacia ecológica, capacidade de trabalhar com dados, ciência, tecnologia, comunidades, sistemas produtivos e contextos territoriais.

Hoje, o ensino do design tem de integrar questões fundamentais, o impacto material das escolhas projectuais, a responsabilidade sobre os ciclos de vida, a justiça social, a inclusão, o papel da inteligência artificial, a recolha e interpretação de dados, a colaboração transdisciplinar e a capacidade de construir respostas sustentadas e não apenas sedutoras.

A ética deixou de ser um apêndice discursivo. Tornou-se um núcleo do projecto. O mesmo acontece com a ciência e a tecnologia, não podem ser tratadas como anexos instrumentais. Têm de entrar no ensino do design como linguagem de trabalho, como base de validação e como parte de uma prática mais responsável e mais consistente.

“Reflexão Estratégica para o Design em Portugal”, da autoria de Maria João Félix. Editado pela Artbook, Junho de 2023.

De que modo a academia, nacional e estrangeira, tem recebido vertentes do design como o design biofílico e o neurodesign?


A recepção tem sido progressivamente mais aberta, embora ainda desigual. Em alguns contextos, sobretudo internacionais, existe já um interesse claro por abordagens que ligam design, neurociência, comportamento, bem-estar, ambiente construído e saúde. O design biofílico, o neurodesign e outras vertentes próximas têm vindo a ganhar espaço porque respondem a inquietações muito concretas,  como projectar ambientes mais saudáveis, mais restauradores, mais humanos e mais alinhados com os ritmos biológicos e cognitivos.

No entanto, também aqui é necessário rigor. Nem tudo o que se apresenta com esse vocabulário tem profundidade científica. Há, por vezes, simplificação, moda ou apropriação superficial de conceitos. É precisamente por isso que defendo metodologias robustas, enquadramento crítico e diálogo sério entre design, ciência e prática.

A academia portuguesa está a abrir-se a estas discussões, mas ainda há caminho a fazer. O importante é evitar tanto a rejeição conservadora como o entusiasmo acrítico. O futuro destas áreas dependerá da sua capacidade para produzir conhecimento sério, aplicação consistente e resultados verificáveis.

Olhando para o design industrial e para as questões de sustentabilidade, tem existido de facto alterações profundas com impacto no meio ambiente ou não passa de tudo de uma boa intenção verde utilizada pelo marketing?


Tem existido de tudo. Existem transformações reais, importantes e promissoras. E existe também muito discurso vazio, muita cosmética verde e alguma instrumentalização do tema como linguagem de marketing.

Seria injusto dizer que nada mudou. Mudou. Hoje fala-se mais seriamente de durabilidade, reparabilidade, reciclabilidade, rastreabilidade, materiais de base biológica, redução de impacto e novos modelos de produção. A própria legislação europeia está a empurrar o sistema para outro patamar. Mas também seria ingénuo afirmar que a transição já ocorreu. Não ocorreu.

Ainda existe uma distância grande entre o discurso da sustentabilidade e a transformação efetiva dos modelos industriais. Em muitos casos, o design continua a operar dentro de lógicas produtivistas que não foram verdadeiramente questionadas. O desafio, por isso, já não é apenas “fazer menos mal”. É redesenhar sistemas, relações de valor, cadeias de abastecimento, indicadores de sucesso e culturas organizacionais.

Com a introdução, pela União Europeia, do Passaporte Digital do Produto, o que se altera para as indústrias e empresas?


Altera-se muito. O Passaporte Digital do Produto está ligado ao novo quadro europeu do Ecodesign for Sustainable Products Regulation (ESPR) e representa uma mudança estrutural na forma como os produtos serão documentados, rastreados e avaliados ao longo do seu ciclo de vida. A Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-lo como uma ferramenta para disponibilizar informação fiável sobre composição, durabilidade, reparação, reutilização, reciclagem e desempenho ambiental. 

Na prática, isto significa que as empresas terão de conhecer muito melhor os seus próprios produtos, os materiais que utilizam, a origem de componentes, as possibilidades de manutenção, desmontagem e fim de vida. Para alguns setores, esta transformação será particularmente exigente, porque obriga a organizar dados que muitas empresas ainda não têm sistematizados. No caso das baterias, por exemplo, a legislação europeia já definiu obrigações específicas e calendarização própria, com entrada em vigor faseada. 

Mais do que uma exigência burocrática, o Passaporte Digital do Produto é um sinal claro de que a competitividade europeia passará cada vez mais pela transparência, conformidade, circularidade e capacidade de prova. As empresas que se prepararem cedo terão vantagem. As que continuarem a operar com opacidade, fragmentação de informação e baixa rastreabilidade terão mais dificuldade de adaptação.

Existe uma sistemática recolha de dados por parte da comunidade de designers no que diz respeito à implementação de processos ligados à regeneração e proteção do meio ambiente e seus recursos naturais?


Ainda não de forma suficientemente sistemática, comparável e consolidada. Existem projectos, estudos, métricas sectoriais, ferramentas de avaliação e investigação aplicada. Mas não existe ainda, de forma generalizada, uma cultura madura de recolha, partilha e comparação de dados no campo do design que acompanhe a ambição do discurso sobre regeneração.

Esse é um dos grandes desafios actuais. Sem dados, sem critérios e sem capacidade de monitorização, o risco de confundir intenção com impacto é enorme. O design precisa de fortalecer a sua infraestrutura crítica, métodos de avaliação, indicadores, protocolos, estudos longitudinais e diálogo com áreas como engenharia, ciência dos materiais, ciências ambientais e ciências sociais.

Portanto, a resposta honesta é esta, há avanços, mas ainda não há maturidade suficiente. E essa maturidade é urgente.

Em termos da designada economia circular, em que estádio se encontra Portugal?


Portugal está num ponto intermédio, já não está no arranque conceptual, mas ainda está longe de uma transição plenamente consolidada. Existe enquadramento político e estratégico, nomeadamente através do Plano de Acção para a Economia Circular e de iniciativas como a InC2 – Iniciativa Nacional Cidades Circulares, mas a implementação permanece desigual entre sectores e territórios. 

Ao mesmo tempo, surgem sinais relevantes de maturação territorial. Guimarães, por exemplo, foi recentemente destacada em iniciativas europeias ligadas à circularidade e aparece associada a boas práticas e planos de acção nesta matéria, incluindo reconhecimento em contexto europeu e menção em relatórios recentes. 

Diria, por isso, que Portugal tem boas experiências, bons actores e bom enquadramento, mas ainda precisa de maior escala, maior articulação entre políticas públicas e empresas, melhor medição de resultados e mais incorporação do design nos processos de transição.


Os poderes políticos municipais estão conscientes do papel que os designers têm na reformulação dos espaços urbanos e dos processos que eles têm para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas nas cidades?


Alguns estão claramente mais conscientes do que outros. Há municípios que já perceberam que o design não serve apenas para “embelezar” a cidade, mas para pensar mobilidade, serviços, comunicação pública, acessibilidade, inclusão, bem-estar, participação, espaço público e relação entre pessoas e território. Nesses casos, o designer começa a ser visto como agente de mediação e inovação pública.

Mas esse reconhecimento ainda não é homogéneo. Em muitos contextos, o design continua ausente da formulação das políticas urbanas ou entra demasiado tarde nos processos. Ora, isso é uma perda para as cidades. Cidades mais humanas, mais legíveis, mais inclusivas e mais resilientes precisam de projecto, e projecto não é só engenharia nem só arquitetura: é também design.

Os municípios que compreenderem isto mais cedo estarão mais bem preparados para responder aos desafios contemporâneos, desde a adaptação climática até à coesão social e à qualidade da experiência urbana.

O que ganha a cidade de Guimarães através desta edição da Design Commit?


Guimarães ganha várias coisas ao mesmo tempo. Ganha projecção internacional, porque acolhe uma conferência com rede científica e profissional alargada. Ganha densidade crítica, porque se torna palco de discussão qualificada sobre design, natureza, indústria e futuro. Ganha ligações entre território e conhecimento, entre cultura e inovação, entre política pública e pensamento estratégico.

Esta edição acontece num contexto particularmente significativo, dado que Guimarães é a Capital Verde Europeia 2026, com programação oficial ao longo do ano e uma estratégia que procura reforçar o compromisso da cidade com a transição ecológica. A Design Commit inscreve-se muito bem nesse horizonte, porque traz para Guimarães uma discussão internacional exigente sobre regeneração, aprendizagem com a natureza, indústria e transformação dos modos de projectar.

Mas há um ganho ainda mais importante, Guimarães reforça-se como cidade que não apenas acolhe eventos, mas que se afirma como lugar de pensamento, experimentação e articulação entre território, ambiente, conhecimento e futuro. Esse posicionamento tem valor cultural, científico, político e económico.

Mais informação em https://designcommit.pt