Annalisa Rosso

Da reflexão interna da equipa que concebe o Salão do Móvel de Milão surge o espaço Raritas, com a curadoria de Annalisa Rosso. Uma abordagem que tem como desígnio elevar a experiência compartilhada que envolve a pesquisa, a materialidade e a dimensão cultural do design. Para ver, pavilhões 9-11, de 21 a 26 de Abril, em Milão, Itália.

Entrevista de Tiago Krusse
Fotografias: cortesia de Annalisa Rosso e Salone del Mobile Milano

Quais são os princípios orientadores da exposição Salone Raritas?


O Salone Raritas parte de uma simples observação: os limites do design estão a expandir-se. Paralelamente à produção industrial, há um crescente interesse em práticas que operam numa escala diferente, onde a raridade, o conhecimento material e o tempo desempenham um papel central. Falamos de design contemporâneo, em peças únicas ou edições limitadas, obras de antiguidades e artesanato excepcional. O princípio orientador do Raritas, portanto, não é isolar o design coleccionável mas sim integrá-lo ao ecossistema mais amplo do Salone. Foi concebido como uma constelação de práticas que abordam os objectos tanto como artefactos culturais quanto funcionais. Nesse sentido, o Raritas é menos uma categoria e mais uma lente através da qual se pode repensar a relação entre design, artesanato e as narrativas que os objectos carregam consigo.

A experiência e a longa trajectória acumuladas nos círculos de design reflectem-se neste trabalho de curadoria?


Inevitavelmente. Trabalhar por muitos anos na comunidade de design significa desenvolver uma sensibilidade não apenas para os objectos mas também para as redes de pessoas, conhecimento e práticas que os produzem. Esta curadoria reflecte essa perspectiva. O Raritas não se baseia numa única estética ou geografia, mas sim numa atitude compartilhada em relação à criação: um compromisso com a pesquisa, com a inteligência material e com a dimensão cultural do design.

Onde é que encontrou terreno fértil, no design industrial, para extrair o que chamamos de raridades?


Curiosamente, o terreno fértil muitas vezes reside precisamente nas fronteiras do design industrial. Muitos designers contemporâneos transitam com fluidez entre a produção, as edições limitadas e o trabalho experimental. O que chamamos de raridades frequentemente emerge dessas intersecções, onde a lógica da indústria encontra a liberdade da pesquisa e onde os objectos se tornam ocasiões para testar materiais, técnicas ou novas maneiras de pensar o uso. Um bom exemplo é a designer Sabine Marcelis, que apresentará um projecto no Raritas com a galeria Collectional. Ela tem uma prática que abrange diferentes domínios, do design industrial à arquitectura, das instalações site-specific à pesquisa de materiais.

“Collectional”, detalhe. De Sabine Marcelis.

Quando é que iniciou este projecto e quais foram as condições oferecidas para que trabalhasse num objectivo tão peculiar?


O projecto surgiu de uma reflexão mais ampla dentro do Salone, sobre como o panorama do design está a evoluir. As condições estavam bastante claras desde o início: o Raritas não deveria tornar-se numa feira paralela mas antes uma iniciativa integrada, capaz de enriquecer o ecossistema existente. Isso significava trabalhar com um número relativamente pequeno de participantes, dando prioridade à qualidade e à coerência em detrimento da escala.

Como se implementa esse tipo de abordagem num contexto tão específico como o Salone del Mobile? Quais são os desafios envolvidos?


O desafio é justamente introduzir uma nova camada sem perturbar a identidade do Salone. O Salone Raritas não foi concebido como um território à parte, mas como uma extensão do diálogo que já acontece em toda a feira. Ao colocar o design coleccionável, peças antigas e artesanato excepcional no mesmo ambiente da produção industrial, abrimos novas perspectivas para arquitectos, fornecedores e outros profissionais que trabalham o espaço.

O que mais a surpreendeu durante todo este processo?


Talvez tenha sido o nível de repercussão que a ideia gerou. Muitas galerias, designers e profissionais reconheceram imediatamente o valor de criar uma ponte entre o mundo B2B do Salone e o universo dos objectos raros e coleccionáveis. Isso confirmou que esse diálogo já acontecia informalmente e simplesmente precisava de uma plataforma.

Por que motivo encontramos sempre algo de valor e interesse em tudo o que é incomum? Quais as componentes que capturam a nossa atenção?


Em design a raridade não se resume à escassez mas sim a uma certa intensidade de intenção. Quando um objecto condensa conhecimento, experimentação e história, ele carrega uma densidade que apreciamos instintivamente. Mas também tem a ver com a possibilidade de reflectir diferentes identidades, necessidades e culturas. Nesse sentido, a raridade torna-se uma forma de expressar a pluralidade e é justamente aí que reside a sua força e relevância hoje.

O artista digital e designer Andrés Reisinger apresenta “12 Cadeiras para Meditação”, uma exposição experimental instalada no átrio do Nilufar Depot, na Viale Lancetti, em Milão. Fotografia de Alejandro Ramirez Orozco.

De que forma o tempo, os protagonistas, o contexto e talvez uma certa nostalgia irão interagir com o público?


A questão é que cada visitante pode encontrar uma forma de se identificar com algo específico, por vezes encontrando interlocutores e linguagens que talvez não conhecesse antes e descobrindo-os aqui pela primeira vez. Pessoal e profissionalmente, vejo-me quase como o oposto da nostalgia. Penso nisto antes como uma oportunidade de pesquisa, uma forma das pessoas olharem em redor e expandirem as suas referências. Mesmo quando colocamos o design contemporâneo lado a lado com peças antigas, a intenção não é nostálgica, mas sim oferecer ferramentas e perspectivas que possam influenciar o design de hoje e de amanhã.

Quais foram os principais objectivos da antevisão do Salone Raritas em Londres e quais foram as reacções?


A antevisão em Londres foi concebida como uma oportunidade para apresentar o projecto a um público estrangeiro e testar a receptividade da ideia na comunidade de design local. A reacção foi extremamente positiva, confirmando o grande interesse em estabelecer uma conexão mais próxima com o Salone. Desde então, o projecto também foi apresentado em cidades como Berlim, Paris, Xangai, Los Angeles, Londres, Nova Déli e outras, onde foi recebido com grande interesse e participação.

O Salone del Mobile está a entrar no mercado de colecionadores ou nos circuitos de colecções de museus que viajam pelo mundo?


Em certo sentido, sim. É um reconhecimento de que o design hoje opera em múltiplos territórios. O Salone del Mobile continua a ser, primordialmente, uma plataforma profissional para a indústria do design mas também está atento ao ecossistema cultural mais amplo no qual o design se desenvolve. E não devemos esquecer que o mundo B2B de arquitectos, construtores e fornecedores, que representam o público principal do Salone, trabalha em estreita colaboração com instituições, museus e coleccionadores em tudo o que se relaciona ao mundo do design e dos projectos.

Que reflexão faz ao panorama actual dos designers em termos de sua postura profissional em relação ao contexto de produção e consumo?


Muitos designers hoje repensam hoje a sua relação com a produção. Ao mesmo tempo, as empresas procuram cada vez mais colaborações significativas capazes de expandir o seu potencial. Embora continue a ser importante ter ideias claras e um foco preciso, também vivemos num momento em que a troca de perspectivas e a disseminação de conversas e colaborações estão a abrir novos caminhos. De muitas maneiras, isto reflecte uma mudança mais ampla na disciplina. A hora de se concentrar apenas na própria área já passou; o que se torna necessário hoje é uma visão do panorama geral.

O que significa bom design para si?


O bom design é a capacidade de sintetizar um pensamento. É a habilidade de se concentrar nos detalhes sem, jamais, perder de vista o contexto.

Annalisa Rosso


Directora Editorial e Consultora de Eventos Culturais do Salone del Mobile.Milano além de Diretcora do Euroluce International Lighting Forum. Entre os projectos concebidos e desenvolvidos para o Salone, destacam-se a exposição “Interiors by David Lynch. A Thinking Room” em Milão e a instalação de performance “The Orbit’s Orbit”, de Matilde Cassani, em Xangai.

Foi também curadora de palestras com oradores como Shigeru Ban, Francis Kéré, Hans Ulrich Obrist e John Pawson.

É co-fundadora da Mr.Lawrence, uma consultoria de design estratégico que promove conexões significativas e define novas perspectivas de mercado. As principais colaborações incluem B&B Italia, Nemo Group, EMU, Ambientec, ETEL, Four Seasons Milano, DesignSingapore Council, Craft ACT Australia e IRTHI UAE.

Oradora convidada do TEDx e Embaixadora do Design para o Dia do Design Italiano em Praga, Hong Kong e Copenhague, integrou júris e comités, incluindo o Prémio de Design de Milão, o Design Parade, em Hyères, o Designblok, em Praga, o Collectible em Bruxelas, o Festival de Design de Madrid e o Conselho Consultivo da Società delle Api.



Mais informação em https://www.salonemilano.it/en/exhibitions/salone-internazionale-del-mobile