Carvalho Araújo
Numa conversa no seu atelier em Braga, José Carvalho Araújo diz-nos que no meio das suas incertezas anda à procura de um termo para aquilo que faz, a arquitectura para além do desenho. Não desgosta quando lhe perguntamos, em forma de sugestão, se é uma certa espiritualidade. Expressa também que as suas obras nunca estão terminadas, anda sempre acompanhado de um caderno de notas, pois as ideias fluem ao ritmo da paixão que o move a materializá-las. As pessoas estão no centro da arquitectura.
Texto de Tiago Krusse
Fotografias de abertura e de perfil são uma cortesia da Carvalho Araújo

Calhou chegarmos a Braga, de comboio, ao fim de uma manhã de Verão. A temperatura anda próxima dos 40º e da estação à Rua 31 de Janeiro são, de automóvel, um par de minutos. A moradia, de meados do século passado, anicha-se num dos principais eixos da cidade, zona mais pedestre do que de tráfego de veículos. Esta nova casa, que é a sede do atelier Carvalho Araújo, é vencedora do Prémio Municipal de Reabilitação Urbana – Reabilita Braga 2026, se bem que o seu autor prefira designar o trabalho como uma transformação. Preservando a arquitectónica e a memória daquele espaço urbano, entrando no edifício percebemos a transformação interior no aumento na cota abaixo do nível da rua.
José Carvalho Araújo recebe-nos e de imediato propõe a visita guiada ao trabalho do seu atelier, galardoado pela edilidade local. Há uma mudança de forma no interior do edifício, modificando o que era a percepção do espaço, no século passado, para uma moradia, e reformando-o em termos de organização e fluidez essenciais a um ritmo e a uma forma de viver contemporâneos. Entendemos o gosto que tem em explicar a razão de ser das decisões e de complementar com as necessidades actuais de um espaço modificado para responder a outras vivências. E antes de passarmos à cota inferior, a tal transformadora ampliação, fala-nos dos motivos para a ausência de cores. Afirma que gosta das cores naturais dos materiais, que as mesmas possuem texturas muito interessantes. A materialidade para si tem a ver com a essência e verdade dos materiais. Cabe a quem habita o espaço enchê-lo com as cores que bem entender, e a ele a incumbência de conceber espaços cénicos. Observamos nestes seus espaços do atelier referências muitas ao trabalho, maquetas, mobiliário e cadernos de notas. Debaixo do pé-direito alto olha em redor e descreve-nos o que fez e o que faz. Uma cadeira, comprovadamente, muito confortável, uma secretária com anos e muitos desenhos, rasgos escondidos naqueles cadernos de notas, dos quais já perdeu a conta. Objectos e formas, sonhos por construir ou fabricar. Começa pelo design e assim começa a ser conhecido, tentando depois anular-se para se afirmar como arquitecto. Agora, nesta fase da sua vida, depois de conquistar terreno como arquitecto, não concebe apresentar um projecto em que falte uma peça e se por acaso isso acontecer é pretexto para ir desenhá-la.
Não há teatros, há todo um espaço para a liberdade de pensar coisas sempre novas e nunca definitivas. Dinâmicas de quem está sempre predisposto para fazer o que fôr com entusiasmo. Declara que o espaço tem que ter vida, tem que ter alma!
Descemos à transformação propriamente dita, abaixo da horizontal da rua, onde a equipa do atelier, com mais de vinte elementos, beneficia das vistas para um jardim relvado onde nas laterais crescem a seu tempo árvores, prevendo-se um ambiente natural com benefícios para quem ali faz uso do foco, da memória e da criatividade. E surge-nos o betão, despido na sua materialidade e ao gosto do arquitecto. E que materiais poderiam ser os seus preferidos? Diz-nos que são todos preferidos mas um mais do que os outros pois se a base da construção é o betão, se tem de iniciar a obra com ele então vai pensando por camadas. Se não arranja justificação para que a obra tenha outra materialidade, preocupa-se em fazer bem essa fase para que o betão possa ficar aparente. E sem se contradizer, expressa que se tiver que pintá-lo de branco também o faz. O betão, pedras ou outros materiais que sejam. Há sempre espaço para as surpresas.
Carvalho Araújo procura que na sua arquitectura se crie uma base equilibrada, rigorosa mas deixando o espaço preparado para que as pessoas possam ter um outro olhar sobre a mesma. Na sua experiência, com mais de três décadas, regista como os espaços foram apropriados pelas pessoas de uma forma que nunca poderia imaginar ser possível. É peremptório ao dizer que a arquitectura nunca é definitiva, claro que há projectos muito bem desenhados e feitos com muita exactidão mas, para ele, tudo isso é muito definitivo. Advoga um desenho que seja o mais conceptual, capaz de se adaptar a diferentes situações e não ser tão limitativo. Diz que pretende elevar experiências ao invés de defini-las.
Com a bagagem de alguns anos no terreno, os clientes que procuram o atelier surgem à procura da surpresa e isso, para Carvalho Araújo, é algo que ele valoriza muito. Espera que nunca venha a responder em consonância àquilo que as pessoas esperem que ele corresponda. Essa dúvida e esse factor surpresa para além de aumentarem a expectativa, permitem-lhe também salvaguardar aquilo que irá colocar em prática. Não se sente minimamente incomodado pelo facto de o contratarem pelo nome, para valorizar o investimento e expressa que isso faz parte da natureza humana. Só não espera que lhe venham encomendar uma moradia unifamiliar apenas para terem um projecto assinado. Sente-se feliz por ter atingido um certo patamar de reconhecimento e prefere, sem dúvidas, que venham ao seu encontro no sentido de ele desenvolver uma ideia que jamais lhes tenha passado pela cabeça. Desafios e gente capaz de os respeitar.

Questionamo-nos se o público em geral estará hoje mais consciente do valor do trabalho do arquitecto, sem termos ideias pré-concebidas. Para Carvalho Araújo há uma certeza e ela tem a ver com os níveis de exigência. Passam por assuntos tão díspares como climatizações a sistemas de som ambiente, mesmo o modo construtivo ao nível do conforto tem outro tipo de necessidade absoluta e imprescindível. Na generalidade, as pessoas estão conscientes disso mas estão muito condicionadas por aquilo que vêem nas redes sociais. Por outro lado confessa que elas não têm consciência do que é boa e má arquitectura. Diz-nos, excluindo-se, que a coisa mais fácil na arquitectura é convencer um cliente. Optar por soluções aparentemente evidentes não é um caminho que trace, pois procura antes interpretar um pedido e aprofundar a base desse anseio. Há uma postura de respeito e sobretudo de amor-próprio.
Quanto aos aspectos maçadores do quotidiano de um atelier de arquitectura com uma constante solicitação de trabalhos, tentamos imaginar o que poderá manter toda uma tranquilidade que nos é transmitida desde o momento em que colocámos o pé na casa. Percebemos afinal que todas essas maçadas são muito fáceis de lidar. Explica que em termos de processo criativo tem três fases, a primeira é a da euforia. Diz que se liberta e ouve muito, passando por fases de observação e remete-se para o seu espaço. Salienta que nesse momento não faz sentido prender-se ao que é a legislação, o que é e o que não é permitido. Remata que a legislação é uma questão de bom-senso, há-que regular pois ela é para todos. Depois há a excepções e elas também são permitidas, desde que bem justificadas e dentro do tal bom-senso. Preços e outros pormenores também ficam de fora. Não quer saber nada disso. Isso permite-lhe chegar a um estudo conceptual preliminar e consequente apresentação ao cliente. Na segunda fase surge o Caos e aqui é confrontado com limitações financeiras, legislação – a equipa começa literalmente a adverti-lo para um conjunto de situações-, obrigando-o a conciliar a fase mais poética com a primeira abordagem à realidade. Entra por fim a fase da racionalidade e o projecto tem de ligar tudo, como se de uma cozedura se tratasse, impondo o rigor. Metodologia exposta com simplicidade, sem a pretensão de impor ou sugerir processos de trabalho, Carvalho Araújo parte assim para o lado de fora passando para o papel de gestor e observador, e aqui com o fito de perceber se nesse percurso de desenvolvimento do projecto não se vai perder toda a essência conceptual. Não se pretende deturpar a tal espiritualidade. Confessa que não sabe como é que o aturam!
Na sua vida pessoal não leva a mal que lhe digam que é minimalista em termos de estilo de vida, no que concerne em termos de linguagem de arquitectura não. Não é a ideia que faz de si, diz que procura fazer menos e melhor. O tal menos é mais isso não é consigo! Pensa os espaços para eles serem massacrados e não precisam de estar imaculadamente arrumados e limpos. Revela-nos que gostaria que a arquitectura contribuísse para essa filosofia e imagem minimalista que é viver com menos e melhor.
Os trabalhos públicos têm todo um peso político mas não é por causa disso que a fase eufórica deixe de marcar presença. Percebe perfeitamente que quanto mais espectacular no sentido da ideia e do conceito fôr que isso preenche o ego à classe. Mas depois é o caos de enfrentar o edifício público com regulamentos e orçamentos e mais duro, colocar em causa muita coisa que foi pensada. Sobre técnicos que dão pareceres e outras personagens que surgem pelo caminho, não têm paciência e pega-se com toda a gente. Mas reforça que tende sempre a levar para o lado de compreender as pessoas. Quando há pessoas com boas intenções tudo bem mas elas não são a maioria. Conversamos de facto de uma arquitectura centrada nas pessoas. Fazer um desenho ou uma cidade mais bonita não é um luxo!

Toda a gente gostava de viver numa cidade mais bonita, ela é uma grande casa e devia tender, considerando o problema da habitação, para uma nova regulamentação em termos de áreas. Carvalho Araújo defende que as casas deveriam ficar mais pequenas porque é a única forma de baixarmos os preços na habitação e a cidade funcionar como o prolongamento da casa. O seu pensamento sobre a cidade faz dela a nossa grande casa e as casas são o estritamente necessário para nós vivermos. A casa com quarto, sala, casa de banho e cozinha e sem nada de aérea extra para um escritório ou outras funcionalidades. Diz-nos que esta área de escritório deveria estar em espaços comuns de condomínio, levando a valorizar esta vida de comunidade que se tem vindo a perder. Os espaços que nos fazem falta são aqueles para sair para a cidade e dá-nos o exemplo do parque urbano, que o melhor parque da área é aquele que está mais próximo da nossa casa. Há uma necessidade de pensarmos os equipamentos e os espaços urbanos desta forma ao invés dessa cultura de espectáculo. Com trabalhos também nesta área e no segmento social, destaca um concurso do IRU ganho em Matosinhos. Designou-o “De Volta ao Bairro”, um conjunto com 250 apartamentos em que o espírito foi criar condições para a vida em comunidade, criando boas relações de vizinhança. Percebemos-lhe a sua paixão pelas questões urbanas sem nunca esquecer o interesse pelas pessoas e a sua qualidade de vida. Qualidades sensíveis de alguém com experiência de vida. Valorizarmo-nos fazendo o bem ao próximo.
O caminho na arquitectura deu-se porque Carvalho Araújo deixou-se encantar pelo ambiente das belas artes do Porto. Fartou-se de chumbar mas recorda-se de se dar com muita gente e que deixou uma relação muito boa com os seus antigos professores. As suas origens são de uma família industrial – avô, pai – uma escola. Esta influência da indústria traz-lhe uma forma de ver e pensar o design. Há para si algo de contraditório na forma como fala do design e da arquitectura mas sente que as coisas lá vão batendo certo. O meio industrial em que cresceu dá-lhe uma capacidade de pensar de uma forma sustentada. Há o tal traquejo para lá da universidade. A experiência de vida e o contexto.
Se vai ser uma referência da arquitectura nacional diz, sem pudores, que Siza há só um! Diz que as referências existem mas que elas vão passar a ser mais do que uma, salientado que ainda há o Souto de Moura, de quem é amigo. Sublinha que a arquitectura portuguesa, ainda assim, está sobrevalorizada.
Relativamente ao trabalho que está a ser feito pela Ordem dos Arquitectos, Carvalho Araújo vê em Avelino Oliveira a forma como se sabe posicionar, o seu empenho e percebe que ele está ali por gosto. Menciona também o trabalho de Nuno Sampaio com a Casa da Arquitectura e conclui que são pessoas assim que não se podem perder e que um dia vamos reconhecer-lhes o mérito pelos seus desempenhos e pelo que deixam às gerações futuras.
Não é pessoa de se vangloriar por motivos fúteis mas refere que lhe dizem muitas vezes que quando se fala de arquitectura diz-se Lisboa, Porto e o Carvalho Araújo. Vê nisso uma brincadeira sem maldade ou outros intuitos. Reconhece que tem muito trabalho e que se sente preenchido em Braga. Talvez se estivesse em Lisboa as coisas estariam diferentes … mas diferentes p’ra quê?!?
Regressemos ao tema cidade. Vê a expansão de Braga e diz que o Porto está limitado. A sua cidade de Braga vai alargar-se no bom sentido e a ter em conta. Estão, à partida, acautelados corredores verdes e Carvalho Araújo está metido no assunto. Como defende há muito tempo e contando com as garantias que lhe são dadas por um jovem presidente de câmara, João Rodrigues, a cidade vai ter mais rio. Falamos do Rio Cávado, que fica a 5 ou 6 quilómetros em linha recta, onde o Plano Director Municipal já aponta que grande parte do desenvolvimento da cidade vai ser para aquela zona. Revela-nos que a base que está pensada tem cerca de 50 hectares e o que está a ser planeado é mais um elemento que vai permitir um crescimento maior do parque e consolidar a ligação destes novos lugares à cidade. Perguntamos-lhe se vai ter uma voz activa e informa-nos que foi, a convite de João Rodrigues, mandatário da sua candidatura. O arquitecto revela-se aqui desalinhado com tudo o que é política e até estranhou tal convite mas sublinha que foi, talvez, enquanto o actual edil ocupou o pelouro do urbanismo que ele reconheceu e valorizou a sua visão para a cidade. Não se sente de todo arrependido pois é, de facto, voz activa.




José Carvalho Araújo
Em 1986 assume a direcção do CECA – Centro de Estudos Carvalho Araújo, que funciona como um laboratório de projecto, testando um novo modo de encarar as questões do desenho industrial.
Em 1989, desenvolve um programa base para o sistema de mobiliário de escritório ARPA, que será apresentado em 1990 na Orgatec, em Colónia, Alemanha.
Em 1990, conclui a Licenciatura em Arquitectura, pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, após ter frequentado os quatro primeiros anos na Escola Superior de Belas Artes do Porto.
Em 1996, cria a empresa J. M. Carvalho Araújo, Arquitectura e Design, S.A., onde desenvolve projectos de Arquitectura de escalas e abordagens diversas, e de Design Industrial.
Entre 2005 e 2013 conjuga a actividade de docente com a prática, leccionando a cadeira de Projecto da Licenciatura em Arquitectura da Faculdade de Arquitectura da Universidade Católica de Viseu.
Em 2013 funda o atelier em São Paulo, Brasil.
Actualmente assume também a posição de consultor e director criativo em diversas empresas e é assiduamente convidado para participar em exposições, conferências e congressos, recebendo diversas distinções nacionais e internacionais tanto na área da Arquitectura como do Design de Produto, como o Design Plus Award, o Good Design Award, Prémio Sena da Silva e Prémio Nacional de Reabilitação Urbana.
Mais informação sobre a Carvalho Araújo em https://www.carvalhoaraujo.com




