Freddy Van Camp
O DESIGNER BRASILEIRO ACEITOU O DESAFIO DE SER O NOVO CURADOR DA BIENAL BRASILEIRA DE DESIGN FLORIANÓPOLIS 2015. PROSSEGUINDO O TRABALHO JÁ EFECTUADO E TRABALHANDO COM UMA EQUIPA DE PROFISSIONAIS, GARANTE QUE O COMPROMISSO DE APRESENTAR UMA BOA EXPOSIÇÃO É FORTE. ATRAVÉS DA SUA VIDA TEMOS UMA IMPRESSÃO DE FACTOS QUE INFLUENCIARAM A HISTÓRIA DO DESIGN DO BRASIL ATÉ AOS DIAS DE HOJE.

Entrevista: Tiago Krusse
Fotografias e imagem: Cortesia de Gabriel Patrocínio,Pablo Cabistani e SANTUR – Santa Catarina Turismo.
Qual é a origem do seu apelido?
Nasci na Bélgica e vim para o Brasil com os meus pais era ainda uma criança. Tinha um ano de idade. Fui criado e educado no Brasil.
Como foi crescer no Rio de Janeiro no final dos anos 40?
A minha infância no Rio foi muito boa e fácil. Havia um grande desenvolvimento no país e o meu pai, que trabalhava numa multinacional, viajava muito e isso permitiu-nos conhecer o país muito bem. Gostava muito do ambiente cultural misto e gostei do clima quente e soalheiro daqui.
Por que razão decidiu abraçar o design?
O meu pai era engenheiro de telecomunicações e queria que eu seguisse o mesmo tipo de carreira. Estudei numa escola técnica onde tive de aprender desenho técnico e os meus professores notaram a minha aptidão para esse tipo de matérias e incentivaram-me a especializar-me nesse domínio. Nessa altura abriu a ESDI, a Escola Superior de Design Industrial, o primeiro curso de design do Brasil, onde fui admitido no terceiro ano da sua existência.
Quem foram os seus mentores de design e que tipo de ambiente se vivia nessa comunidade?
Bem, eu tive de convencer o meu pai de que era uma boa escolha, já que ninguém na época sabia o que era o Design, pelo menos no Brasil. Os nossos mentores foram os fundadores da ESDI, a maioria designers que estavam no activo na época, que era muito difícil por sinal pois era o início da ditadura. De fora, admirávamos os antepassados da ESDI que ainda estavam activos na HfG Ulm, alguns designers britânicos e escandinavos, para além de Eames e outros.

Quando é que ouviu falar de Design como uma profissão pela primeira vez?
Tentámos adaptar a palavra Design Industrial para Desenho Industrial no Brasil e isso levou a interpretações equivocadas. Resistimos em adoptar a palavra design, o que finalmente acabámos por fazer nos anos 80. Para a classe de design usávamos design mas para o público insistimos em desenho industrial. Isso levou a erros e retardou o desenvolvimento de uma cultura de design, no meu ponto de vista actual. Havia também a noção do que o design levava ao desenvolvimento de produtos “sofisticados” apenas para mercados exclusivos. Não fomos tão espertos como os portugueses que decidiram usar a palavra design em primeira-mão!
A indústria brasileira procurava por estes novos profissionais?
Nos anos 60 pensávamos que havia uma necessidade real do design acompanhar o desenvolvimento que estava no horizonte, como um política nacional. A indústria automóvel, os electrodomésticos e outros produtos que começaram a ser fabricados no Brasil no pós-guerra, substituindo os produtos importados devido ao crescimento populacional e a necessidade de adaptar esses produtos aos nossos hábitos e cultura. Foram estes alguns dos argumentos para implantar a carreira de design. Bem, acho que isso deu certo, pois a indústria está usando o desgin brasileiro mesmo fora do Brasil. Algumas importantes multinacionais têm grandes equipas de designers brasileiros que importaram para as suas necessidades próprias.
No início dos anos 70 foi para os Estados Unidos da América e depois para a Alemanha, na procura de mais conhecimentos e experiência académica. Como descreveria ambas as experiências e o que elas enriqueceram a sua formação?
Foram experiências óptimas, fascinantes! Na altura eu tinha trabalhado para a indústria brasileira e comparando as necessidades e os procedimentos, foi muito interessante. Descobri alguns factos de relevância sobre o Brasil e a minha formação, que me surpreenderam muito. Por exemplo, a forma como utilizávamos os materiais e conseguíamos os mesmos resultados com menos um terço da material, sobretudo devido aos custos, e com procedimentos de engenharia, que eram mais racionais e exigentes para nós, projectistas. Aprendi também que estávamos positivamente mais abertos a outras influências, fruto das nossas condições periféricas; que improvisar era um factor positivo num mundo em constante mudança, etc …
Por outro lado, aprendi sobre design de serviços e de entretenimento com os norte-americanos e sobre ambiente e sustentabilidade com os alemães. Coisas que nunca tínhamos ouvido no Brasil.
O que é que fez até abri o seu estúdio de design em Janeiro de 1980?
Quando regressei ao Brasil, em meados dos anos 70, comecei a dar aulas na ESDI e a trabalhar, em horário parcial, na indústria. Adoro a indústria e as suas possibilidades. Penso que para socializar o design é necessário que a indústria faça parte do sistema.
A decisão de abrir o meu próprio estúdio deveu-se ao facto de 95% da indústria brasileira não tinha condições para ter um designer interno, a escala era muito pequena e só utilizavam os serviços de um designer de vez em quando.
Ao longos dos mais de 35 anos de existência do estúdio quais os momentos e as experiências que considera mais importantes para a sua paixão pela sua profissão?
Tenho um grande prazer em fazer coisas diferentes. Isso foi um dos principais atractivos que encontrei em ser designer. Desenhar um supermercado, uma peça de mobiliário e, mais tarde, um electrodoméstico ou um produto electrónico, isso entusiasma-me muito. Tive a oportunidade de fazer algumas dessas coisas, graças a clientes simpáticos que mais tarde se tornaram amigos. Aprendi que devemos trabalhar para clientes que podem tornar-se nossos amigos, se assim o desejarmos. Isso torna o design tão agradável! Para além disso, ter um produto com mais de 20 anos no mercado, satisfazendo necessidades, é outro prazer notável, hoje em dia muito raro!
Como é que concilia ser designer e professor ao mesmo tempo?
Fui chamado para dar aulas por acaso. No meu regresso ao Brasil pediram-me para substituir alguns dos meus antigos professores, alguns deles tornaram-se colegas. Não é uma tarefa fácil mas continuo a achar que é a combinação certa para alguém que ensina concepção de projectos. Isso aconteceu comigo no Brasil e no estrangeiro. Os melhores professores que tive foram aqueles que tinham experiência de mercado ou de indústria. Eles dão-te uma confiança e através da sua experiência encurtam muito a aprendizagem. Por vezes, um aspecto ou outro da nossa carreira sofre, mas é muito agradável praticá-la. É como um diálogo permanente! Sei que, com os requisitos académicos, isto é bastante difícil hoje mas o design precisa de uma abordagem diferente dos procedimentos académicos tradicionais.
Tem um longo percurso de professor o que lhe dá uma visão mais aprofundada sobre os programas e objectivos educativos. Quais são os factos positivos e negativos que retira dessa experiência?
Sou fascinado por novas tecnologias e penso que elas são essenciais para o ensino do design mas receio que estamos a perder algo em relação às antigas. A prototipagem e a produção rápidas são óptimas mas com elas podemos perder a nossa mão e o desempenho. O esboço está quase a desaparecer como os programas de modelação e as bases de dados electrónicas estão a perder-se como os programas obsoletos ou formatos em que estão registados. A rede é tão efémera que me assusta e os nossos alunos estão fascinados com ela que é difícil argumentar com eles. Por outro lado, a rede oferece a qualquer estudante ou designer as mesmas possibilidades criativas e facilidades em qualquer parte do mundo, igualando os meios que estão disponíveis para qualquer pessoa que pratique design.
Será que a escola e a universidade estão a dotar os alunos com as ferramentas essenciais para que eles possam ser bons designers e atingir por essa via os seus objectivos profissionais?
Bem, esta não é uma pergunta fácil. Nós temos um número muito grande de cursos de design no Brasil. Nem todos têm a mesma qualidade mas a maioria tem uma boa avaliação do ministério da educação, que é feita com regularidade. Por outro lado, nas exposições que temos, como a bienal que estamos a promover este ano, encontramos muitos projectos interessantes e bem sucedidos que são feitos por designers de todo o país. O mesmo acontece com a Bienal de Design Gráfico, promovida pela ADG. O grande número de designers brasileiros que trabalham com sucesso no exterior também é impressionante. Infelizmente não temos pesquisas sobre o assunto.
O Laboratório Brasileiro de Design Industrial foi uma instituição importante para o design do país. Qual a razão de não ter perdurado?
É uma longa história que eu vou tentar abreviar. O laboratório começou como uma instituição dedicada a promover cursos para complementar conhecimento e experiência de designers recém-formados e a desenvolver projectos para a pequena e média indústrias. Posteriormente, na segunda fase, desenvolveu e promoveu uma série de seminários e e eventos para subsidiar a cultura do design no Brasil, continuando a desenvolver projectos. Foi associado do ICSID e procurou também inserir o Brasil no cenário internacional do design, que conseguiu até certo ponto, principalmente através do intercâmbio de especialistas e profissionais. Na terceira fase, foi associado ao SENAI e dedicou-se exclusivamente ao desenvolvimento de projectos de design para qualquer tipo de indústria. Foi fechado durante um período de crise económica, devido à falta de fundos. Foi uma grande perda para Santa Catarina e para o Brasil.
Recentemente foi escolhido para ser o novo curador-geral da Bienal Brasileira de Design Florianópolis 2015. O que o levou a aceitar o convite?
Bem, mais outra pergunta difícil. A bienal é o único evento nacional de promoção do design brasileiro. No momento em que o antigo curador decidiu se demitir a perde que poderíamos ter seria um desastre para a profissão e para a nossa sociedade. Decidimos entrar com o propósito de não perder todo o trabalho que já estava feito e para mostrar que podemos fazer uma boa exposição, um bom evento, apesar das dificuldades. É uma tarefa de design como qualquer outra.
Qual é o vosso plano e o programa? Para além do trabalho que já estava feito haverá tempo para novas ideias ou um novo conjunto de propostas?
Não podemos ousar perder ou descartar todo o excelente trabalho efectuado, até agora, pelo antigo curador e sua equipa. Temos a obrigação de rever todos os aspectos do conceito à luz do tempo que nos resta e prepararmo-nos para outras possíveis dificuldades que encontraremos pelo caminho até à inauguração.
Que desafios e riscos foram tidos em consideração quando faltam apenas três meses para a abertura oficial?
O tempo que nos resta é muito curto mas estamos a chamar mais especialistas para nos ajudarem a enfrentar a tarefa. Precisamos de tomar alguns atalhos e racionalizar todos os aspectos da produção da exposição e dos eventos de apoio. Os designers são bons nisso!
Como é que a equipa responde à necessidade de realizar um bom e memorável evento ?
Incrivelmente bem. A equipa, maioritariamente composta por profissionais mais jovens e entusiastas, está totalmente empenhada em fazer mais golos, para que possamos ganhar este jogo com um bom resultado final.
Quais são os aspectos essenciais que teve em consideração relativamente às expectativas e aos objectivos de todas as pessoas envolvidas na bienal?
O tema da bienal é Design for All pelo que este é o nosso principal objectivo: mostar que o design é para todos e que não é algo destinado a alguns membros “escolhidos” da nossa sociedade, que é uma qualidade democrática que diz respeito a toda a gente. Todos temos o direito de ter design nos seus bens materiais ou mensagens. Com o design viveremos melhor!
Existe alguma apresentação principal ou a bienal será apresentada como uma sequência de exposições multidisciplinar e complementar?
Teremos uma série de exposições interligadas que reforçam o conceito Design for All. Mostraremos projectos ou produtos para pessoas com necessidades especiais, para a classe média emergente, para uso público e feitos com um impulso participativo por parte de colectividades criativas. Para além disso, mostraremos o estado da arte da nova produção rápida e um balanço da produção no estado de Santa Catarina. Em paralelo, teremos seminários, oficinas e outros eventos.
Tiveram em consideração todas as áreas do design?
As áreas tomadas em consideração terão uma ligação directa à programação mencionada.
Quais são as suas expectativas?
Penso que vamos ter uma bienal muito especial que irá mostrar que o design é uma qualidade que não nos podemos dar ao luxo de não ter, a partir de agora! Design para todos, design para viver melhor! Definitivamente, bem o merecemos!





