ColorADD
Entrevista a Miguel Neiva, o designer responsável pela pesquisa, criação e desenvolvimento do ColorADD, o sistema gráfico de representação das cores pensado para as cerca de 350 milhões de pessoas no Mundo que sofrem de daltonismo.
Entrevista: Tiago Krusse, publicada originalmente na DESIGN MAGAZINE Brasil, edição 6 de Dezembro de 2014
Fotografias: Abertura da autoria de Ricardo Castelo, outras e imagens uma cortesia de Miguel Neiva
O que é o ColorADD?
É um código gráfico, que eu criei, que representa as cores. No fundo a ideia foi criar uma ferramenta que permitisse que um daltónico conseguisse identificar as cores, sem vê -las. O daltonismo é uma patologia, sem cura, de transmissão hereditária e que afecta maioritariamente os homens. A ideia foi, depois de uma investigação desenvolvida durante oito anos, muito deste tempo com daltónicos, perceber se a ferramenta fazia sentido, se eles precisariam dela e aferir sobre os tipos das suas necessidades.
Surge assim o código, que é uma linguagem gráfica fundamentada naquilo que é o conceito adquirido, que todos nós trazemos da escola. No fundo foi criar algo que pudesse ter um processo de aprendizagem muito rápido, muito intuitivo -fosse ele para uma criança de 5 anos ou para um adulto de 95- e que tem por base o conceito das cores primárias.
Nós aprendemos e testamos que existem as três cores primárias: o azul o vermelho e o amarelo, e juntando essas cores dão todas as outras. O que eu fiz foi procurar uma simbologia gráfica que teria que cumprir uma série de requisitos, o código tinha de ser simples pois estamos a falar de uma linguagem que pudesse ser entendida por todas as pessoas – não só por quem tem uma cultura visual mais apurada, como um designer ou um arquitecto. O aspecto essencial era a simplicidade, a fim de permitir que esse código pudesse ser reproduzido em diferentes suportes e derivações, sem nunca perder a sua silhueta, a sua forma, e mais do que isso, foi ligar-se entre eles da mesma maneira que nós, se ligarmos as cores conseguimos ter o desdobramento da simbologia, também em outros símbolos. Ou seja, o amarelo mais o vermelho dá o laranja e se pegarmos no símbolo do amarelo mais o do vermelho temos o símbolo do laranja. E o processo, apenas com três elementos gráficos, consegue fazer a identificação de todas as cores com base no tal conhecimento adquirido, tornando-o assim muito mais simples de aprender e muito mais fácil de levar a todo o lado.
Quando é que se iniciou o processo de pesquisa e desenvolvimento do código?
Este projecto teve como base a minha tese de mestrado, iniciado em 2000, e depois de pesquisar percebi que nada no mundo poderia resolver, nem que parcialmente, esta questão do daltonismo. Estamos perante uma dificuldade que é um problema da sociedade, pelo facto de existirem 350 milhões de pessoas que não identificam corretamente as cores, sendo que 90% da comunicação é feita através da cor/ideia.
Quando em 2000, numa primeira abordagem com médicos fiquei a saber que não havia cura para o daltonismo e que era uma limitação ou uma defi- ciência com diferentes níveis e graus e, mais do que isso, quando estive com os daltónicos dei conta da enorme vontade deles de que existisse alguma coisa que os ajudasse. Arranquei com um pressuposto muito claro: incluir sem discriminar.
O processo extravasou logo, e logicamente aquilo que era uma tese de mestrado, começaram a ser oito anos de investigação e de desenvolvimento, de maneira que a ferramenta pudesse ser muito mais do que uma publicação enfiada numa biblioteca de uma universidade, e sim algo que tivesse uma aplicabilidade prática e que garantisse essa tal criação de acessibilidade e essa tal inclusão.
Terminados esses oito anos em que fiz a protecção do projecto, em que defendi a minha tese, estive um ano e meio a escrever artigos, que são lidos em diversos congressos internacionais para garantir o reconhecimento e a acreditação da área científica. Isso para mim era muito importante, não era eu a dizer que o que tinha feito era a solução mas sim as pessoas com as competências e as responsabilidades na área a validarem a solução.
Passado todo esse percurso, o projeto tornou- se naturalmente muito mais simples de divulgar, muito mais simples de implementar e com grande cobertura nos meios de comunicação, também fruto de toda essa publicação científica. No final de 2008, princípios de 2009, foi criada uma equipa para começarmos a trabalhar, desde aí até hoje na implementação do código. A implementação do código tinha de sair da publicação, que era a minha tese, e entrar nos produtos, suportes, serviços em que a cor é um fator determinante de identificação, orientação ou escolha. E aí estamos desde 2010, que foi a data da primeira implementação do código, a trabalhar com diferentes empresas e diferentes áreas.
Que tipos de perturbação na incapacidade de distinguir as cores podem ser identificados?
Há vários tipos de daltonismo e tem tudo a ver com a falha dos bastonetes na retina. O problema do daltonismo é na zona da retina, em que estão os bastonetes, são esses elementos que nos direcionam aos três cones que temos e os cones consequentemente emitem um sinal ao cérebro que nos permite identificar as cores. O daltonismo é a falha desses bastonetes.
Os diferentes tipos de daltonismo que existem dependem da quantidade de bastonetes que falham, e nós temos 125 milhões deles em cada olho. Depende também da zona onde eles falham. O que eu quero dizer com isto é que, por exemplo, a maior parte dos daltónicos faz a confusão entre ver- des e vermelhos e tudo que anda à volta disso, pois quanto mais falharem, mais isso se alastra aos tons castanhos, aos laranjas, e esta tipologia é designada por deuteranopia. Precisamente porque nós temos o canal do verde e do vermelho no cromossoma x. O azul está no cromossoma sempre. O cromossoma x se teve uma limitação ou uma deficiência vai afectar esses dois canais de cor.
Mas há outros tipos, a tritanopia que afeta a zona do espectro do azul e do amarelo. Curiosamente no estudo que eu fiz com os daltónicos havia um que dizia que tinha um carro azul banana, pois para ele a cor da banana e a cor do mar eram exatamente vistas da mesma maneira.
Dos 350 milhões de daltónicos 2% são mono-cromáticos, são pessoas que vêem o preto e o branco e que não têm nenhum elemento que possa fazer essa informação directa aos cones. Curiosamente conheço alguns e ainda mais raro algumas mulheres, porque uma mulher também pode ser daltónica.
Quem é mais afectado por esta doença?
Os mais afectados são os homens, porque a questão está no cromossoma x. A mulher, como tem dois cromossomas x se receber do pai o cro- mossoma, torna-se apenas portador, pois um x compensa o outro.


É uma doença congénita e hereditária?
Certo, embora possa ser adquirida por problemas de diabetes, tiroide ou por consumos excessivos de drogas. Tudo aquilo que pode degenerar proble- mas de visão consequentemente de acuidade visual, acaba por se reflectir na acuidade visual à cor, mas esses valores que falamos derivam de transmissão hereditária. Na relação, é um para cada dez no caso dos homens e uma para cada duzentas mulheres.
Este código de cores foi pensado para ser implementado em que tipos de situações?
Qualquer situação, desde que nós as interpretemos como uma vertente, e aqui o design entra no expoente máximo do racionalismo. Um daltónico não vê um pôr-do-sol igual a uma pessoa que não o seja, mas aí o código não traz a solução porque não se vai colocar os símbolos na natureza. Sempre que a cor é um factor de identificação, orientação ou escolha, quer seja de um produto, uma peça de vestuário, lápis de cor, linhas dos mapas de transportes ou outras situações, essa transversalidade é total e já a testamos, aí o código faz sentido porque o daltónico precisa de ser orientado para a cor. Ele não vai vê-la mas ele precisa saber onde está a linha amarela, qual o lápis laranja ou a camisola verde.
Além disso, o parecer dos nossos clientes foi sempre incrivelmente motivador e positivo, sublinhando que esta mudança não teve nada a ver com privação, mas sim com o enriquecimento das suas vidas em todos os aspectos.

Até ao momento quais têm sido os maiores exemplos da aplicação deste código?
São muitos e todos eles são relevantes, pois a grande preocupação que tive com este projecto foi testar a sua transversalidade. Uma das mais emblemáticas implementações do código é inquestionavelmente a dos lápis-de-cor. Porque os lápis-de-cor representam a sua utilidade efectiva, que é pintar com uma determinada cor, porque faz uma ligação às crianças e porque está envolvido em todo um processo de pedagogia e educação. Agora se houver um daltónico para quem esta aplicabilidade não seja importante, acabo por não ter relevância.
Daí o nosso enfoque ser na transversalidade e por conseguinte, isso resulta que todas as implementações sejam importantes, mas os exemplos com mais destaque são os lápis-de-cor, ao nível da educação, a sua aplicabilidade em manuais escolares, exames nacionais, etc. E neste capítulo da educação há a intenção de equipar as bibliotecas escolares com a simbologia, porque segundo as normativas da Unesco a cor é um factor relevante para a identificação das diferentes temáticas.
Uma outra área é a da saúde, em que a cor é importante e o código já é utilizado nos fármacos hospitalares. No sector dos transportes, com a utilização nos mapas metropolitanos onde a cor, segundo testes já publicados e conclusões comprovadas, é de facto o elemento de identificação das linhas. No vestuário, onde 90% dos daltónicos precisam de ajuda para comprar roupa e em casa têm a necessidade do código para decidir na escolha de indumentária que fazem no seu dia-a-dia. Neste sector do vestuário o código já está presente em 30 milhões de peças de roupa que são vendidas por todo o mundo. Na área financeira, em que a cor sublinha a importância dos valores e dos riscos, com uma espécie de semáforo de cores utilizando o código. Na área alimentar, onde o semáforo nutricional ajuda a perceber se os produtos têm muitas calorias, sais, açúcares e gorduras. Em parques de estacionamento, em contentores de recolha selectiva de resíduos. A transversalidade da aplicabilidade do código é plena.
Qual tem sido a reação dos daltônicos a esta solução para a sua incapacidade visual?
Isso tem sido muito gratificante para mim e para toda a equipa que trabalha no código porque a reacção é impressionante. Por exemplo, ainda há poucos dias recebi um email de uma mãe na Argentina que soube que uma universidade estava a desenvolver um estudo e uma investigação sobre o ColorADD e por isso nos informava que o seu filho se disponibilizava para fazer parte dessa iniciativa. O impacto é incrível e motivador, no fundo eles receberam uma ferramenta que não têm que pagar por ela e que lhes permite preservar a sua condição pois não têm que se expor. Este pormenor foi importante e assumido desde o início, preservar e proteger a pessoa que tem essa incapacidade de distinguir as cores, até porque há casos de bullying e de discriminação social. E ainda tem as diversas associações de daltónicos, nacionais e estrangeiras, que todos os dias nos enviam informação assim como também a divulgam. Isto resolve um problema social.
O código integra-se dentro do Design de Comunicação com uma inequívoca componente social no sentido de promover a melhoria de vida de um conjunto de pessoas com necessidades específicas. De que forma é sustentada a implementação do código e como foi pensado o retorno pela sua pesquisa, desenvolvimento e aplicação?
O Design tem de fato a nobre missão de tornar o mundo mais acessível e mais inclusivo, dentro do conceito design for all. É portanto design de comunicação puro, fazendo algo que pudesse ser tão simples que todos pudessem entendê-lo. Num artigo que ainda não tinha referenciado, este meu design foi descrito como um medicamento porque é usado para resolver um problema que é uma patologia.
O projecto para ser garantido, sustentável e em permanente trabalho procurou essencialmente uma autonomia a todos os níveis que nos garantisse não depender de outros e prosseguir o caminho idealizado por nós. Criamos um modelo de negócio social em que todas as empresas que tenham na cor um factor de comunicação dos seus produtos possam utilizar o código. Para esse efeito nos é paga uma licença que é acessível e indexada à dimensão de cada empresa. Para nós é um processo que só fazia sentido desta maneira e que tem uma vantagem, que é esta noção do valor partilhado.
Quero dar o exemplo da empresa que produz os lápis, a Viarco, que o facto de utilizar o código nos seus produtos permitiu que ela exportasse para diferentes países. Estes factores de inovação e de responsabilidade social acabam por ser muito positivos para as empresas, bem como para todo o processo de divulgação e de utilização do código por diversos produtos.
Qual tem sido a repercussão e o reconhecimento deste trabalho?
Nunca imaginei que fosse ter toda esta repercussão e reconhecimento. Todo o percurso e os prémios que o código vai ganhando é para mim, como designer, um orgulho. Isto porque o design saiu do âmbito da esfera do que é o design e entrou na sociedade. A Ashoka, que é uma organização mundial com uma missão de empreendorismo social, reconhecida internacionalmente, elegeu-me como seu fellow. Sou portanto o único português membro desta organização que tem três mil pessoas a trabalhar pelo o mundo através de um projecto de design, e daí o reconhecimento inquestionável da vertente social da história: a inclusão. Por outro lado menciono o programa Zero Project, promovido pelas Nações Unidas, que reconheceu o ColorADD como uma das 50 inovações práticas na área das acessibilidades a nível mundial e, aqui, já é numa vertente funcional. O Estado Português condecorou-me com a Medalha da Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Que novo projeto com características semelhantes ao ColorADD podemos esperar de si?
Neste momento é impossível deixar todo este processo e tudo isto só faz sentido quando levado a um número máximo de pessoas. Incluir sem discriminar, e todo o sistema andará sempre em torno destas bases.
Mais informação sobre o ColorADD em https://www.coloradd.net/pt

Miguel Neiva
Miguel Neiva é o designer responsável pela pesquisa, criação e desenvolvimento do ColorADD, o sistema gráfico de representação das cores pensado para as cerca de 350 milhões de pessoas que sofrem de daltonismo em todo o mundo.
Desde o arranque do projecto em 2000 até os nossos dias, esta entrevista deixa um relato de um profissional empenhado e apaixonado por uma causa de inclusão social para a qual ele criou uma espécie de design de medicamento para uma patologia hereditária sem cura.




