Tbilisi com estrondo
A força da arte, do design e da tecnologia levam ao Hostile Noise, em Tbilisi, na Geórgia, 21 criativos, investigadores e artistas media com reflexões críticas e o propósito de provocar, perturbar, contrapondo a neutralidade, comodidade e suavidade institucional que rejeitam. Em conversa com Lana Labadze, da GeoLab, entramos pelo ruído, com curadoria de Karl Stocker e Sandro Asatani, e pela atmosfera educacional e produtiva da terra com antiga soberania e que restaurou sua independência em 1991, após décadas de ocupação soviética.
Entrevista de Tiago Krusse
Fotografias e imagens : cortesia da GeoLab, Sulkhan Namicheishvili, Rooms Tbilisi e Giorgi Shermazanashvili

O que é o Hostile Noise?
O Hostile Noise reúne 21 criadores interdisciplinares, pesquisadores e artistas de media de diversos países como a Áustria, Espanha e a Geórgia. Ele existe na tensão, no choque, na interferência. Prospera onde arte, design e tecnologia colidem, gerando deliberadamente fricção, ruptura e reflexão crítica. Rejeita a neutralidade, o conforto e a suavidade institucional. O conhecimento nunca é puro; os media nunca são inocentes; a percepção nunca é passiva.
Abraçamos o ruído como resistência, as falhas como insights e o conflito como inovação. Memória, poder e tecnologia são terrenos contestados e intervimos publicamente, não silenciosamente no laboratório. Recusamo-nos a traduzir, representar ou explicar por conveniência. Provocamos, perturbamos e expomos.
Esta é uma pesquisa tornada visível, audível e sentida. É indisciplinada, transfronteiriça, intergeracional e incontrolável. É Hostile Noise: fricção materializada, ideias tornadas tangíveis, percepção tornada indomável. Não harmonizamos. Não nos conformamos. Não nos calamos. Fazemos barulho. Resistimos. Colidimos.
No encontro, os participantes terão a oportunidade de explorar as obras de artistas visuais, assistir a apresentações de conferencistas e desfrutar de apresentações musicais ao vivo.
Quem são os promotores e a equipa envolvida?
Karl Stoker e Sandro Asatiani são os curadores. O projecto é organizado e apoiado pelo GeoLab (laboratório e centro de treino em novas tecnologias e inovação), pela Academia Estatal de Artes Apollon Kutateladze de Tbilisi e o Rooms Tbilisi.
O GeoLab promove o projecto nas redes sociais.
Onde é que se vai realizar?
Em Tbilisi, na Geórgia, no Rooms Tbilisi (Sala Central e Rooms Garden), a 18 de Abril de 2026, das 13h00 às 22h35.

Quando é que surgiu a ideia e o conceito?
Nos últimos dois anos, um grupo interdisciplinar tem explorado como entrelaçar uma malha indisciplinada de Design, Arte e Tecnologia. Essa colaboração abrange países, instituições e gerações, sempre enquadrada pela lente da arte mediática. Ela faz a ligação de um novo programa de doutoramento em inglês, em Tbilisi, com um formato de festival e exposição, que expande a pesquisa artística para além da esfera académica, alcançando o público em geral. Igualmente importante é o amplo espectro de práticas artísticas envolvidas, da arte urbana à arte sonora, da arte memorial às projecções imersivas, todas abrindo espaço para a reflexão sobre memória, poder, tecnologia e percepção.
O Karl Stocker idealizou o projecto e o Sandro Asatiani juntou-se a ele e a outros participantes e apoiantes.
Após o sucesso do festival em Graz, em Julho de 2025, as actividades continuarão, agora, com uma programação de um dia inteiro no Rooms Tbilisi.
Como foi desenvolvido e quais os objectivos que foram tomados em consideração?
O Hostile Noise foi desenvolvido como uma investigação transdisciplinar sobre a tensão produtiva entre a percepção humana e os sistemas tecnológicos. Concebido na interseção da teoria dos media e da arte contemporânea, o principal objectivo do projecto é recontextualizar o “ruído”, tradicionalmente visto como mera interferência, como um poderoso catalisador para a inovação e a crítica social. Ao fomentar “colisões” deliberadas entre diversas disciplinas e perspectivas, o projecto visa desconstruir a natureza fluida da comunicação moderna, proporcionando uma plataforma especulativa onde o atrito, o risco e a ruptura estética se tornam ferramentas para desvendar novas camadas de significado num mundo cada vez mais digital.
Por que é importante tomar esta iniciativa e qual é o resultado esperado?
A concretização desta iniciativa aborda a crescente tensão entre a acção humana e a complexidade opaca dos sistemas tecnológicos modernos. Ao criar um espaço para o “ruído hostil”, o projecto incentiva a resistência crítica contra o consumo passivo de estruturas digitais e sociais, reafirmando o papel do indivíduo como participante activo na construção com significado.
Para além de seus objectivos conceptuais, a iniciativa serve como uma ponte entre a Áustria e a Geórgia, e não só, fomentando uma troca dinâmica de conhecimento, práticas artísticas e especialização institucional.
Esta colaboração não é meramente um encontro de artistas, mas uma parceria estratégica concebida para fortalecer os laços culturais entre nações e criar redes sustentáveis para a inovação de futuro.
Ela visa servir como catalisador para novas colaborações, iniciativas estratégicas e parcerias de longo prazo.
O que define a missão da GeoLab e que avaliação pode ser feita do seu historial?
Desde 2015, data da fundação, a nossa missão tem sido eliminar a lacuna de competências digitais e capacitar uma nova geração de profissionais por meio de aprendizagem prática e de experiência no mundo real.
O GeoLab tem servido consistentemente como uma incubadora de inovação digital, formando uma geração de profissionais prontos para o mercado de trabalho e estabelecendo um modelo sustentável de aprendizagem informal e contínuo.

Quem são os principais actores no campo do design produzido na Geórgia?
O campo do design na Geórgia é uma síntese fascinante de história e inovação digital. Figuras importantes como o Rooms Studio, no design de interiores, e George Bokhua, na identidade visual, estabeleceram padrões internacionais. Agências criativas de ponta, como a Windfor e a Leavingstone, redefiniram o panorama da publicidade, enquanto a influência global de Demna consolidou a reputação de Tbilisi como uma capital criativa em ascensão.
Quais são os maiores desafios sentidos no campo profissional e quais medidas que estão a ser tomadas para mitigar a insegurança no emprego e o
desemprego?
Os principais desafios profissionais incluem a lacuna de competências entre a formação académica e as necessidades do mercado, aliada à insegurança no trabalho inerente aos voláteis sectores, baseados em trabalho autónomo. A escala limitada do mercado local impulsiona uma persistente “fuga de cérebros”, à medida que os melhores talentos procuram estabilidade por meio de trabalho remoto internacional ou emigrando.
Como foi que a educação se adaptou às novas exigências e desafios para os alunos, dando-lhes o valor insubstituível do seu pensamento?
A educação está a alterar-se de uma simples transmissão de conteúdo para o estímulo ao pensamento crítico e sistémico. Ao adoptar a transdisciplinaridade e a Aprendizagem Baseada em Projectos (ABP), as instituições capacitam os alunos a encontrar ligações entre áreas distintas, uma característica exclusivamente humana e que a IA não consegue copiar. O foco agora encontra-se na metacognição (aprender a aprender) e no design crítico, garantindo que o valor do aluno resida não na execução técnica, mas na sua capacidade de navegar por cenários éticos e sociais complexos.

Quais as estratégias empregues para desenvolver o crescimento económico na Geórgia ao mesmo tempo que se salvaguarda o bem-estar social?
A estratégia da Geórgia envolve uma abordagem dupla: liberalização agressiva (impostos baixos, desregulamentação), combinada com redes de protecção social lideradas pelo Estado. A promoção do ecossistema de inovação e os incentivos fiscais para empresas de tecnologia visam criar empregos de valor acrescentado, enquanto que as reformas na educação profissional procuram reduzir a desigualdade, requalificando a força de trabalho para a era digital.
O que é bom design?
O bom design é a harmonia entre forma, função e ética. Ele enfrenta desafios com clareza estética e facilidade de uso, respeitando fundamentalmente a humanidade e o meio ambiente. O que transforma o mundo para melhor.
Mais informação em https://hostile-noise.geolab.edu.ge/




