Davide Ruzzon
Entrevista a Davide Ruzzon na qual procuramos aprofundar a complexidade da arquitectura e por que motivos deve ela ser compreendida de uma forma mais complexa e menos simplista. Fenomenologia e neuriociência para nos permitirem entender que a arquitectura é mais do que o corpo inanimado do edifício. Ficam aqui luzes sobre todo este movimento, a reflexão crítica ao ensino e à prática mais a história da empresa Tuning Arch.
Entrevista de Tiago Krusse
Fotografias: Cortesia de Davide Ruzzon
Quais os argumentos levaram a Universidade de Veneza a aprovar o programa de pós-graduação em Neurociência Aplicada ao Design Arquitectónico e quais os raciocínios expostos que levaram à criação do curso de Neurociência e Design na Universidade Politécnica de Milão?
Acredito que foi em 2016 que Alberto Ferlenga, reitor da Universidade IUAV de Veneza, se convenceu do valor do projecto, pois este buscava uma nova maneira — fundamentada na ciência — de colocar os usuários dos espaços (as pessoas) no centro. Benno Albrecht era o director dos programas de mestrado na época e trabalhei com ele para tirar o projecto do papel; posteriormente, na sua nova função como reitor, ele jamais deixou de apoiá-lo. Alguns membros do corpo docente, em particular os meus amigos Renato Bocchi e Roberta Albiero, apoiaram o projecto desde o início. Outros, no entanto, mostraram-se — e continuam — decididamente hostis e relutantes em aceitar que esta proposta “indisciplinada”, como gosto de chamá-la, encontrasse o seu devido lugar.
Em que momento da sua vida a neurociência entrou no seu rumo e como é que ela alterou a maneira como pensa a arquitectura e, ao mesmo tempo, a maneira como a ensina?
Sempre me intrigou a forma como as pessoas reagem à experiência arquitectónica. Após o ensino médio, fiquei indeciso, ponderando três caminhos possíveis: medicina, psicologia e arquitectura. De qualquer forma, Berto, o meu pai, era construtor; por isso, comecei a trabalhar em canteiros de obras era ainda criança. Eu adorava ver as edificações ganharem forma; sempre achei que essa era a actividade mais criativa que alguém poderia exercer, pois o processo em si transmitia optimismo. Assim, decidi ingressar na faculdade de arquitectura em Veneza, sem deixar de lado meu interesse pela psicologia. Foi apenas há treze anos que Juhani Pallasmaa me convidou a explorar mais a fundo esse interesse pessoal pela neurociência. Comecei pela obra completa de António Damásio e mergulhei ainda mais nessa área.
Quando é que percebeu — e talvez ainda sinta — que a neurociência aplicada à arquitectura e ao design ainda é pouco compreendida pelos seus pares, tanto na academia como na prática profissional?
Esse tema é-me muito familiar. No ano passado, uma comissão ministerial rejeitou a minha candidatura a um cargo académico permanente, argumentando que meu trabalho “indisciplinado” não tem relação com o projecto arquitetónico. Pode-se recorrer à química, à física ou à matemática para fundamentar o projecto de um edifício, mas não à neurociência, à psicologia ou à antropologia. Para a maioria dos professores universitários, a arquitectura diz respeito apenas ao corpo inanimado do edifício, e não aos corpos vivos dos seus usuários ou às interacções entre eles. Eles fazem-me lembrar os soldados japoneses isolados em ilhas do Oceano Pacífico que continuaram a defender as fronteiras décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. A crise ambiental não é apenas uma questão relativa à natureza. Trata-se, na verdade, de uma crise global — simultaneamente natural e artificial — ligada às cidades e à arquitectura; isso não ocorre simplesmente pela falta de áreas verdes nos bairros, mas porque a estrutura e a forma do tecido urbano agravam os impactos negativos na saúde mental decorrentes das adaptações forçadas das pessoas a um ambiente excessivamente desafiador e que exige grande esforço.

Para a maioria dos professores universitários, a arquitectura diz respeito apenas ao corpo inanimado do edifício, e não aos corpos vivos dos seus usuários ou às interacções entre eles.
Quando é que a educação — especificamente em arquitectura e design — mudará finalmente um modelo que continua baseado nos objectivos do início da era industrial?
Infelizmente, não acredito que mudaremos muito o modelo. Acredito que, na melhor das hipóteses, essa visão de design centrada no ser humano consolidará uma posição sólida. Embora muitos estejam a mudar de perspectiva, a maior parte do sector imobiliário ainda se baseia na ideia de que a arquitectura é meramente um trabalho técnico, uma prestação de serviços. Da nossa parte, infelizmente, temos dificuldade em demonstrar como o desempenho socioeconómico de cidades e edifícios também melhoraria se o sector desse mais atenção a abordagens fundamentadas na ciência, que levam em conta os seres humanos e as suas necessidades neuropsicobiológicas intrínsecas. De qualquer modo, para além da racionalidade económica, existe uma questão fundamental relacionada aos bens comuns e à democracia. O direito a um ambiente saudável, onde se possa prosperar como cidadão, está consagrado nas constituições de todos os países modernos. A crise climática coloca esse direito sob forte pressão, uma vez que os membros mais ricos das comunidades conseguem facilmente proteger-se do desastre mudando-se para ambientes bem projectados e bem construídos.
Como tem sido a neurociência aplicada à arquitectura e ao design articulada em termos de programas teóricos e práticas profissionais?
Em termos teóricos, acredito que devemos considerar a sequência pela qual vivenciamos os nichos arquitetónicos que percorremos diariamente. Isso implica integrar a fenomenologia e a neurociência. O ponto de partida são sempre as expectativas neurofisiológicas dos usuários ao vivenciarem uma experiência, uma vez que eles “pintam” ou interpretam o ambiente à sua frente de maneiras distintas enquanto se deslocam, a depender da atcividade humana em curso. Memórias, modelos de interacção, projeções e a percepção são moldados por padrões corporais acumulados gradualmente ao longo da evolução humana no mundo natural. A arquitetcura representa, de certa forma, uma reformulação nova, mais precisa e imensamente enriquecida dos padrões ancestrais de interacção entre corpo e espaço.
Em termos profissionais, acredito que isso signifique focar no equilíbrio entre factores de risco e de protecção, de modo a influenciar — e possivelmente mitigar — os processos de adaptação a ambientes artificiais. A neurociência estuda a experiência social e individual em diversas escalas de percepção: da escala urbana e da organização interna geral de uma edificação até os ambientes individuais. Como profissionais, devemos elaborar directrizes de projecto que conduzam o processo ao nível adequado de complexidade. Ao incorporar este conhecimento ao processo de projecto, atendemos implicitamente às necessidades dos usuários, criando uma composição significativa de ambientes em todas as escalas de percepção. Um bom projecto começa pela concepção de um ambiente — de um espaço interno —, como Louis Kahn costumava enfatizar.
Por que as principais figuras contemporâneas do movimento que defende uma arquitectura ou um design baseados na ciência relutam em formular máximas ou tirar conclusões a partir de estudos fundamentados em dados, nos quais a análise se concentra no sistema nervoso periférico?
Não sei. Na minha opinião, não temos um “Santo Graal” a ser redescoberto. Não gosto do termo “neuroarquitectura”, por exemplo. Não acho que precisemos inventar uma nova área; eu sugeriria cultivarmos uma abordagem de projecto “rigorosamente indisciplinada”, como Tim Ingold, suponho, diria. Ao projectarmos uma forma, determinamos a configuração de elementos arquitectónicos, ainda que esse raciocínio seja fundamentado pela maneira como consideramos a interacção entre corpo-mente e ambiente. É um processo não linear. Por necessidade, a ciência é levada a estudar elementos individuais da percepção; por isso, raramente se concentra nas projecções humanas sobre o ambiente que ressurgem da memória corporal, paralelamente às actividades efectivas. Não dispomos de experimentações robustas, confiáveis e suficientemente complexas em contextos ecológicos capazes de fornecer um conjunto de dados sobre a experiência vivida real; portanto, não há uma palavra final nessa área específica. No entanto, pessoalmente, não acredito que isso seja realmente prejudicial ao nosso propósito. A complexidade da experiência arquitectónica não pode ser totalmente reduzida.
E o que se pode dizer ao tentar desvendar como o sistema nervoso central reage, visto que as reacções químicas e os impulsos nervosos são como um universo infinito e desconhecido, de difícil análise?
Podemos estudar as respostas humanas à exploração de ambientes e cada processo individual em diferentes escalas. A escolha da escala de análise — do átomo ao neurónio, ao cérebro, ao corpo e, por fim, à interacção do corpo com a forma do ambiente — depende de como o arquitecto pretende utilizar esse conhecimento. Portanto, eu não me perderia em discussões excessivamente especializadas nem me aprofundaria demais em cada nível da neurociência. Como sabemos, “neurociências” é um termo no plural porque abrange todas essas escalas. A complexidade desse mundo não deve ser reduzida nem organizada: como arquitectos, para compreender os mecanismos de adaptações forçadas e pouco saudáveis ao ambiente artificial, não precisamos ter tudo sob controlo.
O verdadeiro valor da neurociência reside em ajudar os arquitectos a compreender como o espaço interage com o corpo, as emoções e a cognição, preservando, ao mesmo tempo, a complexidade e a abertura da experiência humana. Por essa razão, a neurociência não deve ser utilizada para prever ou manipular o comportamento, mas sim para fundamentar decisões de projecto mais conscientes e responsáveis.
Até que ponto o pensamento, o sentimento, a consciência e a razão podem ser recompensados pelo projecto arquitectónico?
A arquitectura não pode determinar o que as pessoas pensam ou sentem, mas pode criar condições nas quais o pensamento, a emoção, a consciência e a razão sejam apoiados ou inibidos. Essas faculdades emergem da interação contínua entre cérebro, corpo e ambiente. A luz, o som, a materialidade, as proporções e as possibilidades de movimento afetam-nos, muitas vezes antes mesmo de nos tornarmos conscientemente cientes deles.
O projecto arquitectónico pode, portanto, “recompensar” a experiência humana quando está em sintonia com nossas necessidades psicobiológicas. Ele pode reduzir o stress crónico, reforçar a sensação de segurança e controlo, sustentar a atenção ou incentivar a exploração, a interacção social e a reflexão.
Em *Tuning Architecture with Humans* (Sintonizando a Arquitectura com os Seres Humanos), defendo que a forma deve surgir da compreensão das experiências que o edifício se destina a apoiar. A arquitectura nutre a consciência e a razão justamente porque envolve primeiramente o corpo, moldando o pano de fundo emocional a partir do qual a cognição emerge. O seu papel não é prescrever a experiência, mas criar as condições espaciais nas quais formas mais ricas de experiência humana possam se desenrolar.
O pensamento abstracto e os significados conceptuais — aquilo que poderia ser reconhecido como a essência de uma experiência, como “aprender” — emergem de sensações corporais. O carácter de um edifício — o seu traço psicológico — também consiste em dados sensoriais. Sintonizar a experiência por meio do projecto significa escolher a forma apropriada, aquela capaz de incorporar os dados sensoriais ligados a essa essência. A linguagem testemunha esse “entrelaçamento”: jamais diríamos “quero fazer um mergulho de qualidade”, pois o salto e sua leveza fornecem a base sensoriomotora e sensorial para a essência fenomenológica do “crescer”. Este é um traço evolutivo herdado e, assim como as emoções, é amplamente universal. Uma escola deve tornar essa sensação perceptível à medida que se passa da exploração externa para a interna. Isso nunca pode ser apenas uma questão de fachada; este deve ser o caráter psicofisiológico do edifício.
Quando é que a neurociência aplicada à arquitectura e ao design pode ser incorporada, desde o início, aos programas de ensino superior nestas duas disciplinas?
Acredito que os cursos de arquitectura precisam introduzir a psicologia, a antropologia e a neurociência gradualmente, desde o início. Essa seria a maneira mais realista e simples de expressar o facto de que os seres humanos são centrais para o projecto.
Quais são os maiores factores que prejudicam o movimento?
Vários factores de risco podem afectar este movimento. Os principais, na minha opinião, são duas faces opostas, porém relacionadas, do mesmo problema: reduzir este desafio a uma receita fácil de adoptar e aplicar, ou tratá-lo como um processo impensável e inalcançável, que jamais seremos capazes de controlar ou compreender. Um risco semelhante diz respeito à consciência: ou ela é o “problema difícil” — algo que nunca entenderemos —, ou é vista como um mecanismo biológico capaz de explicar plenamente o surgimento da mente. Acredito que o meio-termo seja a verdadeira resposta para o futuro da neurociência aplicada à arquitectura, assim como para a questão da consciência.
Outra questão importante é a ausência, no debate, do papel das expectativas humanas na percepção: nem sempre procuramos o relaxamento. Ouço com frequência as pessoas falarem do stress como se fosse um vilão. Isso é uma simplificação excessiva. Na nossa rotina diária, procuramos diversas sensações corporais ao longo do espectro que vai do relaxamento à activação. Portanto, focar apenas em dimensões relaxantes — como se estivéssemos à procura apenas de ambientes de relaxamento — é algo totalmente desconectado da realidade. O stress só se torna um problema grave quando se torna crónico. Felizmente, o nosso nível de activação aumenta repetidamente ao longo do dia-a-dia.
Quais são os principais desafios da neurociência aplicada à arquitectura e ao design?
O grande desafio é traduzir o conhecimento neurocientífico para a prática arquitectónica sem reduzir a experiência humana a um simples conjunto de respostas cerebrais mensuráveis. Com muita frequência, a neurociência estuda variáveis isoladas em condições controladas, enquanto a arquitectura gera experiências complexas, multissensoriais e culturalmente situadas, que se desenrolam ao longo do tempo.
Um segundo desafio é criar uma linguagem comum entre neurocientistas, arquitectos, psicólogos e filósofos. As descobertas científicas não podem simplesmente transformarem-se em regras de prescrição de projecto: elas precisam de ser interpretadas dentro do contexto, do programa e das experiências específicos de cada projecto.
Devemos também levar em conta as diferenças individuais, culturais e neurobiológicas. O mesmo espaço não afetará todas as pessoas da mesma maneira. O verdadeiro valor da neurociência reside em ajudar os arquitectos a compreender como o espaço interage com o corpo, as emoções e a cognição, preservando, ao mesmo tempo, a complexidade e a abertura da experiência humana. Por essa razão, a neurociência não deve ser utilizada para prever ou manipular o comportamento, mas sim para fundamentar decisões de projecto mais conscientes e responsáveis. Como costumo salientar, a história da arquitectura, desde o seu surgimento no Médio Oriente, é a história da manipulação contínua das emoções — o sentimento de assombro, por exemplo — para sincronizar as respostas corporais das pessoas em prole da ordem social e da estrutura hierárquica da comunidade.

O que é a Tuning Arch?
A Tuning Arch é uma empresa de pesquisa e projetco arquitetónico que aplica insights da neurociência, da psicologia ambiental e da filosofia da mente à arquitectura e ao design urbano. O seu propósito é criar coerência entre as formas do espaço e as necessidades neurobiológicas, psicológicas e sociais das pessoas que o habitam.
Não encaramos a neurociência como um estilo ou um conjunto de prescrições de projecto. Utiliza-mo-la para aprofundar a nossa compreensão da experiência humana e traduzir esse conhecimento em ferramentas de avaliação, directrizes neurocientíficas e soluções arquitectónicas. Assim, o nosso trabalho integra pesquisa, avaliação, projecto e mensuração de resultados.
Quem são as pessoas da equipa e de que maneira estão envolvidas?
Fundei e dirijo a Tuning Arch, definindo a sua estrutura teórica e supervisionando a relação entre pesquisa, sínteses neurocientíficas e projetco arquitectónico.
Antonio Sorrentino lidera o Laboratório de Pesquisa e Inovação, concentrando-se em traduzir o conhecimento teórico e científico em ferramentas práticas de projecto. A equipa de projecto conta com Giulietta Boggio Bertinet, Stefano Caglioni e Roberto Fulciniti, arquitectos com formação especializada em neurociência aplicada ao design arquitetónico. Chiara Rango supervisiona o design gráfico e a comunicação, tornando os diferentes níveis das nossas pesquisas e projetcos acessíveis e visualmente coerentes.
O Conselho Científico e Consultivo reúne especialistas de diversas disciplinas e tipologias de edificações. Os seus membros incluem Erika Borella, Cinzia Di Dio, Eve Edelstein, Colin Ellard, Vittorio Gallese, Alessandra Micalizzi, Gabriella Pravettoni e Jagan Shah. A sua experiência apoia o desenvolvimento e o apurar de protocolos para ambientes de trabalho, saúde, habitação, envelhecimento, retalho e espaços urbanos. Nem todos participam de todos os projectos: as contribuições dependem do tema e do contexto específicos em estudo.
Onde tudo começou?
Tudo começou na prática arquitetónica, e não num laboratório de neurociência. Fundei a TA no ano 2000, mas a questão central tinha surgido antes, enraizada no meu interesse por psicologia, filosofia e pela relação entre o corpo humano e o espaço: por que certas configurações espaciais nos fazem sentir protegidos, conectados, estimulados ou angustiados?
Com o tempo, convenci-me de que a arquitetcura não poderia basear-se apenas em requisitos funcionais, composição visual ou desempenho tecnológico. Ela também precisava levar em conta os fundamentos corporais e emocionais da experiência humana.
Um passo decisivo foi o lançamento do projecto de pesquisa ROOMS, em parceria com Vittorio Gallese, em 2015. Esse trabalho ajudou a estabelecer um diálogo directo entre o projecto arquitetónico, a cognição corporificada e a neurociência, permitindo que as questões teóricas iniciais evoluíssem para uma metodologia mais estruturada.
Quando e como tudo foi estruturado para começar a prestar os serviços?
A TA foi estabelecida como escritório de arquitectura no ano 2000, embora minha trajectória profissional e a experiência arquitectónica que fundamentaram a empresa tenham começado anos antes.
Os serviços, na sua configuração actual, evoluíram progressivamente por meio de pesquisa e experimentação prática. Em 2016, criei e, posteriormente, dirigi a divisão da Lombardini22 dedicada à aplicação da neurociência ao projecto arquitectónico. Essa experiência, que se estendeu até 2023, permitiu-me testar a relação entre pesquisa científica, consultoria estratégica e projecto no âmbito de empreendimentos profissionais complexos.
A Tuning Arch estruturou-se desde o seu início em torno de diversas áreas interdependentes: o Laboratório de Pesquisa e Inovação, a Equipa de Projecto, o Conselho Científico e Consultivo, a mensuração de resultados, e as áreas de design gráfico e comunicação.Os seus serviços foram organizados em três etapas principais: a avaliação de edificações ou projectos existentes, a elaboração de um briefing neurocientífico e o projecto arquitectónico. Quando pertinente, o processo é complementado por avaliações de pré e pós-ocupação, bem como por outros métodos de análise da resposta de indivíduos e grupos aos ambientes que habitam.
Como se desenrolou o trabalho inicial e como as coisas evoluíram desde então — não apenas em termos de abordagem, mas também no que diz respeito às conexões com outros países e contextos?
A experiência profissional que fundamentou a TA teve início no projeto arquitetónico. Desde 1997, projectei e concluí obras de diversas escalas e tipologias. Entre elas, destacam-se a Casa 1 em Rubano, a ampliação do cemitério de Baone, a restauração do histórico Palazzo Bacchini em Monselice, o edifício comercial e residencial Marconi 1 e o complexo aquático de Conselve. Estes projectos abrangeram habitações particulares, edifícios históricos, equipamentos públicos, espaços comerciais e paisagismo, proporcionando uma sólida base arquitectónica para o desenvolvimento posterior de uma abordagem fundamentada na pesquisa.
Com o tempo, esta experiência arquitectónica veio acompanhada de uma investigação cada vez mais estruturada sobre a relação entre as pessoas e o espaço. A pesquisa inicial concentrou-se na construção de um arcabouço teórico e no desenvolvimento de ferramentas para traduzir conhecimentos da neurociência e da psicologia ambiental em critérios arquitectónicos. O *briefing* neurocientífico tornou-se, gradualmente, a ponte entre a pesquisa e o projecto.
A abordagem expandiu-se então para ambientes de trabalho, instalações de saúde, habitações, espaços educacionais, unidades prisionais, infraestrutura de transporte, espaços públicos e projectos de regeneração urbana. Concursos e estudos internacionais — incluindo projectos em Sarajevo, Oslo, Tallinn e Genebra — foram seguidos por trabalhos profissionais em Londres, Luxemburgo e Bucareste.
Conexões com outros países também foram estabelecidas por meio da NAAD (Academy of Neuroscience for Architecture), dos membros internacionais do Conselho Consultivo da TA e de colaborações com pesquisadores e profissionais, ampliando a atuação da TA da Itália para a Europa, América do Norte, Índia e outros contextos.
Essa expansão internacional não implica a exportação de um modelo rígido. O objectivo é manter uma base teórica coerente, adaptando, ao mesmo tempo, os protocolos às diversas culturas, comunidades, actividades e condições ambientais.
Por que a neurociência, a psicologia ambiental e o design gráfico se cruzam no seu trabalho?
Elas cruzam-se porque cada disciplina aborda um aspecto distinto, porém indispensável, da relação entre as pessoas e o espaço.
A neurociência ajuda-nos a compreender os processos corporais e neurais envolvidos na percepção, no movimento, na emoção, na memória, na atenção e no stress. A psicologia ambiental examina como esses processos se traduzem em comportamento, experiência e interação social em ambientes reais. A arquitectura traduz esse conhecimento em configurações espaciais, materiais, sensoriais e topológicas.
O design gráfico desempenha um papel diferente, mas igualmente importante. O conhecimento envolvido é complexo e precisa tornar-se compreensível para clientes, designers, pesquisadores e outras partes interessadas. Diagramas, matrizes, mapas e narrativas visuais conectam evidências científicas, qualidades experienciais e decisões de projecto por meio de uma linguagem compartilhada e operacional.
Portanto, estas disciplinas não apenas coexistem. Eles formam uma sequência: compreender as respostas humanas, observá-las em contextos ambientais, traduzi-las em forma arquitectónica e comunicar todo o processo de forma clara.

Davide Ruzzon
Director do curso de pós-graduação Neurociência Aplicada à Arquitectura (NAAD) pela Universidade Iuav de Veneza, Itália.
Director do Programa de Neurociência e Arquitetura do POLIdesign, Politécnico de Milão, Itália.
Conselho Consultivo, ANfA, Academia de Neurociência para a Arquitectura, em San Diego, Califórnia, EUA.
Presidente, Capítulo Italiano da Academia de Neurociência para a Arquitectura, de Milão, Itália.
Mais informação em www.naad-master.com e https://www.tuning-arch.com



