Histórias de vida
A edição de Lessons On Change – 15 Creative Minds Share Their Stories tem a chancela da Birkäuser. Christine Hedin e Karl Stocker deram início a esta ideia em 2022. Numa pequena conversa com Karl Stocker aprofundámos as razões que levaram a esta edição repleta de contributos que nos permitem reflectir sobre a vida.

Entrevista e recensão por Tiago Krusse
Fotografias e elementos gráficos: cortesia de Karl Stocker
O que definiu a ideia do livro? De quem partiu a decisão?
A ideia para o livro surgiu da minha parte e da Christina Hedin. Conhecemos-nos em 2022, em Abu Dhabi, na Cimeira Mundial da Cultura, na qual vocês também participaram. Achei o trabalho da Christina em Östersund, como Cidade da Gastronomia da UNESCO, tão fascinante que a convidamos para o Mês do Design de 2023, em Graz. Foi lá que decidimos embarcar num projecto de livro que apresentasse iniciativas interessantes além do campo do design. O ponto de partida foi claro, a nossa incrível rede global de indivíduos tão distintos e todos eles envolvidos nos chamados “projectos que inspiram esperança” — iniciativas que contribuem, de alguma forma, para tornar o mundo um lugar melhor. Naturalmente, outra conexão foi que muitos desses projectos fazem parte da Rede de Cidades Criativas da UNESCO.
O que motivou a escolha destas 15 mentes criativas? Como foi feita a selecção?
Inicialmente, decidimos convidar 20 pessoas e pedimos que contribuíssem mas no final foram 15 que concordaram em participar. Procurámos o equilíbrio de género, contribuições de todos os continentes e representação de vários sectores da sociedade. Infelizmente, a selecção final não incluiu ninguém de África, Ásia ou Austrália. Mas talvez haja volumes futuros que abordem esse assunto.
A princípio, pensámos simplesmente em publicar uma colectânea de contribuições escritas. No entanto, percebemos logo que seria talvez mais interessante entrevistar os colaboradores para descobrir histórias que ainda não tinham sido publicadas nos seus trabalhos anteriores, tendo assim a possibilidade de registar novos insights. A perspectiva pessoal dos autores também foi muito importante para nós. Queríamos entender por que motivos eles agem da maneira que o fazem, como tomam as decisões e o que realmente os motiva. Como conhecíamos bem a maioria deles, pudemos adaptar as perguntas de acordo com o entrevistado.
Outro desafio foi que muitos profissionais não têm experiência em escrever artigos, daí que as entrevistas resultaram numa maneira excelente de gerar conhecimento. As barreiras linguísticas foram outro factor a ser considerado, já que apenas três de nossos colaboradores falavam o inglês nativo. Foi aí que nossa tradutora, Sophie Kauper, desempenhou um papel crucial. Foi aí que ela entrou em cena, “fazendo magia” ao transformar manuscritos bastante complexos, em consulta com os autores, em contribuições do ponto de vista linguístico refinadas, aceitáveis e que reflectiam as suas personalidades. O papel da Sophie foi vital neste processo e motivo pelo qual a Christine Hedin e eu a convidámos a juntar-se à equipa editorial.
Onde foi o livro desenvolvido e lançado?
O livro foi criado em formato híbrido. A sede ficava em Graz mas grande parte do trabalho foi feito online e o layout foi finalizado em Viena. Como publico meus livros com a Birkhäuser há cerca de 10 anos e tenho lá um óptimo parceiro, o David Marold, ficou claro que faríamos uma nova colaboração com a editora. Uma grande vantagem desta parceria é que os livros com a sua chancela estão disponíveis em todo o mundo.
Quando o livro foi iniciado?
Começámos a trabalhar no livro no Outono de 2023 e o finalizámos na Primavera de 2025.

Recensão
Saber criar uma equipa e perceber como todos os elementos são importantes para o resultado final, sobretudo a filosofia que é estruturante em qualquer projecto. Conhecendo, de alguma forma, um pouco o Karl Stocker e a Christine Hedin sei do seu comprometimento pelo bem-estar social e através da entrevista, acima, que poderemos dizer da escolha da Sophie Kauper senão que a leitura permite-nos de facto chegar ao espírito dos entrevistados e percebermos as suas linhas de raciocínio.
Os convidados deste livro com a chancela Birkhäuser são Stuart Walker, Lillián González-González, Gunnar Rundgreen, Stella Rollig, Pier Paolo Peruccio, Marsha Music, Lukás Berberich, Barbara Meyer, Ola Fransson, Julia Kloiber, Andy Kaltenbrunner, Sygrid Bürstmayr com Betinna Gjecaj, John Howkins e Carlotta Beghi.
Os capítulos, a maioria sob a forma de entrevista, deixam-nos sobretudo visões particulares desde a exploração da imaginação, o design para o bem-comum, a agricultura orgânica, o desafio dos museus, os fundamentos do design, a cidade como memória viva, o filme como ponto de encontro e mudança para a verdade, a arte dos refugiados, homem e natureza como um só, o mundo digital e as zonas cinzentas ou o ensino do design leccionado pelas universidades como algo meramente visual, estético. Estão reunidos testemunhos vivos que essencialmente passam um visão singular que é fruto do percurso de cada um, sem que haja uma vontade que se queira impôr como definição de uma realidade. Estamos num campo de maturidade alicerçado sobre experiências pessoais e marcantes, trajectos que ao serem escutados nos deixam perceber filosofias de vida, escolhas e sonhos. São impressões digitais cheias de contexto, que reflectem por isso mesmo, a diferentes latitudes, comportamentos semelhantes mas distintos porque o indivíduo percebe o que vê à sua volta baseado na sua intuição e na sua espiritualidade.
Não é de todo o nosso intuito condicionar os leitores da sua própria leitura dos intervenientes neste livro, tão pouco é nossa vontade retirar o efeito surpresa de histórias e abordagens apaixonadas e cheias de intelecto, nesse gozo que nos dá em através dos outros percebermos o que nem sempre é evidente. Porque o Pensamento está sempre a convidar-nos para a descoberta bem mais do que para as confirmações. E nisso que este livro aposta, na mudança estrutural, interior, que permita alterar o rumo de certos efeitos que muitos dão como definitivos. No fundo passa por evoluirmos e ouvirmos vozes de quem está atento ao que nos rodeia.







