Luisa Bocchietto

Está há quatro anos na presidência da Associação Italiana para o Design Industrial -ADI- e tem levado a cultura do design até as pessoas, descentralizando-o de Milão. Quando se aproxima da data de celebração dos 60 anos do prémio Compasso D’oro, procurámos obter, através de um percurso de vida, uma impressão da génese criativa dos italianos.

Entrevista: Tiago Krusse
Fotografia: cortesia de Luisa Bocchietto

Luisa Bocchietto

Que memórias retém da sua infância e como foi crescer nos anos 60 em Itália?
Eu nasci em 1960 e cresci com os objectos daquele período. Talvez essa seja a razão pela qual me sinto tão próxima do movimento POP, até no meu design procuro o efeito imediato, fascínio, diversão e essencialidade. Crescer naquela altura em Itália, numa pequena cidade, permitiu que uma pequena rapariga como eu pudesse descobrir o Mundo. Muitas vezes, aos 12 anos, quando saía de casa à tarde e entrava num comboio, ia para outras cidades e isso permitia-me regressar a casa a tempo para o jantar. O sentimento de liberdade é o que recordo mais.

A Itália atravessou um período radical político desde o final da década de 60 até meados dos anos 80. Como é que esses tempos interferiram na sua vida e que tipo de repercussões teve durante os anos de estudos?
Em 1968 eu era muito nova para tomar parte nos movimentos estudantis e as consequências foram sentidas nas universidades, com as quais vivi assim que comecei o curso de arquitectura em Milão, em 1979. Era difícil de compreender o que estudar e encontrar os professores tal fora a situação caótica dos anos antecedentes. Ao mesmo tempo e derivado de um estranho movimento político, tudo era possível e se queríamos procurar pelos professores eles estavam lá para dar resposta aos nossos desejos de aprender o máximo que podíamos. Foi por esta razão que concebi os meus próprios estudos, com a curiosidade natural e perseguindo os meus interesses pessoais. Não tínhamos qualquer espécie de fronteiras, o que foi bom para alguns de nós mas para outros a razão do insucesso. Talvez hoje os estudantes não tenham as mesmas possibilidades e a liberdade de escolha.

Como era a relação entre professores e alunos? Como é que descreve aquela atmosfera?
A dificuldade era encontrarmos bons professores. O relacionamento era informal mas distante por causa da diferença de idades, experiência de vida e a admiração. Eu procurava por alguém que fosse capaz de me ensinar o mais que fosse possível. Um dom raro mas acessível a todos depois de encontrado.

Que motivos a levaram a escolher arquitectura e design?
Eu queria pintar mas tinha o pressentimento que essa decisão iria implicar não ter família e filhos. Escolher arquitectura foi uma decisão racional que me permitiu partilhar valores e ideias com outras pessoas. Foi um compromisso. Dentro da faculdade de arquitectura existia outro curso de design industrial leccionado por Marco Zanuso, que foi um dos fundadores da faculdade de design no final dos anos 80. Obtive o meu diploma com ele e o design tornou-se a minha base profissional.

Em 1985, o ano em que se licenciou em arquitectura e design no Politécnico de Milão, existiam obstáculos para uma mulher que pretendia começar a carreira profissional?
Eu não encontrei qualquer tipo de obstáculo que me impedisse trabalhar como arquitecta ou designer. Muitas das vezes os obstáculos estavam lá pois que para uma mulher é mais difícil gerir o tempo por causa da família e pela falta de apoio. Parece que para uma mulher a ambição e os objectivos profissionais são coisas para se esquecer. Tanto era naquela altura como agora!

Como conseguiu conciliar os estudos no Politécnico de Milão e no Instituto Europeu de Design?
Devido à situação caótica da universidade na altura eu decidi frequentar os dois cursos ao mesmo tempo, um durante o dia e o outro à noite. Foram experiências diferentes mas estimulantes e complementares.

De que modo a experiência e conhecimento de Marco Zanuso influenciaram as suas concepções de trabalho?
Deste grande arquitecto eu aprendi que o design não é somente a forma mas fazer design significa entrar dentro do processo industrial. Por isso os processos de produção e de comunicação são mais interessantes para mim do que o próprio objecto. Este sentimento levou-me a trabalhar como directora artística tanto para marcas diferentes ou, como presidente da ADI, a viver a experiência do design como um processo. Eu sinto-me ligada à ideia de Zanuso sobre um design forte que precisa de estar em linha com as técnicas de produção e a ideia de utilizar diferentes técnicas em diferentes sectores advém daí.

O que foi a sua primeira experiência profissional e quando é que se deu?
Enquanto estava a estudar trabalhei durante um pequeno período de tempo numa loja de móveis (que foi muito entediante) e depois para um designer famoso. Após terminar os estudos abri o meu estúdio tentando começar a actividade como arquitecta. Era inexperiente e por isso sofri as consequências algumas vezes.

Por que razão decidiu tomar parte no trabalho levado a cabo pela Associação para o Design Industrial Italiana (ADI)?
Porque o meu professor foi um dos fundadores e eu sempre olhei para a ADI como um alto valor para a promoção do design italiano.

Quais eram os objectivos da ADI na altura?
A ADI estava a crescer de uma associação milanesa para se tornar um organismo nacional. O facto de uma pessoa como eu, que não nasci em Milão, ser eleita é a prova dessa mudança. Era preciso manter esse processo. O prémio Compasso d’Oro foi celebrado pela primeira vez fora de Milão na cidade de Turim, em 2008, pela altura da Capital Mundial do Design, promovida pela ICSDI. A ADI esteve ligada ao comité de promoção e na ligação às instituições locais. Em 2011 o prémio foi celebrado pela primeira vez em Roma, pela ocasião dos 150 anos da Unificação italiana. Forma os melhores momentos para conhecer as instituições e para falar sobre design a todas as pessoas.

Por que razão é que ainda existe um desequilíbrio industrial entre o Norte e o Sul de Itália? São motivos económicos ou aspectos culturais?
Ambos. Esses dois factores estão interligados. O estilo de vida diferente é por causa da economia, o clima e os hábitos. São dois sistemas distintos e alterar comportamentos ou apresentar pontos de vista diferentes são trefas difíceis. O governo permite que no Sul hajam certos tipos de comportamentos que no Norte não são permitidos. Por outro lado o Norte é onde existem mais oportunidades de trabalho, concentração de riqueza e desenvolvimento industrial. Nos dias de hoje os factos começam a mudar mas os políticos devem prosseguir com estratégias de apoio que suportem essa evolução.

A manufactura foi sempre um factor importante para a distinção do design italiano a par das inovações trazidas pelos processos industriais e a pesquisa em novos materiais e tecnologias. Estão as manufacturas a perder o seu papel no constante desenvolvimento do design italiano?
Eu penso que a maioria das fábricas de design não beneficiam disso, elas abandonaram a pesquisa e entregaram-se à comunicação e ao marketing. As mudanças geracionais criaram algumas descontinuidades e muitas das vezes a paixão pelo desafio foi perdida de vez. O facto do país não reconhecer no design um importante factor estratégico também ajuda pouco. Porém, neste ambiente, existem ainda alguns empresários corajosos e dispostos em manter viva a tradição do design italiano. Eles são menos visíveis por causa da complexidade dos mercados e porque a imprensa fala sempre sobre as mesmas pessoas.

Os prémios Compasso d’Oro estão quase a celebrar 60 anos. A ADI alargou o tipo de produtos que podem submeter-se a concurso e alcançou o reconhecimento mundial da competição. Pode sintetizar quais foram os principais objectivos alcançados pela competição ao longo destes anos?
A selecção é realmente muito difícil e baseada em inovação. De mais de 4 mil produtos seleccionados em 3 anos (o prémio é celebrado a cada três anos e baseado na selecção da ADI INDEX), apenas 10 a 20 prémios são atribuídos. Noutras competições, são às centenas os prémios atribuídos todos os anos. O principal objectivo do Compasso d’Oro não é reconhecer o bom design mas sim destacar a inovação.

Tornou-se presidente da ADI em 2008 o que quase coincide com o início das crises económicas e financeiras do mundo ocidental. Quais foram as consequências imediatas para o conjunto das indústrias de design italianas?
É claro que surgiram imensas dificuldades e em particular para aquelas indústrias que já careciam de reorganização dos processos internos. Agora têm de produzir menos, pensar mais sobre os produtos, investir em pesquisa e baixar as margens de lucro. Por outro lado o mercado global apresenta maiores oportunidades se se for capaz de as explorar devidamente e nesse aspecto o design italiano tem uma excelente reputação a nível mundial.

A agressividade e ilegalidade evidenciada pela indústria chinesa está a causar diversos problemas pelos mercados. Que tipo de papel tem a ADI em tentar reverter e lutar contra procedimentos ilegais que têm vindo a contribuir para uma progressiva desvalorização do valor trabalho e descrédito do produto?
A China está a desenvolver-se muito depressa. O design foi um factor que aquele país decidiu investir num plano para os próximos 5 anos. Os chineses querem passar de bons produtores a produtores de design. Isto significa que eles terão de encetar novas regras em termos de direitos de autor. A ADI assinou um acordo internacional, a par de outros países, para cobrir este tópico e neste momento está a preparar a abertura de uma delegação em Ningbo, na China. Para além de uma educação sobre o design o que é preciso é comunicar-lhes os nossos valores.

A fusão de empresas italianas em grupos é uma resposta positiva a estes tempos difíceis?
Numa primeira abordagem parece que sim, se olharmos para a abordagem comercial. Mas descobrimos com o tempo que o design não está sempre ligado aos números e que criar uma identidade que perdure não pode ser impessoal. É preciso uma visão.

A sua bagagem profissional como consultora e directora de arte para distintas empresas de design deram-lhe uma perspectiva alargada do estádio em que se encontra o design dos nossos dias. Estão as empresas a preparar-se para os desafios futuros e estão elas a planear estratégias e objectivos?
Eu penso que as fábricas inteligentes estão nessa linha de pensamento, há uma tentativa de estabelecer um equilíbrio entre os recursos humanos e económicos sem perder uma abordagem única que precisa de estar ao lado de uma responsabilidade social.

Começou há pouco tempo com algumas parcerias assim como projectos pessoais. Pode falar-nos um pouco sobre essas iniciativas?
Eu crie dois novos negócios como parceiro. Um deles é uma marca de cosméticos, baseada em receituários antigos. Neste caso o que é interessante para mim é estender o meu conhecimento do design até à cosmética. Produzimos um perfume sólido e suficientemente pequeno para podermos transportá-lo na mala. Chama-se BSex. É um pequeno cubo com uma fragrância de âmbar no interior. A marca chama-se Phyta e distribui “spezieria de Venezia”, uma linha de produtos baseada em antigas receitas venezianas, desenvolvida pela minha irmã Elena, que é bióloga e parceira da Abich, um laboratório profissional de cosmética. O segundo negócio que ajudei a criar chama-se Akille e trata-se de um sítio que vende produtos de design italianos. Neste caso o objectivo é promover as pessoas por detrás de cada projecto e a sua abordagem conceptual.

Como avalia a sua contribuição pessoal para o design? Onde é que sente que ainda existe muito trabalho para ser levado adiante?
Eu penso que o nosso objectivo é evoluir de um mercado consumista para uma difusão de produtos inteligentes, úteis e em sintonia com o ambiente.

Para si o que significa bom design?
Criar condições para que as pessoas vivam melhor e trazer o máximo de harmonia e beleza para o maior número delas.