Markus Hölzl

O arquitecto alemão fala-nos do trabalho de equipa em torno da “Concrete Human” e os propósitos que levaram a montar a primeira de muitas exposições fotográficas focadas no olhar entre o espaço edificado e o Homem. Para lá desta iniciativa, fica um testemunho sobre a função da arquitectura face aos novos desafios que enfrentamos enquanto comunidade universal. Uma vez mais fica sublinhada a necessidade de reflexão e prática, baseadas em evidências científicas, sobre a relação entre saúde da mente e ambiente construído.

Entrevista de Tiago Krusse
Fotografia de abertura de Christian Huser

“Adjacent Solitude“, fotografia de André Clemetsen.

O que é a Concrete Human?


A “Concrete Human” é uma abordagem artística que visa tornar visível o impacto emocional e psicológico da arquitectura para um público diversificado. Por meio da fotografia, mostramos como as pessoas se sentem no seu ambiente construído.

Actualmente, temas relacionados à psicologia da arquitectura são discutidos apenas em círculos restritos de especialistas. A fotografia artística é uma linguagem compreensível também para leigos e até mesmo para crianças. A “Concrete Human” confronta o espectador com emoções que ele talvez já conheça. Passamos 87% de nossas vidas dentro de edifícios. O projecto é uma chamada para que questionemos o ambiente construído em que vivemos.

Quem são os seus mentores e como se reuniram para este propósito?


Conheci o André Clemetsen num bar em Oslo, durante a conferência BARCH 2025. Sou arquitecto com prática na Alemanha e fundador da Architects for Architects, uma plataforma comunitária global para profissionais da área. Visitei Oslo para participar na conferência e encontrar Ann Sussman. Os temas abordados na conferência giravam à volta da arquitectura tradicional, do trabalho artesanal e do impacto psicológico que a arquitectura exerce sobre nós.
Ao conhecer o André — fotógrafo reputado que, recentemente, se tem dedicado a projectos de fotografia documental, que suscitam debates sobre temas desconfortáveis ​​—, começámos imediatamente a discutir como um projecto artístico focado na psicologia da arquitectura poderia levar o assunto a um público mais amplo. A ideia amadureceu ao longo de alguns meses e, por volta de Novembro de 2025, o André e eu reunimo-nos para convidar dois velhos amigos para integrar o projecto: Ola Elvestuen, ex-ministro do Clima e do Meio Ambiente da Noruega, e Christian Huser, editor da The Built Review e consultor de estratégia. Eles adoraram a nossa abordagem e juntaram-se à equipa, contribuindo com as suas respectivas especialidades.

 Onde estão a ser dados os primeiros passos e quais os desafios que enfrentam para fazer a ideia avançar?


O primeiro e mais importante passo foi criar visibilidade online e apresentar exemplos de imagens e poemas que abordassem o tema, estabelecendo também uma ligação com as evidências científicas existentes. O Christian Huser elaborou o conceito e desenvolveu o site, permitindo que visitantes pudessem explorar uma exposição virtual. Isso tornou o projecto numa realidade. A primeira colecção, de André Clemetsen, intitula-se “Adjacent Solitude” (Solidão Adjacente) — retratando como as pessoas sofrem com a solidão, mesmo estando cercadas por outras pessoas em todos os lugares. A colecção já está disponível online, e cada imagem é acompanhada por um poema escrito da autoria do André.

O projecto “Concrete Human” está a evoluir para uma plataforma que anunciará chamadas abertas para fotografia artística, abordando questões contemporâneas relevantes da psicologia arquitectónica. Combinaremos sempre a expressão artística com evidências científicas. Este conteúdo baseia-se na The Built Review — publicação de Christian Huser sobre evidências no ambiente construído —, na qual cada imagem provém do estudo original, e cada estudo é citado na íntegra, com link para a fonte.
O resultado serão colecções de diversos artistas, prontas para serem apresentadas e alugadas como exposições. As impressões estarão disponíveis assim que a exposição fôr montada. Já estamos a preparar a próxima chamada para fotógrafos.

O nosso próximo desafio é criar uma exposição física e levá-la ao maior número possível de pessoas. Queremos estimular o debate público sobre o tema. Para concretizar isso, precisamos de financiamento: é necessário estruturar a plataforma, produzir as fotografias e organizar a exposição. Para tornar esse projecto realidade, procuramos apoio financeiro e parceiros dispostos a colaborar.

“Adjacent Solitude“, fotografia de André Clemetsen.


Quando é que a iniciativa começou e quais pontos-chave foram considerados na estruturação do projecto?


Iniciamos o projecto em Novembro de 2025. O primeiro passo foi reunir a equipa fundadora — pessoas com trajectórias distintas que trouxessem contribuições essenciais para viabilizar a iniciativa. A etapa seguinte consistiu em formalizar a proposta e dar visibilidade ao projecto por meio de um site. Paralelamente, procurámos parceiros para compor um conselho consultivo e agregar uma perspectiva científica ao trabalho. Convidámos a Teresa Ribeiro, a Daiana Zamler e a Dra. Maria da Piedade Ferreira, que se juntaram a nós, oferecendo o seu profundo conhecimento sobre o tema.

A transição de um formato restrito para uma plataforma aberta à participação foi o passo mais importante dos últimos seis meses. Ao convidar outros fotógrafos de destaque para compartilhar as suas percepções e interpretações sobre temas específicos, estimulámos o debate público.
Agora que estamos a incorporar evidências científicas — documentadas pela The Built Review — às colecções e sentimos que estamos, desta forma, a construir uma base sólida. Isso dá-nos a confiança necessária para lançar o projecto em pleno ao público.

Como será o público alcançado e que iniciativas estão sendo tomadas para isso?


O público será alcançado digitalmente por meio do Substack e do LinkedIn, mas principalmente através de exposições presenciais. Os formatos podem variar conforme a configuração do local. A nossa abordagem dependerá do espaço a que tivermos acesso. Haverá situações em que poderemos apresentar impressões de grande tamanho, enquanto que noutras o espaço disponível permitirá apenas uma montagem digital. Como as colecções estarão sempre vinculadas à vertente científica, procuraremos organizar palestras, debates, oficinas, actividades de pesquisa ao vivo ou aulas educativas paralelamente às exposições.

Por que é essa abordagem tão necessária?


As discussões sobre a relação entre saúde da mente e ambiente construído ainda ocorrem de forma isolada. A arte é uma linguagem universal e expressar emoções por intermédio dela estimula o pensamento e a reflexão. É isso que tentamos alcançar. Uma abordagem que parta da base para despertar nas pessoas o desejo por uma arquitectura melhor e mais saudável.

“Adjacent Solitude“, fotografia de André Clemetsen.

Existem perspectivas fotográficas muito diferentes sobre a arquitectura. Na sua opinião, quão abrangente é esta colecção?


A arquitectura é onipresente nas nossas vidas. Ela molda a maneira como as pessoas crescem e rodeia-nos até ao fim; nascemos e morremos em edifícios. A qualidade de vida que vivenciamos entre esses dois momentos é moldada pelas construções. Sociedades e determinados cenários urbanos atraem, criam e moldam personalidades. Assim entendido, a arquitectura possui tanta variedade e profundidade quanto a própria Humanidade. É sob esta óptica que as perspectivas fotográficas podem, e devem, abordar o tema. O Volume 1 apresenta o olhar de um fotógrafo sobre um único assunto. Outros fotógrafos ampliarão essa abordagem.

O projecto aborda o impacto da arquitectura na saúde pública. Como é que diferencia a saúde pública de qualidade de vida?


A qualidade de vida é algo pessoal. Refere-se a quão bem um lugar atende às necessidades da pessoa que nele vive. A saúde pública aborda essa mesma questão numa escala muito mais ampla. Ela está vinculada a um conjunto complexo de regulamentações e, no final, alguém arca com os custos: se não for a construtora será a entidade de saúde.

Qual deve ser o lugar habitado, aquele planeado desde o início, e qual é o lugar que remodela condições preexistentes mal concebidas?


Na minha opinião, a resposta para as perguntas reside em locais que exercem um impacto positivo no sistema nervoso humano e que nos permitem vivenciar um estado de calma e segurança. Os elementos arquitectónicos que criam tais ambientes devem ser planeados desde o primeiro momento. Para corrigir um ambiente edificado mal concebido, é preciso que o local promova a interacção social e o sentimento de pertença. Os seres humanos dependem do seu contexto social. É justamente este aspecto que peca na arquitectura mal planeada, gerando graves problemas de solidão em todo o mundo. A solidão é um problema de saúde e deve ser tratada como tal. Podemos alcançar essa solução projectando espaços que criem um ambiente positivo e social para todos.

A arquitectura esqueceu seus princípios fundamentais? O ensino deveria ser reformulado à luz de evidências científicas, sem, com isso, perder a expressão arquitectónica?


Absolutamente! Os arquitectos continuam a aprender regras universais de proporção e funcionalidade. O princípio de que “a forma segue a função” permanece como a base comum do design. No entanto, a arquitectura não deve apenas funcionar; ela precisa também servir a Humanidade e a sociedade. Construímos para as pessoas, e o ser humano tem uma tendência inata em permanecer onde se sente seguro. Sentir-se seguro significa não se perder em padrões repetitivos ou em vastos espaços vazios que parecem genéricos, independentemente do contexto cultural do espaço. Uma arquitectura que nos transmita segurança e bem-estar geralmente incorpora identidade cultural e uma escala humana. Portanto, proporções, padrões e ritmos devem derivar do ambiente cultural local para despertar em nós sentimentos de segurança e pertença. Pela minha experiência, são esses os elementos que evitam que as pessoas se sintam em estado de alerta dentro de uma edificação. Assim, na minha opinião, o ensino de arquitectura deve, mais do que nunca, aliar diversidade cultural e evidências científicas para criar lugares onde as pessoas se sintam seguras e acolhidas.

A disciplina está actualmente aprisionada pela finança?


Sim, as finanças ditam a arquitetura para atender a um retorno sobre o investimento (ROI) de curto prazo. A sustentabilidade económica ainda parece ser mais importante do que a sustentabilidade ambiental. Com demasiada frequência, estes atributos são utilizados apenas como argumentos de marketing. A sustentabilidade social, por outro lado, interessa apenas a um grupo muito restrito de investidores e promotores — aqueles que mantêm imóveis nos seus portfolios a longo prazo. Ainda assim, persiste o problema em que mesmo estes actores, que apostam em qualidades sociais de longo prazo, muitas vezes não sabem como projectar adequadamente. Isso resulta, novamente, de uma arquitectura de baixa qualidade, voltada apenas para uma funcionalidade de curto prazo.

“Adjacent Solitude“, fotografia de André Clemetsen.

Que desafios enfrenta o ambiente construído em todos os seus aspectos, no que diz respeito a garantir a qualidade de vida e assim como uma perspectiva ambiental?


As mudanças climáticas e as guerras já estão a forçar, e forçarão ainda mais no futuro, grandes contingentes populacionais a se deslocarem para ambientes mais seguros. Isso gerará uma pressão crescente sobre as regiões do planeta que ainda dispõem de água e temperaturas amenas. A oferta de habitação não acompanha a procura, portanto, é preciso construir em grande escala. A quantidade não determina a luminosidade, o nível de ruído ou a qualidade do ar de um apartamento, aspectos que podem ser bem resolvidos a baixo custo ainda na fase do projecto. Para evitar que as pessoas se mudem devido ao calor excessivo, devemos resgatar técnicas antigas capazes de lidar com condições extremas sem consumo de energia. Por outro lado, precisamos desenvolver soluções arquitectónicas que proporcionem ambientes saudáveis ​​em áreas de altíssima densidade populacional. A ciência pode auxiliar-nos nessa tarefa, mas os arquitcetos precisam aprender a viabilizá-la a custos acessíveis.

Que tipo de arquitectura é boa tanto para os seres humanos quanto para o meio ambiente?


A arquitectura tradicional mostra-nos que as cidades podem ser realmente densas, funcionais e, ainda assim, belas. Podemos aprender a respeitar o comportamento social, a funcionalidade e os princípios estéticos até mesmo com soluções antigas. Hoje, também dispomos de mais recursos técnicos para aprimorar essas técnicas, mas precisamos reaprender a utilizar materiais locais da melhor maneira possível. Na maior parte do mundo, esse conhecimento ainda permanece vivo.

“Adjacent Solitude“, fotografia de André Clemetsen.

Fotografia de Christian Huser.

Markus Hölzl


Após uma estadia de dois anos na Austrália, onde concluiu a sua formação escolar, Markus Hölzl cursou arquitectura na Universidade Técnica de Munique, Alemanha.

Está sediado em Tegernsee, na Alemanha, tendo uma sólida base em trabalhos de marcenaria e artesanato. Enquanto arquitecto, procura constantemente soluções honestas e sustentáveis ​​que respeitem os princípios do design centrado no ser humano. O material e o trabalho artesanal desempenham um papel central nos seus conceitos, que abrangem desde pequenas reformas até revitalizações de grande escala em centros de cidades rurais.

Para lá do seu trabalho enquanto arquitecto, apaixonado pela profissão, Markus Hölzl desenvolve iniciativas empreendedoras no campo da arquitectura. Elas variam desde a criação de uma plataforma global de networking até ao desenvolvimento de uma consultora que oferece apoio estratégico a organizações e instituições.

2003 – 2010: Technische Universität München – TUM (Universidade Técnica de Munique)

2010: Graduação em Arquitectura – Diploma (Dipl. Ing. Architekt)

2011: Trabalho como marceneiro na Haus in Holz – Hausham (Alemanha) https://www.hausinholz.de/

2011 – 2014: Trabalho como arquitecto na lattkearchitekten – Augsburg (Alemanha) https://www.lattkearchitekten.de/

2014 – 2016: Trabalho como arquitecto na Brinmeier & Salz Architekten – Munique (Alemanha) http://www.bsa-muc.de/

2016 – 2025: Co-fundador da HKF Architekten – Tegernsee (Alemanha)

Desde 2025: Fundador da “architects for architects”, uma plataforma global de networking – online https://www.architectsforarchitects.com/

Desde 2026:

– Fundador da Hoelzlarchitektur – Tegernsee (Alemanha) https://hoelzlarchitektur.de/

– Co-fundador da “neuecon & partners”, uma consultora imobiliária – Tegernsee (Alemanha) https://www.neuecon.com/



Mais informação https://concretehuman.com/